LIVRARIA ALVES
Primeira livraria, Rua da Bahia.
A Carne de Jesus, por Almáquio Diniz
(não leiam! obra excomungada pela Igreja)
rutila no aquário da vitrina.
Terror visual na tarde de domingo.
Volto para o colégio. O título sacrílego
relampeja na consciência.
Livraria, lugar de danação,
lugar de descoberta.
Um dia, quando? Vou entrar naquela casa,
vou comprar
um livro mais terrível que o de Almáquio
e nele me perder — e me encontrar.
Carlos Drummond de Andrade
em Boitempo
Miguilim queria ficar sempre perto, mas o Dito mandava ele fosse saber todas as coisas que estavam acontecendo. — “Vai ver como é que o mico está.” O mico estava em pé na cabacinha, comendo arroz, que a Rosa dava. — “Quando o vaqueiro Saluz chegar, pergunta se é hoje que a vaca Bigorna vai dar cria.” “— Miguilim, escuta o que Vovó Izidra conversar com a Rosa, do vaqueiro Jé mais a Maria Pretinha.” O Dito gostava de ter notícia de todas as vacas, de todos os camaradas que estavam trabalhando nas outras roças, enxadeiros que meavam. Requeria se algum bicho tinha vindo estragar as plantações, de que altura era que o milho estava crescendo. — “Vovó Izidra, a senhora já vai fazer o presépio?” “— Daqui a três dias, Dito, eu começo.” O Dito não podia caminhar, só podia pulando num pé só, mas doía, porque o corte tinha apostemado muito, criando matéria. Chamando, o Gigão vinha, vigiava a rede, olhava, olhava, sacudia as orelhas. — “Você está danado, Dito, por causa?” “— Estou não, seo Luisaltino, costumei muito com essas coisas...” “— Depressa que sare!” “— Uê, p’ra se sarar basta se estar doente.”
Meu-deus-do-céu, e o Dito já estava mesmo quase bom, só que tornou outra vez a endefluxar, e de repente ele mais adoeceu muito, começou a chorar — estava sentindo dor nas costas e dor na cabeça tão forte, dizia que estavam enfiando um ferro na cabecinha dele. Tanto gemia e exclamava, enchia a casa de sofrimento. Aí Luisaltino montou a cavalo, ia daí a mais de um dia de viagem, aonde tinha um fazendeiro que vendia, buscar remédio para tanta dor. Vovó Izidra fez um pano molhado, com folhas-santas amassadas, amarrou na cabeça dele. — “Vamos rezar, vamos rezar!” — Vovó Izidra chamava, nunca ela tinha estado tão sem sossego assim. Decidiram dar ao Dito um gole d’água com cachaça. Mas ele tinha febre muito quente, vomitava tudo, nem sabia quando estava vomitando. Vovó Izidra veio dormir no quarto, levaram a caminha do Tomezinho para o quarto de Luisaltino. Mas Miguilim pediu que queria ficar, puseram uma esteira no chão, para ele, porque o Dito tinha de caber sozinho no catre. O Dito gemia, e a gente ouvia o barulhinho de Vovó Izidra repassando as contas do terço.
No outro dia, o Dito estava melhorado. Só que tinha soluço, queria beber água-com-açúcar. Miguilim ficava sentado no chão, perto dele. Vovó Izidra tinha de principiar o presépio, o Dito não podia ver quando ela ia tirar os bichos do guardado na canastra — boi, leão, elefante, águia, urso, camelo, pavão — toda qualidade de bichos que nem tinha deles ali no Mutum nem nos Gerais, e Nossa Senhora, São José, os Três Reis e os Pastores, os soldados, o trem-de-ferro, a Estrela, o Menino Jesus. Vovó Izidra vez em quando trazia uma coisa ou outra para mostrar ao Dito: os panos, que ela endurecia com grude — moía carvão e vidro, e malacacheta, polvilhava no grude. Mas Dito queria tanto poder ver quando ela estava armando o presépio, forrando os tocos e caixotes com aqueles panos — fazia as serras, formava a Gruta. os panos pintados com anil e tinta amarela de pacari, misturados davam um verde bonito, produzido manchado, como todos os matos no rebroto. E tinha umas bolas grandes, brilhantes de muitas cores, e o arroz plantado numa lata e deixado nascer no escuro, para não ser verde e crescer todo amarelo descorado. Tinha a lagoa, de água num prato-fundo, com os patinhos e peixes, o urso-branco, uma rã de todo tamanho, o cágado, a foquinha bicuda. Quase a maior parte daquelas coisas Vovó Izidra possuía e carregava aonde ia, desde os tempos de sua mocidade. Depois de pronto, era só pôr o Menino Jesus na Lapinha, na manjedoura, com a mãe e o pai dele e o boizinho e o burro. E punha um abacaxi-maçã, que fazia o presépio todo cheirar bonito. Todos os anos, o presépio era a coisa mais enriquecida, vinha gente estranha dos Gerais, para ver, de muitos redores. Mas agora o Dito não podia ir ajudar a arrumação, e então Miguilim gostava de não ir também, ficar sentado no chão, perto da cama, mesmo quando o Dito tinha sono, o Dito agora queria dormir quase todo o tempo.
João Guimarães Rosa
Campo Geral
em Corpo de Baile 1º volume
José Olympio. Rio de Janeiro.
1ª edição. 1956.
Marcada por brincadeiras mais ou menos literárias, a amizade entre os dois escritores comportou um capítulo tragicômico no segundo semestre de 1940. Frieiro se recuperava de uma operação de apendicite — feita, por sinal, por Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte — quando sobreveio uma peritonite. Ficou morre-não-morre. Uma noite, depois de uma desalentadora conversa com Juscelino, Moacyr Andrade foi para casa e se pôs a escrever o necrológio do amigo. Queria tê-lo pronto para levar às oficinas do Minas Gerais tão logo se desse o óbito.
“A notícia de minha morte, no Minas, o preocupava”, registra Frieiro
Frieiro repisaria a história em mais de uma passagem de seus diários, sempre com muito bom humor. “Eu tenho a certeza de que serei enterrado com todas as honras, se o Moacyr ainda for o redator-secretário, por ocasião de meu óbito”, anotou em dezembro de 1944 — e acrescentou, em abril de 1946: “Ninguém enterra melhor que o Minas, e o Moacyr é o mais emérito dos enterradores”. O destino, porém, quis outro enredo. O cronista se foi primeiro, em setembro de 1979, num momento
Há mais gente da vida real, além de Eduardo Frieiro, mal disfarçada nas personagens de Memórias de um Chauffeur de Praça. Atílio Marcondes, no livro diretor do Diário do Governo, é Abílio Machado, que comandava o Minas Gerais. O secretário Borborema é mais do que uma rima para o ministro Gustavo Capanema. Cyro dos Anjos é Belmiro Borba — exatamente o pseudônimo que ele usava na imprensa e sob o qual vinha publicando,
As Memórias de um Chauffeur de Praça, em dado momento, falam da legendária “moça-fantasma” que, na vida real, assombrara a capital mineira e cuja história é contada, entre outros, por Drummond, na “Canção da Moça-Fantasma de Belo Horizonte”, poema incluído em seu terceiro livro, Sentimento do Mundo. Moacyr Andrade, nessa passagem, se vale do pretexto da ficção para criticar as liberdades que os modernistas estavam tomando com o diário do governo mineiro: “O poeta modernista De Monte já celebrara a moça misteriosa em versos magníficos, que até foram publicados no jornal oficial com moldura de vinhetas, por ordem especial do Secretário Borborema, protetor das artes e das letras”, diz o narrador das Memórias.
A publicação dos versos sobre a “moça-fantasma” no jornal oficial, quebrando a tradição cinqüentenária de sua austeridade de órgão venerando, foi tida pelo povo como confirmação oficial de sua aparição, quando em verdade não era senão homenagem do dr. Borborema ao poeta seu amigo, porque descobrira nos versos um sabor “goethiano” pronunciado e Goethe era a paixão literária daquele secretário de governo.
Drummond, parece, não se aborreceu. Tinha boa camaradagem com Moacyr Andrade, a quem fará referência amistosa no artigo “A Doce Música Mecânica”, escrito por ocasião dos oitenta anos da Imprensa Oficial de Minas Gerais, em 1972, e no qual evoca seus tempos de redator do Minas Gerais. “Comandava-nos (força de expressão) Moacyr Andrade”, lembra o poeta. “Era o menos formalista dos secretários, e dirigia o serviço entre piadas. O mais austero jornal de Minas, quiçá do Brasil, tinha redação alegre, descontraída.”
Humberto Werneck
jornalistas e escritores
Instituto Moreira Salles / Companhia das Letras.
São Paulo. 1992.
3) VIEIRA-REZENDE — Boa parcela da descendência Rezende Costa liga-se à família Vieira, que foi uma das fundadoras do atual município de Cataguases. Foi por volta de 1840 que o major Joaquim Vieira da Silva Pinto, natural de Queluz, se estabeleceu em sesmaria de três mil alqueires do nascente curato de Meia Pataca. Nas vizinhanças de sua propriedade se instalariam em seguida em outras enormes sesmarias, o seu irmão Antônio Vieira, o seu cunhado Francisco de Rezende, o seu concunhado Severino de Rezende, outro seu cunhado José Joaquim de Rezende, o seu genro Pedro Chaves, o seu sobrinho Antônio Vieira Coimbra, e, no vizinho município de São João Nepomuceno, outro seu cunhado, José Dutra Nicácio. O major Joaquim Vieira tornou-se guarda-mor das minas de Ubá e Meia Pataca, destacando-se ainda como chefe conservador influente da região. Seu filho José Vieira de Rezende e Silva seria o seu substituto na chefia política local. Em 1861 era eleito deputado provincial, reelegendo-se em seguida durante várias legislaturas. Criado o município de Cataguases, foi seu primeiro presidente. Na chefia política do município, sucedem-se o seu irmão Luiz Vieira Rezende, também deputado provincial, o seu filho Astolfo de Rezende, o seu sobrinho Astolfo Dutra Nicácio, que foi presidente da Câmara dos Deputados, o filho deste, Pedro Dutra Nicácio, com os parentes Afonso de Rezende, Edson de Rezende. Convidado a indicar os políticos que tiveram a liderança de seu município de origem, que é Cataguases, o atual deputado Edson Vieira de Rezende observou que todos eram seus parentes. É um domínio político familiar, que se prolonga por cerca de cem anos, só praticamente quebrado nos últimos tempos, por força do crescimento urbano e industrial da cidade. É interessante assinalar a propósito que na disputa aguerrida do controle político de Cataguases desde há vinte anos encontra-se uma família de industriais, os Peixoto.
Os Vieira-Rezende, entretanto, ainda são fortes politicamente tanto em Cataguases, como nas cidades vizinhas de Astolfo Dutra, Miraí, Laranjal, tendo um representante na Assembléia Estadual, outro, que foi deputado e prefeito várias vezes, na Comissão Executiva do PSD.
Nos municípios vizinhos estendem-se ainda grandes famílias de ação política dominante, estreitamente entrelaçadas por parentesco com os Vieira-Rezende. São os Dutra Ladeira,
Cid Rebelo Horta
Famílias Governamentais de Minas Gerais
em Análise & Conjuntura
v. 1, n. 2, maio/agosto – 1986.
Fundação João Pinheiro. Belo Horizonte.
A EXPEDIÇÃO DO CAMINHO NOVO
Havia pouco tempo que terminara a Guerra dos Emboabas, travada por brasileiros e reinóis na porção territorial de nosso estado, em que mais abundavam as minas. Foi pacificador dos povos o notabilíssimo Capitão General Antônio de Albuquerque, a quem o rei de Portugal em boa hora confiara tão elevada missão.
Nesse tempo São Paulo, Minas e Rio formavam uma só capitania. Antônio de Albuquerque teve ordem de desmembrar São Paulo e Minas da capitania do Rio, criando a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro. Veio também autorizado a inaugurar em Minas o Regime das Municipalidades e a criar as três vilas (as primeiras que se fundaram em nosso estado), as quais elegeriam livremente as suas câmaras. Isso se deu do ano 1709 ao ano de 1711, no princípio do século 18. Nove anos mais tarde,isto é, em 1720, foi o território de Minas desmembrado do de São Paulo, passando a constituir uma capitania independente — a Capitania de Minas Gerais, cuja capital foi Vila Rica (Ouro Preto) e cujo 1º governador e capitão-general foi D. Lourenço de Almeida.
