ALMANAQUE MINEIRO

“Só e no mais: sem ti, jamais nunca.” João Guimarães Rosa

Sexta-feira, Janeiro 01, 2010

 

A INCONFIDÊNCIA MINEIRA


OS DOCUMENTOS
estudo crítico das fontes históricas da inconfidência

Durante longo tempo, permaneceu quase desconhecida a Conjuração. Certamente, em pleno regime colonial, ninguém se atreveria a tratar desse assunto. Sobrevindo o império, era natural que não fosse agradável a esse regime político a recordação de uma tentativa republicana. E sem querer negar aos historiadores dessa época a necessária independência, é perfeitamente compreensível que a influência geral do ambiente político e a dificuldade da obtenção de documentos, que se podiam supor perdidos ou remetidos para Lisboa, não fossem de molde a animar um tentame dessa espécie.

Chegou-se, por isso, a acreditar que a Inconfidência não passara de mera invenção do governo colonial, com o intuito de anular a influência de alguns brasileiros distintos pelos seus conhecimentos, pelo seu talento e fortuna. É pelo menos isso o que conta Ferdinand Denis. Durante muito tempo ainda só se conheceu a sentença, isto é, a versão dos juízes, como muito bem nos diz Charles Ribeyrolles.

O nosso primeiro imperador não era amigo de tais assuntos e nem teve tempo de cuidar deles.

Quanto a D. Pedro II, atribuem-lhe opinião antipática a Tiradentes, por ele cognominado — o garoto da nossa História.

Mas era natural supor a existência de documentos. Onde estavam eles? Já se conhecia a sentença, pois que Joaquim Silvério dela obtivera certidão, para requerer o prêmio que lhe fora prometido pela sua nefanda delação. Essa certidão foi publicado pelo conselheiro José de Rezende Costa, em 1846, em anexo à tradução pelo mesmo feita do pouco que sobre a Inconfidência escrevera Roberto Southey, na sua “História do Brasil”, que acabava de aparecer em inglês (Rev. do Inst. Hist. Br. nº 3 — 3º trim. de 1846).

Conta-nos Mello Moraes que, pretendendo escrever uma obra sobre o Brasil, de colaboração com o Cel. Ignacio Accioli de Cerqueira e Silva, e conversando com João Ximenes de Araújo Pitada, sobre a Inconfidência, contou-lhe este existirem documentos sobre o assunto na Secretaria do Império, metidos em um saco verde. Assim informado, obteve Mello Moraes licença do Ministro do Império, Conselheiro Pedreira, para o exame do processo. Copiou, publicando-o no “Brazil Histórico” com exceção de algumas peças de pouca importância e dos seqüestros.

O próprio citado autor nos conta que encontrou, apenso ao processo original, “um exemplar das constituições dos Estados Unidos da América do Norte, traduzidas em francês”, e que fez presente desse livro à Biblioteca da Província de Santa Catarina!

Joaquim Norberto de Sousa e Silva examinou “a preciosa coleção de documentos originais das duas devassas que se procederam nas capitais das Capitanias de Minas Gerais e Rio de Janeiro”; mas, acrescenta em nota que a coleção estava incompleta por lhe faltarem a sentença e alguns apensos. Assim “o apenso nº 26 à devassa que mandou proceder o Visconde de Barbacena na Capitania de Minas Gerais constava de um livro em 8º tendo por título Recueil des lois constitutives des États Unis de l’Amérique. A alguém foram confiados tão importantes documentos e não duvidando separar o livro do processo, o ofereceu em seu nome à biblioteca da capital da província de Santa Catarina!”

Assim surgiram os documentos mais importantes, os quais, como o cadáver do herói a que se referem, foram esquartejados. Uma parte encontra-se no Arquivo Público Nacional e outra na Biblioteca Nacional, além dessa que, como vimos, foi desviada.

Examinemos esses e outros documentos.


Lúcio José dos Santos
em A Inconfidência Mineira
papel de Tiradentes na Inconfidência Mineira
Escolas Profissionais do Liceu Coração de Jesus.
São Paulo. 1927.

Quarta-feira, Dezembro 30, 2009

 

A POESIA DE MINAS


LIVRARIA ALVES


Primeira livraria, Rua da Bahia.

A Carne de Jesus, por Almáquio Diniz

(não leiam! obra excomungada pela Igreja)

rutila no aquário da vitrina.

Terror visual na tarde de domingo.

Volto para o colégio. O título sacrílego

relampeja na consciência.

Livraria, lugar de danação,

lugar de descoberta.

Um dia, quando? Vou entrar naquela casa,

vou comprar

um livro mais terrível que o de Almáquio

e nele me perder — e me encontrar.



Carlos Drummond de Andrade

em Boitempo


Terça-feira, Dezembro 29, 2009

 

SÃO JOÃO DEL REI


 

MIGUILIM


Miguilim queria ficar sempre perto, mas o Dito mandava ele fosse saber todas as coisas que estavam acontecendo. — “Vai ver como é que o mico está.” O mico estava em pé na cabacinha, comendo arroz, que a Rosa dava. — “Quando o vaqueiro Saluz chegar, pergunta se é hoje que a vaca Bigorna vai dar cria.” “— Miguilim, escuta o que Vovó Izidra conversar com a Rosa, do vaqueiro Jé mais a Maria Pretinha.” O Dito gostava de ter notícia de todas as vacas, de todos os camaradas que estavam trabalhando nas outras roças, enxadeiros que meavam. Requeria se algum bicho tinha vindo estragar as plantações, de que altura era que o milho estava crescendo. — “Vovó Izidra, a senhora já vai fazer o presépio?” “— Daqui a três dias, Dito, eu começo.” O Dito não podia caminhar, só podia pulando num pé só, mas doía, porque o corte tinha apostemado muito, criando matéria. Chamando, o Gigão vinha, vigiava a rede, olhava, olhava, sacudia as orelhas. — “Você está danado, Dito, por causa?” “— Estou não, seo Luisaltino, costumei muito com essas coisas...” “— Depressa que sare!” “— Uê, p’ra se sarar basta se estar doente.”


Meu-deus-do-céu, e o Dito já estava mesmo quase bom, só que tornou outra vez a endefluxar, e de repente ele mais adoeceu muito, começou a chorar — estava sentindo dor nas costas e dor na cabeça tão forte, dizia que estavam enfiando um ferro na cabecinha dele. Tanto gemia e exclamava, enchia a casa de sofrimento. Aí Luisaltino montou a cavalo, ia daí a mais de um dia de viagem, aonde tinha um fazendeiro que vendia, buscar remédio para tanta dor. Vovó Izidra fez um pano molhado, com folhas-santas amassadas, amarrou na cabeça dele. — “Vamos rezar, vamos rezar!” — Vovó Izidra chamava, nunca ela tinha estado tão sem sossego assim. Decidiram dar ao Dito um gole d’água com cachaça. Mas ele tinha febre muito quente, vomitava tudo, nem sabia quando estava vomitando. Vovó Izidra veio dormir no quarto, levaram a caminha do Tomezinho para o quarto de Luisaltino. Mas Miguilim pediu que queria ficar, puseram uma esteira no chão, para ele, porque o Dito tinha de caber sozinho no catre