Como íamos dizendo, foram criadas três vilas, a saber: Vila do Carmo, hoje Mariana, em abril de 1711; Vila de Albuquerque, hoje Ouro Preto, em julho do mesmo ano, e Vila Real, hoje Sabará, no mesmo mês e ano.
Uma das cerimônias mais interessantes daquela época era a fundação de uma vila. Era um ato solene, revestido de muitas formalidades, como vamos ver.
Antes de tudo levantava-se na praça pública o pelourinho. O pelourinho era o principal distintivo (símbolo) das vilas. Lugar que não tivesse pelourinho não podia ser vila: continuava sendo “arraial”. O pelourinho era uma coluna de pedra, originariamente com 4 faces ou lados (correspondentes aos 4 pontos cardeais), tendo nas quinas argolões de ferro e, às vezes, ostentando na base da coluna um desenho alusivo ao emblema da vila (armas, brasões), além da data da inauguração da vila, ou outros dizeres. A esses argolões de ferro eram amarrados os escravos, que deviam ser surrados na praça pública em castigo de faltas cometidas.
Enquanto se inaugurava o pelourinho, os sinos de todas as igrejas badalavam a um tempo só, em sinal de regozijo; a força miliciana (força pública), postava-se na praça, armada de mosquetes, e dava uma descarga de salvas; o povo, por sua vez, dava salvas de roqueiras.
Levantado o pelourinho, — dava-se a inauguração oficial da vila pelo corregedor, ou ouvidor, da Comarca.Em livro especial lavrava-se um assento (termo) da inauguração). Nesse termo deviam ser arrolados “o dia da inauguração, o nome da vila, os limites e confrontações de seu território”, além dos “nomes do ouvidor, do capitão-mor da vila (nomeados na ocasião), do mestre-de-campo da vila (nomeado também na mesma ocasião). Assim como os “nomes dos juízes e oficiais da câmara” (vereadores) eleitos em eleição (escrutínio), presidida pelo mencionado ouvidor.
Carlos Góis
em Histórias da Terra Mineira
Garnier. Rio de Janeiro.
1994.
XVIII
Os sobreditos pretos alugados devem ser capazes de todo o serviço, isto é, nem velhos nem rapazes. A inspeção sobre os seus procedimentos deve competir aos Administradores que com eles trabalharem, debaixo de sujeição da Administração Geral dos serviços. Todos os sobreditos pretos serão vigiados e se tomarão com eles as mais assíduas e exatas cautelas, dando-se-lhes as mais repetidas e rigorosas buscas. Os que forem achados com balanças, com vendas ou com quaisquer outros sinais de traficância serão condenados a galé pelo tempo proporcionado aos indícios que contra eles se resultarem e não serão mais admitidos a entrar nos serviços. Achando-se-lhes negros que pareçam fugidos, serão entregues aos seus donos, fazendo-se-lhes pagar a tomadia deles e assinar termos de os venderem para fora da comarca debaixo de pena de despejo. Sendo os ditos negros forros ou escravos dos que andam a ganho, serão em todo o caso obrigados a despejarem a comarca e com eles os donos, se os tiverem por ser este o meio mais ordinário de que só costumam servir os descaminhadores de diamantes.
XIX
A escolha dos escravos que for necessário alugar, conforme a referida determinação, e igualmente a preferência que devem ter os seus respectivos senhores, serão reguladas com uma prudente igualdade pelo desembargador Intendente dos Diamantes e pelos três Caixas administradores, preferindo-se os escravos de maior habilidade e experiência dos quais não houver indícios de serem descaminhadores de diamantes. Em segundo lugar, se alugarão os escravos daquelas pessoas que se distinguem no serviço da Administração, concedendo a cada uma delas, conforme o seu préstimo, zelo e fidelidade, o aluguer de maior ou menor número de escravos. Em terceiro lugar, serão alugados os negros dos moradores, do distrito da Demarcação das Terras Diamantinas, conforme a maior ou menor quantidade de escravos que tiverem empregado nas suas lavras, lavouras ou outros exercícios. E se não atenderão a aqueles que houverem acumulado escravos só com o fim de os alugarem para os serviços da extração, com um abuso o qual mando seja inteiramente abolido, com os absurdos que o acompanharam.
XX
Depois de haver sido determinado o número de escravos que se hão de alugar e de haver sido feita a referida regulação de escolha dele pelo desembargador Intendente e pelos Caixas-administradores, não será lícito a pessoa alguma de qualquer qualidade ou condição que seja, formar pretensões ou alegar direito de preferência para que lhe admitam os seus escravos, debaixo das penas de ser havido por perturbador do sossego público, como tal desterrado para fora da comarca e castigado com as penas que merecer. Permito, porém, que as pessoas que foram preteridas nesta disposição dos alugueres dos escravos, possam requerer à Mesa da Inspeção e Administração de Lisboa, com a justiça que se considerarem para que, ouvindo o desembargador Intendente e mandando se informar, me dê conta para eu dar toda a necessária providência ou para fazer justiça aos agravados ou para castigar os acusadores, se reconhecer que as queixas são injustas e nascidas de um espírito sedicioso ou de desordenada cobiça.
XXI
Nenhumas pessoas que não sejam moradores no distrito da Demarcação dos Diamantes, poderão ter neles negros em cabeças de outras pessoas para os alugarem ao Contrato. E provando-se que os têm, depois de haverem os senhores deles pago a tomadia, serão obrigados a servir nas galés pelo tempo de três anos, de seis pela segunda, e de dez pela terceira vez, sendo os escravos do mesmo dono compreendidos na primeira transgressão deste artigo.
XXII
A admissão ou exclusão dos Administradores subalternos, feitores e mais empregados no serviço da Administração pertencerão privativamente ao Inspetor Geral e aos Caixas da Administração de Lisboa. Os quais com a aprovação do dito Inspetor despedirão todos aqueles que bem e fielmente não cumprirem com as suas obrigações, sem que estes possam formar perturbações, depois de despedidos, para serem admitidos por qualquer causa ou pretexto que seja.
Aires da Mata Machado Filho
em Arraial do Tijuco Cidade Diamantina
Itatiaia. Editora da Universidade de São Paulo.
Belo Horizonte. São Paulo.
3ª edição. 1980.
A respeito da palavra “querosene”, um dos produtos de mais intenso comércio depois da sua descoberta em 1854, supôs-se que seria corruptela da firma carioca Queirós, Enes & Cia., primeira importadora desse produto do petróleo. Foi Afonso de Taunay quem apurou ser o verbete de boa e legítima cepa ianque.
Muitos plantadores de café, cana, milho, arroz, algodão etc., mantinham grandes lotes de burros para o transporte da sua produção, mas inúmeros outros se utilizavam dos tropeiros profissionais para esse serviço. Basta dizer que Kidder e Fletcher foram informados de que duzentas mil mulas, anualmente, deixavam em Santos a produção do interior de São Paulo e do sul de Minas e Goiás.
Por ocasião da revolução Farroupilha, esforçando-se o governo em isolar a Província conflagrada, proibiu o tráfego de muares procedentes do Rio Grande e da Banda Oriental. Era um sério golpe na economia da Província, que hauria grande parte da sua riqueza no comércio de animais para as Províncias do norte, e os clamores não se fizeram esperar. Comerciantes de Cruz Alta, onde estavam detidas milhares de cabeças, se dirigiram ao governo que, por aviso de 1 de agosto de 1842, concedeu permissão para conduzi-las à Província de São Paulo, prorrogando a autorização contida no aviso de 17 de maio do mesmo ano.
Desde 1825, aliás, estavam suspensas as proibições contidas na legislação colonial, com respeito ao comércio de muares, de vacas e éguas, conforme o ofício de 29 de novembro dirigido ao presidente da Província de Minas, então o futuro visconde de Caeté.
O príncipe Maximiliano, que percorreu as Províncias do Rio de Janeiro, Espírito Santo e parte das de Minas e Bahia em meados do século passado, fala longamente do fenômeno das tropas e confessa a sua admiração pelo que observou. “É espetáculo interessante — diz ele — o de uma dessas tropas, aliás características dos campos gerais. Sete burros formam um lote, conduzido e atrelado por um homem, que dele cuida. O primeiro animal da tropa tem uns arreios pintados e guarnecidos de numerosos guisos. O chefe da tropa vai a cavalo, na frente, com alguns de seus associados ou ajudantes; todos vão armados de compridas espadas e vestem botas de couro castanho, que sobem até muito
Para arriar-se o burro, põe-se-lhe primeiro, ao lombo, uma albarda, “que é de madeira e tem uma forte saliência vertical nas suas extremidades da parte superior; suspendem-se nelas, de cada lado, as caixas ou sacos a se transportarem. A fim de diminuir a pressão dessa cangalha, forram-se internamente com capim seco, de longas folhas estreitas e que é estendido bem por igual; põe-se por cima desse colchão de capim um coxim feito de esteiras e cobre-se este com um pano de algodão. A albarda assim acolchoada é, ainda, guarnecida de um couro recortado; a parte externa deste tem dois orifícios para deixar passar as pontas da cangalha, em que se suspendem as cargas. Amarra-se, na frente dessa cangalha, uma correia larga e, atrás, uma outra comprida: estas duas correias são indispensáveis quando se sobe ou desce uma montanha. Uma tira de couro cru, fortemente amarrada e presa a um nó, dá a volta da cangalha e fixa-a solidamente”.
João Dornas Filho
Aspectos da Economia Colonial
Itatiaia. Belo Horizonte.
2ª edição. 1959.
Passado o tempo, nota-se que a economia mineira não ofereceu resposta dinâmica no quadro brasileiro. Agigantou-se a atividade industrial, mas sem eficiência integradora. Antes, aprofundou a dependência econômica do estado à demanda internacional (café, minério e soja) ou aos interesses multinacionais (indústria alimentícia e automobilística). O setor bancário esfacelou-se em proveito de outras unidades da federação. A indústria siderúrgica expandiu-se sem adotar posição de liderança. As demais atividades mantiveram-se no mesmo grau e dependência em relação aos estados limítrofes.
Entretanto, pesquisa desenvolvida pelo Programa de Estudo dos Estados da Fundação Getúlio Vargas revela que Minas Gerais, detendo 12,52% do Produto Interno Bruto, situa-se em segundo lugar em produção, entre os estados brasileiros, superado apenas por São Paulo, que contribui com 35,77% do PIB.
A participação relativa de Minas Gerais no PIB nacional vem-se avolumando a partir de 1970. Vê-se, da tabela anexa, o incremento da participação mineira, que registra 8,28% em 1970.
Simultaneamente ocorre o declínio do peso relativo do Rio de Janeiro no Produto Interno Bruto, que aponta 16,67% em 1970 e apenas 10,91% em 1990.
O estudo da Fundação Getúlio Vargas indica, além de Minas Gerais, os Estados do Paraná, da Bahia, de Goiás e do Mato Grosso do Sul como os novos centros dinâmicos da economia brasileira. Talvez o resultado, segundo Istvan Karoly Kasznar, do êxito do esforço de interiorização do crescimento, iniciado pelo presidente Juscelino Kubitschek nos anos 50.
Sente-se, igualmente, pela tabela, uma desaceleração da economia de São Paulo, cuja participação no PIB cai de 39,43% para 35,77%, em face da retração industrial do país na década de 80, bem como do declínio dos investimentos estrangeiros.
O avanço da economia mineira é atribuído ao fomento continuado à pequena e média empresas, apoiado na oferta de infraestrutura industrial e na capacitação técnica dos recursos humanos.
Tudo isto aponta para o fortalecimento da classe média urbana do Estado, o que certamente refletirá no âmbito da cultura e da política.
Fábio Lucas
Mineiranças
Oficina de Livros. Belo Horizonte.
1991.
FEBRE DE INSTRUÇÃO
O espírito do século XVIII — o espírito novo — inclinava-se para a observação e a experiência. Descobria-se a natureza externa, procurava-se o real. O mundo era vasto e desconhecido; a natureza humana, diversa e complexa. As relações dos grandes viajantes e exploradores marítimos — Anson, Cook, Bougainville — lidas com avidez, incutiam por toda a parte o gosto das viagens. Para os que não podiam ou não queriam viajar, escreviam-se livros mais ou menos documentados e pitorescos. O filósofo Kant, sedentário e comodista, jamais saíra da sua cidade natal, a não ser para lecionar algum tempo num lugarejo vizinho; mas — homem de sua época — gostava da geografia e da etnologia de terras longínquas, e metade de sua pequena biblioteca constituía-se de narrações de viagens.
Essa literatura entrou também na livraria do Cônego Luís Vieira da Silva e ali se achava representada principalmente — entre outras obras provavelmente existentes mas não especificadas na relação das que lhe foram seqüestradas — pelo livro de Robilon e Banks, Voyages Autour du Monde, em quatro volumes, e por outro muito anterior à dromomania do século XVIII, o intitulado Novus Orbis Regionum ac Insularum Veteribus Incognitarum, compilação de narrativas de viagens modernas, tomadas a diversos viajantes, pelo célebre teólogo e filólogo protestante Simon Grynaeus, amigo de Erasmo e Melanchton. Nessa obra, publicada em Basiléia, 1532, apareceu um mapa-múndi, logo famoso, com curiosos desenhos e interessantes descrições das terras americanas.
O livro de Banks referia-se às viagens que o célebre naturalista inglês realizou pelo mundo, para formar sua coleção de plantas e enriquecer sua biblioteca de todos os livros relativos à ciência de que se ocupava. Banks visitou primeiramente, no navio de um capitão amigo, as regiões frias da Terra Nova e do Labrador. Depois, fez parte da expedição de Cook aos mares do Sul, em 1768. Passando pelo Rio de Janeiro, empenhou-se em explorar com seu companheiro Solander (discípulo de Lineu) a flora e a pequena fauna do Rio e arredores. O governador da cidade, não compreendendo que alguém pudesse empreender penosas e arriscadas excursões com o fim único de herborizar e caçar borboletas, recebeu hostilmente os visitantes. Estes, não obstante, conseguiram percorrer todas as ilhas da baía e recolheram boa quantidade de plantas e insetos.
Sobre geografia tinha o Cônego dois dicionários, ambos em francês (um seria, provavelmente, o de Ladvocat e Vosgien) e a Géographie Moderne, em dois volumes, de Nicolle de Lacroix, que durante muito foi clássica na França.
Ao gosto da geografia e das viagens e explorações prendia-se o gosto das ciências e, em particular, das ciências naturais. E também o gosto dos estudos históricos, pois a história confirma a geografia, ou esta confirma aquela.
De História Natural, anotamos o Dictionaire Universelle d’Histoire Naturelle, em seis volumes, de Valmont de Bomare, naturalista francês que muito concorreu para difundir a ciência que professava; um volume com as Mémoires Instructives sur l’Histoire Naturelle e ainda um livro relacionado com o assunto, de Bernardin de Saint Pierre, os Estudos da Natureza, muito lido na época.
Era grande a difusão e a influência da ciência. O estudo das ciências experimentais penetrava no ensino. A escolástica desaparecia do ensino científico dos colégios e mergulhava no ridículo. E até os jornalistas — apedeutas crônicos — justificavam o estudo da Física e das Matemáticas. A moda propagou-se às próprias mulheres. Na opinião de um filósofo da época, a Física era uma das mais nobres e virtuosas ocupações do espírito humano.
Eduardo Frieiro
O Diabo na Livraria do Cônego
Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo.
Belo Horizonte / São Paulo.
O vento seco vinha da noite inteiramente preta. Na sala de jantar grupos sentados em bancos, contra as paredes, conversavam em voz baixa. No lampião belga que pendia do teto de esteira, a chama crescia no vidro a cada lufada. O casarão parado no meio da sombra. Carmo Peres, abancado na varanda ao lado do amigo, olhava a noite.
— Puxa, que escuridão. “No princípio, era o nada...”
Fernandes se estendera num banco, de olhos cerrados, as mãos sobre o peito de onde brotava um suspiro de vez
— Por que esta fazenda se chama Grota?
— Nunca procurei saber por quê. Talvez por causa da construção da casa na base da montanha, com um porão aberto na pedra pela escravaria, lá onde estão os tanques de garapa, os alambiques, as tachas de rapadura, uma sujeira antiga conservada até hoje pelo relaxamento. Como tudo aqui.
— Mas você poderia ter dado um jeito nisso. Aconselhado seu pai a respeito de melhoramentos. Mais conforto, maquinismos, aparelhos sanitários.
— Ora, eu quero lá saber de fazenda, Peres... Ah, o ribeirão que passa a um quarto de légua daqui, aquele do pontilhão de concreto da estrada, é o ribeirão da Grota. Uma coisa ou outra explica o nome.
Misturados com o vento, iniciaram-se atrás da casa uivos de cachorros. Verdadeiros gritos de dor, ganidos que foram aumentando, ganhando força de desespero. Cresciam, se extinguiam, voltavam, diminuíam, permaneciam.
— Devem ser os cães de caça de meu pai. Uma cachorrada impossível. Devido à doença, ou à presença de você, estão presos; senão, estavam pelos cômodos, trançando entre as pernas da gente.
— Mas vi alguns cachorros por aí.
— São os menos imprudentes, cães caseiros. Os de caça geralmente são mal educados, exigentes.
— Ahn... Mas que noite, Fernando. Nunca me senti tão isolado no mundo. Isolado do mundo. Isso é mil vezes pior do que a noite num pequeno navio no alto mar. Lá tem pelo menos a trepidação barulhenta das máquinas, atividade humana. Aqui, talvez pelo marasmo, não sei que espécie de desânimo, sentimento de inutilidade... A solidão, o isolamento completo. Imagino toda uma existência aqui! Numa noite assim eu colocaria possantes holofotes nesta varanda, passaria o jato de luz em redor até longe. Pra me certificar constantemente de que a casa não se tinha desgarrado para o infinito... Isto assim impressiona a gente, fora de brincadeira.
O coronel chegou subitamente ao peitoril da varanda, espiando a sombra na direção do terreiro:
— Felisbino, Felisbino diabo!
— Senhor!
— Você esqueceu de dar comida aos cachorros, negro à-toa!
Na escada de pedra os passos descalços quase correndo e Felisbino se revelou à luz do lampião: preto de olhos vivos, pelos vinte anos, sujo e fedorento. O mesmo que, sem camisa, abrira a porteira à chegada. Sem camisa ainda, mas vestindo um velho paletó de casimira, esmolambado, amplíssimo para ele.
— Seu velho enxergou o negro no terreiro. O negro no preto, ou vice-versa. Pra ele não há escuridão absoluta nestas paragens.
— É o treino dos homens envelhecidos longe da luz elétrica: enxergam no escuro, mas não enxergam longe.
— Pretensões, bacharel... Em todo o caso, pros que não têm tal treino, devia existir nesta varanda o holofote.
— Seria interessante... Mas a verdade é que vim encontrá-la morta, como falei. Esse estertor horrível já não é vida. Vida seria conhecimento: se ela me pudesse ver a seu lado, saber que vim logo...
— Mas há verdadeiros milagres, às vezes, contra os dogmas da ciência.
— Não me console com miragens. Estou perdido. Tanta ingratidão com minha mãe... Que é que vai ser de mim?
Os olhos estavam rasos d’água. O médico olhou com espanto aquela teatralidade. Veio um silêncio.
— O uso do cachimbo faz a boca torta.
— Quê?
— Nada, Fernando? Uma coisa em que eu estava pensando. Console-se, meu amigo.
— Que é que hei-de fazer senão me consolar... Estou me lembrando agora é de Orminda e do guri.
O lampião se apagou a uma lufada mais forte. Já nem mesmo a casa existia. Carmo Peres teve um arrepio que o tomou sem tempo para um controle psíquico. Aliás, a escuridão trouxe um silêncio tal que era iminente... Sem atingir o fim de seu pensamento, definir sua impressão, o médico somente se perguntou absurdamente por que não reagiam, apesar da rapidez do instante, ameaça, perigo, sombra... Esticou o braço para tocar no amigo, desencruzou as pernas para tocar com as plantas de ambos os pés as tábuas que sabia grossas e seculares. Seria mesmo? Seria o quê? Ia dizer alto: Fernando, você está aí? Mas o instante foi curto, bem menos de um minuto, e a voz do fazendeiro reboou lá dentro:
— Felisbino, Felisbino diabo!
— Jesus! — exclamou outra voz, de mulher, num esforço dentro da sombra, quase num gemido.
Reaceso o lampião pelo preto, Peres, humilhado, se ergueu para fechar a porta que ficava em frente da chama; a varanda continuaria iluminada pelas janelas. O coronel o deteve com um gesto imperativo:
— Deixe a porta, doutor. Faz favor de vir cá. A alma...
— Que besteira, meu pai.
— Meu filho, você bem sabe que não é besteira. Que tem mais de cem anos que é assim... Mas, se o doutor não acredita, venha ver: a alma do meu bisavô Francisco.
João Alphonsus
Companhia Editora Nacional. São Paulo.
1935.
Vejam como o nosso professor Abdias reagiu ao uísque da adega do dr. Azevedo. Volta para casa tarde e, encontrando a mulher a dormir, desliza, sorrateiro, para o escritório, onde já nem percebe o frio, e se põe a escrever de irreais amadas... Por pouco nos sai com uma teoria platonizante acerca do amor!
Se mestre Kant, o mais austero dos filósofos, tomasse, de vez em quando, o seu pileque... Bem, não digamos tolices. Vamos ao relato do que houve em casa de Gabriela e que foi omitido, com a digressão de ontem.
Tudo se passou sem maiores complicações. Os Ataídes de Azevedo são, na verdade, encantadores e cedo venceram as reservas com que entrei na casa. Gabriela havia-me enganado, fazendo crer que se tratava de um chá na intimidade, para que seus pais me conhecessem. Houve, com efeito, o chá, mas o programa foi além.
Fazia anos ontem (dezessete, contou-me o Dr. Azevedo) e quis associar-me à sua pequena festa.
Supôs que a reunião da noite, que seria mais ruidosa, pudesse não me agradar — explicou — e por isso lembrou-se do chá. Também teria sido difícil apanhar o Dr. Azevedo em casa, àquela hora, noutro dia que não fosse o do aniversário dela. Durante a semana, está sempre na sua Clínica, pela tarde, e os domingos passa-os no Country Club ou num sítio que possui na Pampulha, nas proximidades da represa que a Prefeitura está construindo.
Mas, com a ajuda da bebida e a sem-cerimônia com que às vezes me conduzo, vencida a desconfiança inicial, fiquei não só para o chá, como também para o jantar e até para a reunião da noite. É verdade que, fazendo-o, apenas cedi a instâncias do Dr. Azevedo, que verifiquei ser excelente companheiro, e de Glória, que teve prazer em recordar os tempos passados em Várzea dos Buritis.
Desde que cheguei, feitas as apresentações, a conversa orientou-se, animada, para esses velhos tempos.
Daí a pouco, tratavam-me como antigo amigo da casa, e o Dr. Azevedo — com protestos de Glória, que será, como todas as mulheres, um tanto formalista, mas com aplausos de Gabriela, que acha graça no pai — falou-me que esse negócio de chá era mais adequado às damas e o melhor era passarmos ao seu gabinete de música, onde nos aguardavam alguns discos e uma garrafa de velho uísque.
Cyro dos Anjos
Abdias
José Olympio. Rio de Janeiro.
1ª edição. 1957.
De madrugada, todo o mundo acordou cedo demais, a Maria Pretinha tinha fugido. A Rosa relatava e xingava: — “Foi o vaqueiro Jé que seduziu, corjo desgramado! Sempre eu disse que ela era do rabo quente... Levou a negrinha a cavalo, decerto devem de estar longe, ninguém não pega mais!” O cavalo do vaqueiro Jé se chamava Assombra-Vaca. O vaqueiro Jé era branco, sardal, branquelo. Como é que foi namorar completo com a Maria Pretinha? A Rosa também era branca, mas era gorda e meia-velha, não namorava com ninguém. Quando a Rosa brabeava, desse jeito assim, Papaco-o-Paco também desatinava. Aquilo ele gritava só numa fúria: — “Eu não bebo mais cachaça, não gosto de promotor! Filho-da-mãe é você! É você, ouviu!? É você!...”
O Dito não devia de ter ido de manhãzinha, no nascer do sol, espiar a coruja em casa dela, na subida para a Laje da Ventação. Miguilim não quis ir. Era uma coruja pequena, coruja-batuqueira, que não faz ninhos, botava os ovos num cupim velho, e gosta de ficar na porta — no buraco do cupim — quando a gente vinha ela dava um grito feio — um barulho de chiata: “Cuíc-cc’-kikikik!...” e entrava no buraco; por perto, só se viam as cascas dos besouros comidos, ossos de cobra, porcaria. E ninguém não gostava de passar ali, que é perigoso: por ter espinho de cobra, com os venenos.
O Dito contou que a coruja eram duas, que estavam carregando bosta de vaca para dentro do buraco, e que rodavam as cabeças p’ra espiar pra ele, diziam: “Dito! Dito!” Miguilim se assustava: — “Dito, você não devia de ter ido! Não vai mais lá não, Dito.” Mas o Dito falou que não tinha ido para ver a coruja, mas porque sabia do lugar onde o vaqueiro Jé mais a Maria Pretinha sempre em escondido se encontravam. — “Que é que tinha lá, então, Dito?” — “Nada não. Só tinha a sombra da árvore grande e o capim do campo por debaixo.”
Mas no meio do dia, o mico-estrela fugiu, correu arrepulando pelas moitas de carqueja, trepou no cajueiro, pois antes de trepar ainda caçou maldade de correr atrás da perua, queria puxar o rabo dela. Todo o mundo perseguiu ligeiro pra pegar, a cachorrada latindo, Vovó Izidra gritava que os meninos estavam severgonhados, Mãe gritava que a gente esperasse, que a Rosa sozinha pegava, Drelina gritava que deixassem o bichinho sonhim ganhar a liberdade do mato que era dele, o Papaco-o-Paco gritava: “Mãe, olha a Chica me beliscando! Ai, ai, ai, Pai, a Chica puxou meu cabelo!...” — era copiadinho o choro de Tomezinho. A gente tinha de fazer diligência, se não já estava em tempo d’os cachorros espatifarem o pobre do mico. Não se pegou: ele mesmo, sozinho por si, quis voltar para a cabacinha. Mas foi aí que o Dito pisou sem ver num caco de pote, cortou o pé: na cova-do-pé, um talho enorme, descia de um lado, cortava por baixo, subia da outra banda.
— “Meu-deus-do-céu, Dito!” Miguilim ficava tonta de ver tanto sangue. “— Chama Mãe! Chama Mãe!” — o Dito pedia. A Rosa carregou o Dito, lavaram o pé dele na bacia, a água ficava vermelha só sangue, Vovó Izidra espremia no corte talo de bálsamo da horta, depois puderam amarrar um pano em cima de outro, muitos panos, apertados; ainda a gente sossegou, todo o mundo bebeu um gole d’água, que a Rosa trouxe, beberam num copo. O Dito pediu para não ficar na cama, armaram a rede para ele no alpendre.
João Guimarães Rosa
Campo Geral
em Corpo de Baile 1º volume
José Olympio. Rio de Janeiro.
1ª edição. 1956.
Freguezia de Taquarussú.
A freguezia do Santissimo Sacramento de Taquarussú foi creada pelo § 9º do art. 1º da lei provincial n. 209 de 1841. Dista da sede do termo 5 ½ legoas, da capital da provincia pela estrada de Matto Dentro 16, e pelo alto do Pires 11. Tem de norte a sul 9 legoas e de leste a oeste 4, e confina com as freguezias de Roças-Novas pelo Rio Preto e Morro, entre as fazendas do Mello e finado Antonio José da Costa Guimarães; com a da Lapa pelo campo de S. Antonio; com a de Santa Luzia pelo Rio Vermelho; com a da Lagoa-Santa pelo Rio das Velhas e estrada antiga do Serro; com a de Jaboticatubas pela estrada que dividia antigamente os dous districtos do Rapozo e Taquarussú e com as da cidade da Conceição e freguezia do Morro do Pillar pelo Rio Sapé. Está situada na margem do Rio das Velhas. Sua população orça por 5,100, dá 425 votantes e 9 eleitores.
Subdelegado
José Antonio Pinto.
Inspector Parochial
Conego Candido Affonso dos Santos Lage.
Vigario
Conego Candido Affonso dos Santos Lage.
Negocios de fazendas seccas
Carlos Frederico de Sá.
Generos do paiz
Domingos Francisco.
Joaquim Baptista Pingueiro.
José Ferreira da Silva.
Francisco Soares Junior.
João Baptista Nunes.
Antonio José de Lima.
Joaquim Carlos.
José Nunes dos Anjos.
Bernardino Antonio de Avellar.
José Pereira da Silva Junior.
Elisiario Augusto Soares.
Antonio Amalio de Candú.
José da Silva Junior.
Antonio Moreira Teixeira.
Fazendeiros que cultivão canna
Manoel Pinto Moreira.
D. Maria Joaquina dos Santos.
Antonio Teixeira Pinto.
(viuva de) Augusto da Costa Moreira.
D. Anna Theodora de Bittencourt.
Felicissimo dos Santos Ferreira e Comp.
Joaquim da Costa Moreira e Comp.
José Pinto dos Santos.
(os herdeiros de) Francisco das Chagas Torres.
José Amancio Pinto.
Luiz Quintão e Silva.
Rev. João da Costa Vianna.
Estevão Rodrigues Cortes.
Joaquim Marianno.
Marianna Carlota.
(a viuva de) Antonio Soares.
(o recolhimento de) Macaúbas.
O director da companhia ingleza de Cocáes.
D. Rita Theodora.
Antonio José de Castro.
Antonio Ferreira Torres.
Felicissimo Pereira da Silva.
Joaquim Regino.
José Alves Portella.
João Theotonio.
Manoel Gonçalves.
(a viuva de) Clemente Antonio da Silva.
Francisco Matheus de Castro.
Felicissimo Alves Ferreira.
Paulo Pereira de Souza.
Almanak Mineiro
publicado
(mantida a ortografia da época)
Esse local, a Lagoa do Sumidouro, deveria ter um tratamento especial. Ela foi palco de uma descoberta de grande importância histórica e científica. O estado atual da lagoa, do paredão em cuja base escoa a água e do entorno é lamentável. A lâmina de água foi cortada por um aterro, para se fazer uma estrada, o entorno recebe detritos em grande quantidade e o paredão é alvo constante de pichações que conseguiram estragar uma série de pinturas que testemunham o homem primitivo. A Lagoa do Sumidouro é um monumento ao descaso e ao abandono de um patrimônio cultural. Ainda bem que está protegida pela lei...
Pelo escrito anteriormente, deduz-se que o Rio das Velhas foi a causa principal da existência de fósseis nas grutas da região de Lagoa Santa. Sem a ação das águas haveria nas grutas, no máximo, pequenos mamíferos troglófilos (que podem refugiar-se ou habitar em grutas como os morcegos e roedores), os depositados por corujas e os raros que penetrassem acidentalmente nelas. Mas nunca na quantidade que Lund encontrou.
Após dez anos de pesquisas, o notável sábio abandonou seu trabalho de paleontólogo. Dificuldades econômicas, revoluções do período colonial, que tornaram perigoso o trabalho de campo, os achados repetitivos que pouca novidade lhe traziam, o medo do erro, uma vez que era difícil receber publicações novas na solidão de Lagoa Santa, as novas tendências da Biologia e as descobertas que fizera na Lagoa do Sumidouro, que esvaziaram seu paradigma científico, fizeram com que optasse por uma aposentadoria paleontológica. Preparou sua coleção e enviou-a para sua distante pátria onde está depositada no Museu de Zoologia da Universidade de Copenhague.
Por meio do material fóssil, coletado por ele, ou por outros pesquisadores, foram determinadas cerca de cento e trinta espécies que ainda sobrevivem e trinta extintas no vale do Rio das Velhas, o qual, por séculos, foi depositando no interior de numerosas grutas excepcional amostragem da vida do passado que Lund recolheu. Ele foi, na verdade, o cientista que resgatou o que as águas arquivaram. Mais uma que devemos ao Rio das Velhas e a seus afluentes.
Cástor Cartelle
Lund, o coletor do passado
em Navegando o Rio das Velhas das Minas aos Gerais
volume 2: Estudos sobre a Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas
org. por Eugênio Marcos Andrade Goulart
Projeto Manuelzão – Faculdade de Medicina da UFMG.
OS CAMPOS BRASILEIROS
“Nuvens,
Névoas, sombras, luz de sóis de ouro,
Vibrações do luar
Há entre tudo penetração e compreensão
Aliança e entendimento
Mas só o sentem os corações feridos
e as almas livres...”
Wordsworth
A palavra campo — campus — traduz bem a nossa expressão prairie. Não significa, porém, uma planura elevada, de formação semelhante à dos mares de grama do Orenoco, mas enfadonhas estepes da Tartária ou das grandes planuras russas e polonesas — fundos secos de lagos ou pântanos; nem tampouco apresenta paralelo com os planaltos ondulados do Kansas ou dos territórios transmississipianos. No Brasil oriental é uma superfície com colinas arredondadas, entre 300 e 600 pés de altura, geralmente d enível desigual e dispostas sem regularidade, e não em linha ou em ondas gigantescas, como as vastass elevações dos mares da África do Sul. Cada elevação é separada da vizinha por uma grota ou vale, profundo ou raso, que, muitas vezes, pode ter sido um lago. Esses vales são em geral cobertos de florestas e, durante as chuvas, ficam cheios de lama ou de correntes de água. Na província de são Paulo, o alto dos mosntículos tem um perfil mais baixo e às vezes assemelha-se a uma planície, enquanto que em Minas, exceto nas fronteiras, raramente esses cimos possuem extensão suficiente para localização de uma cidade. os declives dos montes e dos pouco profundos vales alternam-se progressiva e ininterruptamente através da província do Paraná e atingem seus máximos nos pampas e llanos, as despidas e pobres landes do sul.
Os campos formam a terceira região desta parte do Brasil, seguindo-se na direção ocidental, à Serra Marítima e à beira-mar, ou região costeira. É constituída por um plateau sedimentar e estratificado de 2.000 a 2.500 pés de altura, atingindo a leste, ou na direção do mar, a grande cadeia plutônica e não estratificada que tem cerca de 3.000 e 4.000 pés. Gardner encontrou em um ponto da Serra dos Órgãos 7.800 pés de altura. Assim, nessa região do Brasil, como em Zanzibar, na África, a linha das cumeeiras não fica no inteior, mas próxima à costa. Além disso, as montanhas não atingem grandes altitudes, como na Grécia (8.250 pés). Entramos agora nas vastas formações de itacolomitos e itabiritos que caracterizam as cadeias de montanhas do interior e que se estendem, com intervalos, até os Andes. O solo é composto de rochas hipogêneas cristalinas, granitos e sienitos que, em raros lugares se arqueiam e se revelam, em geral, onde os leitos dos grande srios cortaram os depósitos superiores. Assim, para não citar outros exemplos, no vale do Nilo, com 400 milhas de comprimento por doze de largura, o granito abre caminho até as cataratas através do calcário e da areia; no Uniamwesi encontrei enormes afloramentos de rochas plutônicas rompendo através das netunianas. O Sr. Chaillu (2ª expedição, cap. XV, p. 292) descreve fenômeno semelhante em Mokenga, na ilha Ishogo, a cerca de 150 milhas em linha reta da costa africana ocidental.
Colocadas ora em plena conformação, ora em desconformidade sobre esta base ondulante, as rochas cristalinas e estratificadas, quer no interior, quer na costa, ficam, como as fendas naturais e os cortes artificiais o provam, sobre o leito de seixos, principalmente de quartzo, ora rolado pela água, ora agudo ou anguloso, dispostas em nível ou em camadas onduladas, como que depositadas por águas serenas, ou por força do gelo. Superjacente, de novo, está a profunda e rica camada de barro, que faz do Brasil, como a África, uma terra de Ofir — terra vermelha, cor de ocre, altamente ferruginosa, homogênea e quase não estratificada, outrora uma massa de areia e argila, com seixos e rochedos espalhados indiscriminadamente sobre o depósito. A superfície é silicosa e argilosa, pobre e amarela, parca de húmus e com pouco quartzo espalhado e pedras de areia, geralmente contendo ferro.
Esta formação felizmente a livra das terríveis tempestades de areia da Ásia e da África.
A primeira vista desses campos trouxe-me fortemente à lembrança Ugogo, na África oriental, região árida e plana, privada de chuva pela interposição das úmidas montanhas de Usagara. A analogia com a formação elevada da África interior apresentou-se-me naturalmente. A principal diferença está em que, segundo se percebe por uma rápida vista de olhos em qualquer mapa, a vasta região lacustre do continente africano está mal representada no americano. O declive drenador da América do Sul é mais regular e suas “bacias continentais” não encontram nenhuma frincha na rocha como o leito do Tanganica, nem vastas concavidades como as do vitória-Nianza. Assim, as principais artérias encontram, nesta época do mundo, caminho franco para o oceano. A América do Sul, pois, cujas montanhas e rios igualam, ou mesmo excedem todos os demais continentes, não tem lagos, enquanto que a América do Norte e a África, com os seus mares interiores e Nianzas têm, comparativamente, pequenas cordilheiras.O lago, nesta terra, torna-se pantanal freqüentemente, como xaraies e uberaas, meros alargamentos de grandes rios, lençóis tranqüilos e pouco profundos em que bosques submersos e florestas afogadas formam festões de verdura; em que pequenas extensões secas, como os pequenos prados, nos escuros mares da selva africana, mostram encantadores campos, semeados de flores, ostentando a palmeira e a magnólia; em que ilhas flutuantes estão ligadas por liames intransponíveis de plantas aquáticas e semi-aquáticas, pontidérias e poligônias, malváceas, convolvuláceas, portulárias, sacchara altas e o arroz conhecido como arroz-do-pantanal (Oriza paraguayensis).” Esses pântanos sustentam considerável população de canoeiros e têm sido cantados pelos poetas do Brasil. Constituem um traço característico das regiões centrais da América do Sul.
Richard Burton
em Viagem aos Planaltos do Brasil I
tradução de Américo Jacobina Lacombe
Companhia Editora Nacional. São Paulo.
1983.
É preciso falar de Mariana, a mais antiga cidade mineira. Foi lá que nasceu, em 1916, o herói desta história. Um herói discreto e alegre, que fez de sua vida um permanente exercício de sobriedade, gentileza, caráter e coragem para arrostar dificuldades, que foram muitas. O herói desta história, Amadeu Rossi Cocco, livreiro e grande cidadão, tem dado à nossa cidade, por longos anos, permanentes provas de sua generosa dedicação.
Sede de bispado, e por isto cidade, Mariana mereceu das autoridades tratamento especial no referente a seu traçado, à sua estrutura urbanística. Se o que prevaleceu sempre
Em 1745 criou-se o bispado de Mariana. Esse fato, a dignidade episcopal, exigiu que a vila fosse ascendida à condição de cidade. Em 1748, chegou a Mariana o seu primeiro bispo, Dom Frei Manoel da Cruz, transferido de São Luís do Maranhão. Sua chegada foi motivo de um extraordinário espetáculo com comemorações e festejos públicos, religiosos e profanos. Diz Affonso Ávila — “A partir de 28 de novembro de 1748, iniciam-se festas que se estenderão até o decorrer do mês de dezembro, entre procissões, desfiles alegóricos, jogos de iluminação, missas solenes, encenações teatrais e oralizações poéticas, num misto espetaculoso de ritual católico, comprazimento intelectual e divertimento público” (Affonso Ávila, Resíduos Seiscentistas em Minas, vol. 1, Belo Horizonte, Centro de Estudos Mineiros, Universidade Federal de Minas Gerais, 1967, p. 29). É o Triunfo Eucarístico, uma das mais extraordinárias manifestações culturais da capitania de Minas Gerais, que na multiplicidade de suas vozes, de suas cores, de suas motivações deu mostras de uma sociedade enérgica e vibrante, em que a “civilização do ouro”, em seus inícios, pareceu confirmar os sonhos de restauração da grandeza do império português.
João Antonio de Paula
os livros e a cidade
col. BH. A cidade de cada um.
Conceito. Belo Horizonte. 2006.
Domingo, 9 de abril de 1893
Tenho visto muita coisa na vida, mas padre mexeriqueiro foi hoje a primeira vez.
Eu estava na porta, quando vi Padre Augusto vir descendo do Palácio e caminhando para a Chácara. Como sei do gosto que vovó tem por padre, fui correndo recebê-lo e beijar-lhe a mão. Levei-o para a sala, contente com a satisfação que vovó ia ter, sem pensar, nem de longe, no que ele tinha ido fazer.
Chamo vovó, ela toda inchada com a visita, pega na bengala, segura no meu braço e vamos para a sala. Mamãe, Dindinha, Iaiá e tia Agostinha foram também para a sala conversar com o padre.
Deixei todas ali e voltei para dentro. Nós sempre aproveitamos toda a ocasião para irmos para a ribanceira. Chamei o pessoal todo: Nico, Renato, Nhonhô, Luisinha e Rita, e voamos para o fundo da horta. Tínhamos escorregado só uma vez e quando demos fé estava a velharia toda no alto, olhando o que estávamos fazendo.
Adivinhamos logo o que ia acontecer. Iaiá gritou Quintiliano: como ele é velho e não podia descer a ribanceira, Nico e Renato é que tiveram de subir com o couro. Para escorregar é um instante, mas para subir cansa; se não fosse isso ninguém entrava mais
Quintiliano enrolou o couro e levou, e Dindinha mandou guardar no quarto dos arreios e fechou com a chave.
Vovó ralhou muito e disse que ficou com pena de ver Padre Augusto, tão bom, tão caridoso, largar suas obrigações para vir avisá-la que, se ela não tomasse uma providência, um de nós era capaz de morrer afogado no córrego que passa no fundo da Chácara.
Nós explicamos como a coisa estava arranjada, mas não valeu de nada; elas não quiseram acreditar. Eu disse a vovó: “Padre Augusto não veio por caridade, não, vovó, veio foi mexericar. A língua dele coçou e ele veio, isso é que foi.”
E assim perdemos o melhor brinquedo que já descobrimos.
Helena Morley
Companhia das Letras. São Paulo.
5ª reimpressão. 1999.
Mas essa é uma reflexão a posteriori. Durante o período Goulart não havia nem tempo, nem disposição e nem vontade para se duvidar da eficácia dessa “doideira conscientizadora” colocada como resposta a um momento de efervescência político-cultural. Assim, o compromisso de todas as forças sociais que se propunham a transformar o país era com o “povo”: “O povo não é uma entidade homogênea em sua composição uma vez que dele faz parte não apenas a classe revolucionária mas também outras classes e estratos sociais os mais diversos... O importante no entanto é que ao ir aos mais diversos setores do povo, ao formular artisticamente os problemas específicos que aí encontra, o artista deve ir munido do ponto de vista da classe revolucionária, e a sua luz examinar aqueles problemas dando a eles as soluções consentâneas com os interesses da classe revolucionária, os quais, em última análise, correspondem aos interesses gerais de toda a sociedade”. No entanto, esse “povo” era encarado muitas vezes como a mitificação do “bem” revolucionário e transformador; também celebrava-se e ritualizava-se o “povo” em termos absolutos:
“Nosso amor é mais gostoso
Nossa saudade dura mais
Nosso abraço mais apertado
Nós não usa as ‘bleque-tais’
Minhas juras são mais juras
Meus carinhos mais carinhoso
Tuas mãos são mãos mais puras
Teu jeito é mais jeitoso
Nós se gosta muito mais
Nós não usa as ‘bleque-tais’ “ (Gianfrancesco Guarnieri, Eles não Usam Black-Tie).
Um compromisso com o “povo”; uma missão e um dever para com a revolução popular; uma ingênua e inabalável crença no Brasil:
“De pé a jovem guarda
A classe estudantil
Junto à vanguarda
A trabalhar pelo Brasil
A nossa mensagem
De coração é que traz
Um canto de esperança
Num Brasil em paz...
A UNE, a UNE, a UNE SOMOS NÓS
a UNE é nossa voz.” (Vinicius de Moraes & Carlos Lyra, Hino da União Nacional dos Estudantes).
Todavia, do ponto de vista das classes dominantes o apelo à mobilização popular, como força inequívoca e definitiva na construção do “novo” Brasil, estava colorido por tons perigosamente radicais. Mesmo que não fosse diretamente composto pelos trabalhadores, o coro reivindicatório começava a causar um certo desconforto —
“Pro patrão pedi aumento
Só levei um pontapé
Sem comida e sem vintém
E agora seu José?
Se ser livre é passar fome
Não basta ser livre não” — (Augusto Boal & Geni Marcondes. Zé da Silva é um Homem Livre)
que aumentava com rapidez:
“Oi grileiro vem
Pedra vai
De cima deste morro
Ninguém sai
Ao grileiro nós vamos resistir
Todo povo daqui vai descer
E uma ordem geral vai partir
Que é botar o grileiro pra correr” (Raphael de Carvalho. Grileiro Vem, Pedra Vai. O Povo Canta. (CPC da UNE).
Se nas cidades a visão de uma multidão descendo dos morros era, no mínimo, preocupante para aqueles que por diferentes razões possuíam motivos para se imaginar na pele de algum “grileiro”, razões de sobra havia para quem quisesse se alarmar com o coro entoado na área rural. De fato, a idéia de que no campo, sobretudo no Nordeste, os trabalhadores organizados estavam prestes a deflagrar uma “guerra camponesa”, com vistas à repartição da grande propriedade agrária, deixava de ser um fantasma a assombrar os serões da casa-grande para se estender como ameaça latente ao conjunto das classes dominantes no Brasil. O crescente posicionamento popular em defesa de seus interesses fustigava os privilégios e o próprio eixo de poder das elites dominantes, fortemente impressionadas com os acontecimentos como o de Pernambuco, onde aos usineiros e latifundiários opôs-se o nome popular de Miguel Arraes, vitorioso nas eleições de 1962:
“Passe fome, frio e sede
Vá a pé pra Juazeiro
Falte sal dentro de casa
Falte gás no candeeiro
Arengue com a esposa
Vá dormir no galinheiro
Depois de ensaboado
Falte água no banheiro
Com medo de um boi brabo
Se suba até um facheiro
Passe seis noites de insônia
No bolso nenhum dinheiro
Faça tudo neste mundo
Mas não vote em usineiro” (Citado por Paulo Cavalcanti, O Caso eu Conto como o Caso foi. Da coluna Prestes à Queda de Arraes.).
Heloisa Maria Murgel Starling
Vozes. Petrópolis. 2ª edição.
1986.
As atividades econômicas desenvolvidas
O peso da mineração na economia da região é difícil de ser dimensionado pelos relatos da época. Afonso Graça Filho afirmou que tal atividade, ali, parece ter sido contingente, uma vez que o objetivo inicial do povoamento da área seria a produção de gêneros de abastecimento. De qualquer forma, não se pode esquecer a ligação intrínseca desta atividade com a mineração, uma vez que sua produção visava abastecer, primeiramente, os transeuntes em direção às áreas mineradoras e, posteriormente, às próprias regiões. Por outro lado, a descoberta do ouro não pode ser desconsiderada como fato impulsionador dos deslocamentos populacionais em direção a São João del Rei. Ao menos nos momentos iniciais da exploração, parece clara a importância da mineração. No entanto, alguns relatos indicam que o surto aurífero não teria sido muito duradouro. Na memória, redigida entre 1750 e 1751 pelo Sargento-Mor José Álvares de Oliveira, sob o título de “História do Distrito do Rio das Mortes, sua descrição, descobrimento das suas minas, casos nele acontecidos entre paulistas e emboabas e criação de suas vilas”, encontra-se a seguinte referência às condições em que se achava a atividade mineradora:
E o ouro que agora dos ditos morros e córregos que deles saem se tira com limitação e assaz dificuldade então se extraía com tanta facilidade e grandeza que em breve tempo se fez um arraial de bastantes moradores paulistas e emboabas [...].
Neste trecho, pode-se perceber a distinção que o autor estabelece entre o momento inicial da exploração aurífera, na região, marcado pela abundância do metal, e aquele em que ele escreve, quando a atividade se encontraria
[...] o discurso da decadência remetia a uma suposta ‘idade do ouro’ em que as Minas alcançavam aspecto menos aflitivo. Teixeira Coelho, descrevendo o governo do Conde de Galveas (1732 – 1735), contava que os ‘povos lamentaram a sua retirada, que fixou a época da ruína de Minas’. A Câmara de Vila Rica escrevia ao rei em 1772, comparando que ‘no tempo em que se estabeleceu a cota de cem arrobas, se achavam os povos destas Minas abundantes, e pingues as lavras: estava franca a extração dos diamantes em que percebiam os povos avultados interesses: girava o negócio com abundância; e presentemente se acha exaurido o ouro das melhores terras, e cansadas as roças, sem haver descoberto’. Já nos inícios do povoamento, profetizava Antonil não ‘haver pessoa prudente que não confesse haver Deus permitido que se descubra nas Minas tanto ouro para castigar com ele o Brasil, assim como está castigando no mesmo tempo tão abundante de guerras aos europeus com o ferro’.
O período apontado como próspero pela Câmara se encontrava dentro da ‘época de ruína’ do memorialista; para este, a decadência vinha da década de 1730, para aqueles, somente após a metade do século. O jesuíta, porém, alertava que, por detrás da abundância de ouro, já se esboçava uma ‘idade do ferro’ em torno da primeira dezena dos Setecentos. Os desencontros cronológicos sustentavam-se, a nosso ver, no fato de o empirismo desses eruditos desenrolar-se por uma trilha mítica: no presente, o decadente; em algum lugar do passado, a ‘idade de ouro’.
A argumentação do autor parece-me bastante pertinente, na medida em que os relatos sobre a crise da mineração, independentemente da época de que datam, sempre indicam que o esplendor desta atividade era coisa do passado e que o presente era marcado por uma situação de crise. Vale somar aos elementos indicados pelo autor que isto poderia ser uma estratégia dos contemporâneos, no sentido de fazerem frente às taxações impostas pelo Estado Metropolitano. Tal objetivo é bastante claro no discurso da Câmara de Vila Rica, referido por Silveira. Neste sentido, há que se matizar a fala do Sargento-Mor José Álvares de Oliveira quanto à crise da mineração
Silvia Maria Jardim Brügger
família e sociedade
(São João del Rei – Séculos XVIII e XIX)
Annablume. São Paulo. 2007.
TIO ORLANDO
Seus sons agônicos espalhavam-se pela casa. Vovó jamais quisera interná-lo, mandá-lo para um lugar apropriado. Ficava ali mesmo, num canto, sentado, o rosto sem expressão, as mãos batendo desordenadamente. Nós o chamávamos tiozinho e brincávamos com ele como um boneco.
À tardinha, Delfina lhe dava um banho, punha-lhe uma roupa nova e passeava com ele, empurrando a cadeira de rodas.
Nunca lhe vi um esgar de dor. Ria. Tanta inocência nos seus olhos límpidos!... Eram os olhos de tia Inaiá. Mas os seus gritos!... Era a sua única forma de expressão. Não pareciam nem de gente, nem de bicho.
Quando eu voltava do colégio, gostava de assistir ao resto do pôr do sol no fim da varanda. O Paraíba era um esplendor lá longe. Delfina costumava trazê-lo na cadeira para aquele lugar a essa hora. Ele emitia sons agudos. De quê? De alegria? Talvez fosse tocado pela beleza.
Delfina morreu antes dele, de enfarte. Tiozinho morreu
O CAVALO
Uma vez vi meu cavalo branco no bosque de eucaliptos, imóvel ao luar. Eu tinha quinze anos. Sei que o cavalo morreu. Terei vivido ou sonhei que vivi a minha vida?
Rachel Jardim
Os Anos 40
José Olympio. Rio de Janeiro.
3ª edição. 1985.
VISITADORES
A história eclesiástica de Minas tem que frisar com justiça a ação saliente dos abnegados servidores da religião, que foram os visitadores diocesanos, a quem cabe parte considerável no mérito da instituição das primitivas igrejas e por quem correra anos seguidos a responsabilidade de sua disciplina.
Medindo centenas e centenas de léguas através dos agrestes sertões mineiros, afrontando desconfortos que apenas se pode imaginar, nem sempre acolhidos com boa sombra, eles se constituíram apóstolos de Minas; nem nos demasiaríamos pedindo para eles esse título na história. E, modestos, passaram tão preocupados com o bem que deviam fazer, nunca se lhes dando do juízo da posteridade, que escassos documentos nos deixaram de sua missão, tão escassos que por eles impossível nos fora traçar-lhes sequer ligeiro escorço biográfico.
E a missão silenciosa desses homens exerceu incontestável e poderosa influência na organização social da capitania. Reunindo em suas mãos uma soma considerável de poder que lhes atribuía a legislação canônica e civil em vigor, foram eles que sanearam as Minas, fazendo dos turbulentos e insaciáveis aventureiros que as invadiram e foram seus primitivos povoadores um povo morigerado e laborioso, de proverbial honestidade, como é sabidamente o povo mineiro.
Recolhamos pois da poeira dos arquivos para a nossa memória e nosso reconhecimento os nomes desses beneméritos, tão de sobejo recomendados já à nossa veneração.
O mais remoto desses visitadores, cuja notícia embora exígua, se deve a Mons. Pizarro, foi o Cônego MANUEL DA COSTA ESCOBAR, secretário e apontador do seu cabido, pelo qual foi encarregado, por provisão de 18 de junho de 1701, da Visitação Geral das Minas, missão em que foi confirmado por D. Fr. Francisco de São Jerônimo, posteriormente empossado bispo da diocese.
Não tornou à sede do bispado, tendo-o colhido a morte
CÔNEGO GASPAR RIBEIRO PEREIRA. Natural do Rio de Janeiro de cuja catedral foi dos primeiros cônegos, colando-se na 4ª cadeira (depois das dignidades) a 16 de junho de 1686. Era Mestre em Artes (o bacharel em ciências e letras de hoje).
Por comissão do bispo D. Fr. Francisco de São Jerônimo visitou o distrito das Minas, em 1703 especialmente para providenciar na instituição e administração das novas igrejas, e ajustar limites com o arcebispado da Bahia. Estes serviços lhe granjearam a promoção a arcedíago e pouco depois a tesoureiro-mor. Foi também vigário geral do cabido, sede vacante.
O DR. MANUEL DA ROSA COUTINHO, EM 1717, por comissão de Dom Fr. São Jerônimo, visitou as comarcas do Ribeirão do Carmo e Sabará e o Pitangui. Em 1729, já no governo episcopal de D. Guadalupe, encontramo-lo novamente visitando a comarca do Ribeirão (São Sebastião, Camargos, São Caetano, Inficionado e Catas Altas), Santa Bárbara e São João do Morro Grande.
Dos numerosos termos de devassa por ele deixados nas freguesias que visitou, apartamos o seguinte que, além de se referir a personagem de quem falaremos mais de espaço, dá um bom traço fisionômico dessas assustadoras visitas doutrora:
“Termo que fez José de Torres Quintanilha.
Aos vinte e oito dias do mês de maio de mil setecentos e trinta anos nesta freguesia de Nossa Senhora de Nazareth, digo, nesta Freg. de São Caetano nas casas donde estava pousado o Reverendo Senhor Doutor Visitador Manuel da Rosa Coutinho apareceu José de Torres Quintanilha notificado a sua ordem para satisfação da culpa que lhe resultou da devassa desta Freg.ª ao qual o dito Senhor admoestou da culpa de usurário e mandou que daqui por diante não tornasse a dar dinheiro ou ouro com semelhantes exorbitâncias com pena de ser castigado com as penas que a lei determina contra os usurários. Confessou a culpa e o fez judicial, aceitou a admoestação e prometeu emenda e disse se sujeitaria a todas as penas da lei, de que fiz este termo que assinou com o Reverendo Senhor Doutor Visitador e eu Padre Paulo Rodrigues Adam, secretário da Visita que o escrevi.
Dr. Cout.º
José de Torres Quintanilha.”
Cônego Raymundo Trindade
em Arquidiocese de Marianna – vol. I
Escolas Profissionais do Lyceu Coração de Jesus. São Paulo.
1928.
SURGE A IDÉIA DA CONJURAÇÃO
Perante o severo julgamento da História, mais exato do que pensam os aventureiros desejosos de escapar a suas indicações, não cabe aceitar as acusações que, no fim do século XVIII, pesavam sobre todos os governadores da Capitania de Minas. O homem comum das Gerais os tinha na conta de maus, violentos, vingativos, péssimos administradores, tiranos que sacrificavam os povos e se enriqueciam com seus despojos. E, em conseqüência, retratava-os como indignos de qualquer admiração ou louvor. Mas, se houve governantes indignos na Capitania, existiram, também, aqueles que se sacrificaram pelas Minas, que se opuseram corajosamente às turbulências tão comuns nas lavras, caminhos e localidades, que buscaram, decididamente, fazer da Capitania um país progressista e aberto ao mútuo respeito e à cordialidade entre seus habitantes. D. Rodrigo José de Menezes foi um desses benfeitores da Capitania. Mal chegara a Vila Rica, em 1780, e já se lançava ao trabalho de conquistar Minas para os padrões de vida honesta e produtiva, exatamente nos moldes desejados pelos seus melhores valores morais.
O outro extremo, aquele que justificava muitos dos impropérios atirados pelos mineiros contra seus governantes, foi marcado por Luiz da Cunha Menezes, que chegou ao meio de seus jurisdicionados em agosto de 1783, depois de passar pela direção da Capitania de Goiás. Não possuía as qualidades requeridas de verdadeiro administrador e, logo aos primeiros atos, ofereceu seguras indicações do tiranete que seria nas Minas. Mostram-no como autoritário, rude no tratar os dirigidos e até desonesto, não respeitando as barreiras impostas pela lei e pela moral. Teve, por isso, contra sua pessoa as figuras mais respeitáveis da Capitania. Elevou, para garantir-se no poder, exageradamente o número de regimentos radicados nas Gerais e entregou os postos de comando a protegidos seus. Disso é testemunho o haver gozado, em sua administração, de grande e imerecida força o temível capitão José de Vasconcellos Parada e Souza, que as “Cartas Chilenas” satirizaram, contundentemente, sob o pseudônimo de Pardelas. Das más qualidades de Luiz da Cunha Menezes são testemunhos essas “Cartas”, que, em seu afã zombeteiro e demolitório, descem às raias do torpe, descrevendo a doentia vaidade do Fanfarrão Minésio:
“Aquele que consome largas horas
Em falar com os sécios e peraltas,
Em meter entre as pernas os perfumes,
Em consertar as pontas dos lencinhos,
Não nasceu para as coisas que são grandes.”
Não menos agressiva e esclarecedora é a queixa de Tomás Antônio Gonzaga, em março de 1787, dirigida à Rainha e contra Cunha Menezes:
“Nem me atrevo a representar coisa alguma a este Exmo. General, por conhecer o seu notório despotismo. Ele tira os padecentes do patíbulo; ele açoita com instrumentos de castigar os escravos as pessoas livres, sem mais culpa ou processo...; ele mete os advogados e homens graves a ferros; ele dá portarias aos contratadores para prenderem a todos os que eles querem que lhes devam; ... elle revoga os julgados e ainda os mesmos das Relações. Enfim, Senhora, ele não tem outra lei e razão mais que o ditame de sua vontade e dos seus criados.”
A reação não se fez esperar. Forte clamor público contra os desatinos desse governante se levantou na Capitania. E dele participavam figuras de todas as classes sociais, inclusive as mais dignas e representativas, a começar pelo Cônego Luís Vieira da Silva, que, em suas habituais e apaixonadas leituras, na episcopal Mariana, sorvia as idéias republicanas de revolucionários franceses e norte-americanos e passava a admitir, desde 1781, que, nas terras vizinhas do Atlântico Sul, também se conseguiria vencer o poder dos soberanos e das metrópoles.
Tiradentes, que, em suas viagens, ao tempo de Cunha Menezes, conheceu esse quadro de geral insatisfação, passou a suspeitar que a verdadeira solução para tais e outros problemas não viria mais do soberano português. Deveria partir de autoridades maiores locais, depois de obtida a independência das Minas, que, assim, não teriam que tolerar a ação de enviados desse jaez do governo da metrópole. E, ardoroso como era, passou, sem demora, à fase de elaboração e pregação de seus ideais.
Oiliam José
em Tiradentes
Itatiaia / Edusp.
Belo Horizonte / São Paulo.
1985.
Carta-denúncia de Joaquim Silvério dos Reis.
Cachoeira, 19-04-1789, datada de Borda do Campo, 11-04-1789.
Ilmo. e Exmo. Sr. Visconde de Barbacena
Meu Senhor: — Pela forçada obrigação que tenho de ser leal vassalo à nossa augusta Soberana, ainda apesar de se me tirar a vida, como logo se me protestou na ocasião em que fui convidado para a sublevação que se intenta, prontamente passei a pôr na presença de V. Excia. o seguinte: — Em o mês de fevereiro deste presente ano, vindo da revista do meu Regimento, encontrei no arraial da Laje o Sargento-Mor Luís Vaz de Toledo; e falando-me em que se botavam abaixo os novos Regimentos, porque V. Excia. assim o havia dito, é verdade que eu me mostrei sentido e queixei-me ao sargento-mor: me tinha enganado, porque em nome da dita Senhora se me havia dado uma patente de coronel, chefe do meu Regimento, com o qual me tinha desvelado em o regular e fardar, e muita parte à minha custa; e que não podia levar à paciência ver reduzido à inação o fruto do meu desvelo, sem que eu tivesse faltas do real serviço; e juntando mais algumas palavras em desafogo da minha paixão. Foi Deus servido que isso acontecesse para se conhecer a falsidade que se fulmina.
No mesmo dia viemos dormir à casa do capitão José de Resende; e chamando-me a um quarto particular, de noite, o dito Sargento-Mor Luís Vaz, pensando que o meu ânimo estava disposto para seguir a nova conjuração pelos sentimentos e queixas que me tinha ouvido, passou o dito sargento-mor a participar-me, debaixo de todo o segredo, o seguinte:
Que o Desembargador Tomás Antônio Gonzaga, primeiro cabeça da conjuração, havia acabado o lugar de ouvidor dessa Comarca, e que, isto posto, se achava há muitos meses nessa vila, sem se recolher a seu lugar da Bahia, com o frívolo pretexto de um casamento, que tudo é idéia porque já se achava fabricando leis para o novo regime da sublevação que se tinha disposto da forma seguinte:
Procurou o dito Gonzaga o partido e união do Coronel Inácio José de Alvarenga e do Padre José da Silva e Oliveira e outros mais, todos filhos da América, valendo-se para seduzir a outros do Alferes (pago) Joaquim José da Silva Xavier; e que o dito Gonzaga havia disposto da forma seguinte: que o dito Coronel Alvarenga havia mandar 200 homens pés-rapados da Campanha, paragem onde mora o dito Coronel; e outros 200, o dito Padre José da Silva; e que haviam de acompanhar a estes vários sujeitos, que já passam de 60, dos principais destas Minas; e que estes pés-rapados haviam de vir armados de espingardas e facões e que não haviam de vir juntos para não causar desconfiança; e que estivessem dispersos, porém perto da Vila Rica, e prontos à primeira voz; e que a senha para o assalto haviam de ser cartas dizendo tal dia é o batizado; e que podiam ir seguros porque o comandante da Tropa Paga, Tenente-Coronel Francisco de Paula, estava pela parte do levante e mais alguns oficiais, ainda que o mesmo sargento-mor me disse que o dito Gonzaga e seus parciais estavam desgostosos pela frouxidão que encontravam no dito comandante e que, por essa causa, se não tinha concluído o dito Levante.
E que a primeira cabeça que se havia de cortar era a de V. Excia.; e depois, pegando-lhe pelos cabelos, se havia fazer uma fala ao povo que já estava escrita pelo dito Gonzaga; e para sossegar o dito povo se havia levantar os tributos; e que logo se passaria a cortar a cabeça do Ouvidor dessa vila, Pedro José de Araújo, e ao Escrivão da Junta, Carlos José da Silva, e ao Ajudante-de-ordens Antônio Xavier; porque estes haviam seguir o partido de V. Excia.; e que, como o Intendente era amigo dele, dito Gonzaga, haviam ver se o reduziam a segui-los; quando duvidasse, também se lhe cortaria a cabeça.
Autos de Devassa da Inconfidência Mineira
volume 1
Câmara dos Deputados / Governo do Estado de
Minas Gerais. Brasília / Belo Horizonte. 1976.
Voltando ao nosso assunto, depois de conseguir a unanimidade da cidade contra ele, Giustino Marzano partiu para São Paulo onde, sem obter sucesso, se dedicou a atividades pouco recomendáveis. Teve um fim melancólico. Morreu esquecido por todos.
Em 1957, antes da chegada do diretor importado, o Teatro Universitário já havia dado mostras de sua boa qualidade com a montagem primorosa da peça NOSSA CIDADE, de Thornton Wilder. Dirigida por Carlos Kroeber, tinha cenários de Augusto Degois e figurinos desenhados especialmente por Kalma Murtinho. No elenco, estavam Letícia Malard, Theotonio dos Santos Júnior, Jota Dângelo, Ezequiel Neves, Domingos Muchon, Sílvio Castanheira, Déa Abreu, Ari Margalith, Neuza Rocha e outros.
O Teatro Experimental, fundado por Carlos Kroeber, João Marshner, Jota Dãngelo e Carlos Denis Machado, e que já estava em atividade antes da chegada de Marzano, reunia os talentosos dissidentes do TU já desgastados com a prepotência e incompetência do italiano. Tinha propostas mais vastas, queria fazer teatro de vanguarda e era independente. Mas absolutamente sem recursos. Novamente, as “Amigas da Cultura” foram de relevante valia na montagem dos espetáculos. Foram elas, por exemplo, que compraram os direitos de tradução da peça Fim de Jogo de Samuel Beckett. Traduzida por João Marschner e Silviano Santiago, foi levada, pela primeira vez no Brasil,
Outro recurso usado para a obtenção de fundos financeiros era a apresentação de peças infantis, geralmente de Maria Clara Machado. Eram sucesso de público e forneciam subsídios para montagens mais ousadas como A Cantora Careca de Ionesco. Imaginem Ionesco na Belo Horizonte da época. Em uma das apresentações, havia apenas 3 pessoas na platéia, um deles um paulista de passagem pela cidade, que ficara impressionado com a ousadia dos mineiros.
As peças infantis tinham sucesso garantido, não sem razão. Eram montagens primorosas. Uma delas, Pluft, o Fantasminha, lançou como ator o então adolescente Rodrigo Santiago, um Pluft absolutamente adorável. As músicas eram do “doublé” de ator e compositor Jota Dângelo e a direção de Carlos Kroeber.
Carlão, como era conhecido, em razão do físico avantajado, era a grande cabeça do Teatro Experimental. Inteligente, irreverente, irônico e empreendedor, era uma espécie de “guru” da turma do teatro. No final dos anos 50, foi para os Estados Unidos onde se aperfeiçoou nas artes cênicas. Voltou cheio de idéias e 50 quilos mais magro. Lembro-me de sua “rentrée”. Estávamos ensaiando no teatro Francisco Nunes, quando uma figura surgiu na frente do palco e desfilou como se estivesse numa passarela de moda. Após o primeiro susto, com o que pensávamos fosse o ato de um maluco, reconhecemos o “magro” Carlão. Ensaio interrompido para os abraços e festejos que, posteriormente, romperam a madrugada.
Ansioso por transmitir os conhecimentos adquiridos no exterior, Carlão passou a ministrar um curso de interpretação seguido atentamente pelos integrantes do Teatro Experimental e por alunas de Klauss. Duas coisas ficaram em minha memória de suas aulas. A primeira foi o talento à flor da pele do adolescente Rodrigo Santiago, que conseguia expressar emoções apenas com sua fisionomia, sem gestos ou caretas. Certa vez, Carlão nos colocou um a um, sentados próximos a uma parede, e ia dizendo o que estava se passando do outro lado, para que reagíssemos de acordo. Dizia, por exemplo, “tem uma criança chorando no quarto ao lado”. Só no rosto de Rodrigo percebi que isto de fato poderia estar acontecendo.
Uma de suas aulas me marcou especialmente. Ele chegou com vários rolos de jornal dobrados em forma de cacetetes e distribuiu-os entre nós, dando a ordem: “Comecem a se agredir!” Iniciou-se a pancadaria que durou uns cinco minutos, ao fim dos quais ele gritou: “Parem!” Paramos imediatamente, exaustos e arfantes. Calmamente, nos mandou sentar e perguntou: “Por que vocês estão se agredindo desta maneira?” A resposta veio rápida e unânime: “Uai, porque você mandou”... A lição foi acachapante: “E vocês pensam que teatro é isto, fazer tudo o que o diretor manda sem nem saber por quê?” Silêncio total e reflexivo. Depois disso, nunca mais fiz nada que me foi mandado ou pedido sem procurar saber os “porquês”.
Lúcia Helena Monteiro Machado
na época da geração complemento
BDMG Cultural. Belo Horizonte.
2001.
Nacip Raydan Nanuque Naque Natalândia Natércia Nazareno
Nepomuceno Ninheira Nova Belém Nova Era Nova Lima Nova Módica
Nova Ponte Nova Porteirinha Nova Resende Nova Serrana Nova União
Novo Cruzeiro Novo Oriente de Minas Novorizonte
MORRO VELHO
cccccccccccccccccccccccccccccccccccII
Já acentuei que Morro Velho é a mais profunda mina do mundo: 2.538 metros, exatamente. Vale apontar que o furo mais atrevido na crosta do globo — o mais aventuroso mergulho das forças humanas da Terra — foi feito em busca do ouro. O veeiro desce obliquamente. A mina o acompanha, aprofundando-se em seis galerias superpostas. Umas são verticais: os poços. Outras horizontais: os túneis. Trabalho que demanda cautela. Faz alguns anos, antes dos engenheiros ingleses tomarem a exploração a seu cargo, obturou-se a entrada de uma galeria. Sessenta mineiros ficaram soterrados, morreram ao pé do ouro — desse ouro que não procuravam para si.
Ninguém desce à mina sem enfiar o uniforme de linho e o capacete de couro cru. O menor seixo que rola repercute com estrondo nos poços. Um dos “capitães” da mina, latagão inglês, de linhas esbeltas e equilibradas, vai guiar-nos. Transposta a entrada, cujos pilares de cimento se levantam sob os cipós e os bambus da encosta, surge, bem iluminado, o primeiro túnel. Trânsito contínuo de vagonetes elétricos, transbordantes de minério. A temperatura baixa a quatro graus. O vento glacial, que vai refrescar as profundezas, produz arrepios.
Primeiro poço: queda de 700 metros, numa estreita gaiola de metal. Segundo túnel, e, depois de curta caminhada horizontal, segundo poço. O ar faz-se morno. Havendo partido de 1.000 metros de altitude, eis-nos já muito abaixo do nível do mar: a espessura do mundo começa a pesar sobre nós. Certamente, métros e túneis já vos deram tal sensação. Entretanto, os ouvidos sofrem a moléstia dessa pressão repentina. Ainda hoje torno a sentir, com freqüência, a mesma angústia. Ainda hoje torno a ver aquelas macilentas figuras, de volta do seu lidar subterrâneo.
Apraz-vos descer, descer cada vez mais? Encontrareis, no túnel H, as estrebarias das mulas prisioneiras, que permanecem meses sem ver o sol. Do poço 41 em diante, o ar principia a queimar-vos as faces. O famoso poço 43: banhado de suor e dobrado sob a curvatura da abóbada muito baixa, começareis a ouvir, cada vez mais perto, o metralhar das puas elétricas. Na densa poeira, agitam-se dorsos nus, ombros enfarinhados, axilas rorejantes. De mão a mão, corre incessantemente a moringa d’água. Não toqueis nos fragmentos de rocha, recém-destacados: sua temperatura é de 57 graus. É insuportável, também, o contato do vosso olhar com essas caras, onde, ao orgulho acre de tamanha tarefa se mistura uma queixa secreta...
Lá no alto, a dous quilômetros acima dessas cabeças, como somos esquecidos, os montes, as árvores, as sociedades e as leis; lá, nas profundas, a vizinhança terrível do fogo central. Em verdade, os fantásticos seres que penam, aqui, atingem uma das raias desse mundo chato onde vivemos. Eles se evadem para baixo, como o aviador para o alto. Seus lábios desenham uma curva sequiosa.
Pesa-lhes a carga de dous quilômetros de rocha, a carga de prodigiosa espessura? Não. Eles suportam, em segredo, a carga de um mundo.
*
Três turmas de trabalhadores mergulham diariamente na mina. Dous mil e oitocentos operários labutam na superfície.
E qual o resultado, em toda a evidência mísera e terrível? Em troca de tal esforço, de tanta ciência, de tamanha dor e energia, menos de dez quilos de ouro por dia.
— Esse ouro é precioso para o equilíbrio da moeda brasileira, adverte-nos o engenheiro. O Estado compra-o
Segurei uma dessas barras, que são de 28 quilos. Cada uma representa o labor de 4.300 homens, durante três dias, 12.900 diárias de trabalho, sem contar as somas empregadas nos edifícios e nas máquinas.
O pedaço de metal tem a forma de um cubo amarelo-claro e as dimensões de um tijolo. Incrivelmente pesado. Tão pesado que, ao peso material, parece ajuntar-se outro, misteriosamente. Todas as revelhas verdades sobre o magnífico esforço do homem, os absurdos e as injustiças que o gravam, fervem no vosso coração, quando sopesais uma dessas barras trágicas. [1932]
Luc Durtain
em Brasil, Terra & Alma
Minas Gerais
seleção de textos de Carlos Drummond de Andrade
Editora do Autor. Rio de Janeiro.
1967.
A Dara tinha muita vontade de ir a Aparecida do Norte,
Ela também tinha muita vontade de ir ao Rio para conhecer o mar. Eu já tinha ido uma vez. Com o Geraldo, meu filho, eu fui à Penha, ao Corcovado e fui à praia de Copacabana, achei bom. A Dara também foi com o Geraldo e eu de outra vez. Nós fomos ao casamento da cunhada dele e lá ficamos dois dias. De lá passamos pelo Divino da Carangola para visitar o meu irmão Sebastião, que morava lá. Ele e nós ficamos muito satisfeitos. De lá voltamos. Foi uma viagem tranqüila e chegamos em paz.
Um dia uma filha da Dara convidou ela para ir à praia. Ela não deu a resposta e ficou pensando. Dias depois ela resolveu dar a resposta que queria ir que marcasse o dia para uma quinta-feira. A saída foi às 5 horas da manhã. Ela achou muito bonita a praia, não tomou banho de mar, mas ficou muito satisfeita e eu também, porque ela foi e voltou em paz, sem novidades na viagem. Outra filha convidou-a para ir à praia e foi outro passeio, igual ao primeiro e sem haver novidades.
Eu e o Antônio éramos companheiros de roça e horta e uma vez por semana, nos dias de sábado, nós arranjávamos uma carga de verdura para vender no mercado. Subindo no alto da Terra Vermelha a gente via o cemitério de Venda Nova. Lá a gente via língua de fogo e eu tinha medo, mas o Antônio não tinha, ele falava que aquilo era isalação dos corpos. E nós continuávamos a viagem com o balaio nas costas e os pés no chão.
No alto do Campo Alegre tinha uma encruzilhada. Lá eles faziam despacho: tinha galinha morta, pinga e outros objetos, mas nós não púnhamos a mão naquilo. No caminho havia uma charqueada, depósito de carne, onde os cachorros que tomavam conta vinham nos atacar, era preciso colocarmos pedras nos bolsos para afugentar os cachorros e seguir viagem. Chegando no mercado, nós vendemos as nossas verduras por apenas 6 mil e 500. Na volta para casa nós tínhamos que pegar uma carona na carroça que vendia lenha na cidade, porque já estávamos cansados. Um dia, nós fomos calçados de botina, os pés incharam e encheram de calos d’água. Tivemos que voltar descalços.
Pedro Lara
Pedro, uma História de Vida
Belo Horizonte. 1996.
CARTA 3ª
Que triste, Doroteu, se pôs a tarde!
Assopra o vento sul, e densa nuvem
os horizontes cobre; a grossa chuva,
caindo das biqueiras dos telhados,
forma regatos, que os portais inundam.
Rompem os ares colubrinas fachas
de fogo devorante, e ao longe soa
de compridos trovões o baixo estrondo.
Agora, Doroteu, ninguém passeia,
todos em casa estão, e todos buscam
divertir a tristeza que nos peitos
infunde a tarde, mais que a noite feia.
O velho Alcimidonte, certamente,
tem postas nos narizes as cangalhas
e, revolvendo os grandes, gordos livros,
cos dedos inda sujos de tabaco,
ajunta ao mau processo muitas folhas
de vãs autoridades carregadas.
O nosso bom Dirceu talvez que esteja
com os pés escondidos no capacho,
metido no capote, a ler, gostoso,
o seu Vergílio, o seu Camões e Tasso.
O terno Floridoro, a estas horas,
no mole espreguiceiro se reclina
a ver brincar, alegres, os filhinhos:
um já montado na comprida cana
e outro pendurado no pescoço
da mãe formosa, que, risonho, abraça.
O gordo Josefino está deitado,
nada lhe importa, nem do mundo sabe;
ao som do vento, dos trovões e chuva,
como em noite tranqüila, dorme e ronca;
o nosso Damião, enfim, abana
ao lento fogo, com que, sábio, tira
os úteis sais da terra; e o teu Critilo,
que não encontra, aqui, com quem murmure,
quando só murmurar lhe pede o gênio,
pega na pena e desta sorte voa
de cá, tão longe, a murmurar contigo.
Já disse, Doroteu, que o nosso chefe,
apenas principia a governar-nos,
nos pertende mostrar que tem um peito
muito mais terno e brando do que pedem
os severos ofícios do seu cargo.
Agora cuidarás, prezado amigo,
que as chaves das cadeias já não abrem,
comidas da ferrugem? Que as algemas,
como trastes inúteis, se furtaram?
Que o torpe executor das graves penas
liberdade ganhou? Que já não temos
descalços guardiães, que à fonte levem,
metidos nas correntes, os forçados?
Assim, prezado amigo, assim devia
em Chile acontecer, se o nosso chefe
tivesse, em governar, algum sistema.
Mas, meu bom Doroteu, os homens néscios
às folhas dos olmeiros se comparam:
são como o leve fumo, que se move
para partes diversas, mal os ventos
começam a apontar de partes várias.
Ora, pois, doce amigo, atende o como
no seu contrário vício degenera
a falsa compaixão do nosso chefe,
qual o sereno mar, que, num instante,
as ondas sobre as ondas encapela.
Pertende, Doroteu, o nosso chefe
erguer uma cadeia majestosa,
que possa escurecer a velha fama
da torre de Babel e mais dos grandes,
custosos edifícios que fizeram,
para sepulcros seus, os reis do Egito.
Talvez, prezado amigo, que imagine
que neste monumento se conserve,
eterna, a sua glória, bem que os povos,
ingratos, não consagrem ricos bustos
nem montadas estátuas ao seu nome.
Desiste, louco chefe, dessa empresa:
um soberbo edifício, levantado
sobre ossos de inocentes, construído
com lágrimas dos pobres, nunca serve
de glória ao seu autor, mas sim de opróbrio.
Desenha o nosso chefe, sobre a banca,
desta forte cadeia o grande risco,
à proporção do gênio e não das forças
da terra decadente, aonde habita.
Ora, pois, doce amigo, vou pintar-te
ao menos o formoso frontispício.
Verás se pede máquina tamanha
humilde povoado, aonde os grandes
moram em casas de madeira a pique.
Em cima de espaçosa escadaria
se forma do edifício a nobre entrada,
por dous soberbos arcos dividida;
por fora destes arcos se levantam
três jônicas colunas, que se firmam
sobre quadradas bases e se adornam
de lindos capitéis, aonde assenta
uma formosa, regular varanda;
seus balaústres são das alvas pedras,
que brandos ferros cortam sem trabalho.
Debaixo da cornija, ou projectura,
estão as armas deste reino abertas
no liso centro de vistosa tarja.
Do meio desta frente sobe a torre
e pegam desta frente, para os lados,
vistosas galarias de janelas,
a quem enfeitam as douradas grades.
Tomás Antônio Gonzaga
Cartas Chilenas
em Poesias / Cartas Chilenas
edição crítica de M. Rodrigues Lapa
Instituto Nacional do Livro. Rio de Janeiro.
1957.
GUIMARÃES ROSA — Mas, entretanto, cuidado. Falei
Disse que o mineiro não crê demasiado na ação objetiva; mas, com isso, não se anula. Só que mineiro não se move de graça. Ele permanece e conserva. Ele espia, escuta, indaga, protela ou palia, se sopita, tolera, remancheia, perrengueia, sorri, escapole, se retarda, faz véspera, tempera, cala a boca, matuta, destorce, engambela, pauteia, se prepara. Mas, sendo a vez, sendo a hora, Minas atende, toma tento, avança, peleja e faz.
Sempre assim foi. Artes e modos. Assim seja.
Fernando Correia Dias
A Mineiridade Vista por Dois Escritores Mineiros
em Mineiridade
Cadernos de Minas 2
Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa.
Belo Horizonte. 1986.
O PRIMEIRO OURO
A bandeira de Antônio Rodrigues de Arzão deixou São Paulo em 1692, quase certamente
O apógrafo de Cláudio diz que Arzão era “taubateano”, tratando-se em verdade (e de acordo com o original Costa matoso) de um “paulista”, pois tinha habitação nas cercanias de são Paulo pelo lado sul, no Mboi-mirim, atual Embu, sede de uma aldeia jesuíta.
Diz Cláudio: “Chegados à Capitania do Espírito Santo, apresentou ao Capitão-Mor Regente daquela vila três oitavas de ouro. A Câmara os recebeu com agrado e lhes ministrou os víveres e vestuários de que careciam, segundo as ordens que de el-Rei tinham. Deste ouro se mandaram fazer duas memórias: uma, que ficou ao dito Arzão; e outra, que tomou para si o Capitão-Mor.” É o tema do canto 2º do poema Vila Rica.
Podemos completar a narrativa indicando que atingiriam a Vila de Vitória, o mais tardar, em janeiro de 1693. Sendo a monção (ventos e corrente marítima favoráveis na direção norte-sul) própria, voltariam para são Paulo por mar, chegando ao destino no mês de março. Acrescente-se que o fracasso da bandeira, sob o aspecto econômico, afastaria Arzão de qualquer nova iniciativa, perdendo a confiança de novos companheiros, além de ficar literalmente quebrado. Piedosamente, alega Bento Fernandes que teria chegado gravemente enfermo e que faleceria pouco depois, quando na realidade encontramos sua assinatura em vários inventários posteriores e, em 1720, um escravo seu sendo penhorado por Francisco do Amaral Gurgel em Parati “por dívidas de jogo muitos anos antes na Vila de São João del Rei”.
O adulterador do apógrafo de Cláudio esqueceu-se de que apontara Arzão como “taubateano”, pelo que a narrativa continua: “Antônio Rodrigues de Arzão, não podendo ajuntar na vila do Espírito Santo a gente que precisava para segunda vez tornar aos sertões, se passou ao Rio de Janeiro e daí a São Paulo. Nesta cidade, ferido gravemente dos trabalhos que passara, enfermou e veio a morrer finalmente, deixando encarregado a Bartolomeu Bueno (de Siqueira), seu cunhado, de continuar no descobrimento de que havia apresentado as amostras.”
Acrescentamos que era Capitão-Mor Regente da capitania feudatária do Espírito Santo, João Velasco de Molina. Na capitania feudatária de São Vicente (ex-Santo Amaro), que desde 1681 passara a ter como capital a vila de São Paulo, era Capitão-Mor Regente Manuel Peixoto da Mota (1692-1694). Na capitania feudatária de Itanhaém, o Capitão-Mor Regente é Martim Garcia Lumbria, que em 1694 nomearia Carlos Pedroso da Silveira para o cargo trienal de Capitão-Mor da Vila de Taubaté. O Rio de Janeiro era capitania da Coroa, tendo pois governador e capitão-general com ascendência sobre as vizinhas, assim como ouvidor geral com jurisdição de alçada no judiciário sobre todo o sul do Brasil. Governava-a Luís César de Meneses, que a 25-03-1693 foi sucedido por Antônio Pais de Sande, primeiro governador a dar notícia à Corte do ouro de Minas Gerais, cuja amostra insignificante não impressionou a El-Rei d. Pedro II. Deu-a de presente ao Patriarca de Lisboa. Tal amostra, quando do centenário de nossa Independência, 1922, foi oferecida ao Presidente Epitácio Pessoa pelo então Patriarca de Lisboa, voltando ao Brasil. Antônio Pais de Sande sofreria um derrame cerebral no Rio de janeiro a 6-10-1694, sendo substituído interinamente no mês seguinte pelo Cel. André Cussaco, chefe militar da Bahia.
Raimundo José da Cunha Matos
Corografia Histórica da Província de Minas Gerais (1837)
Vol. 1. Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo.
Belo Horizonte / São Paulo. 1981.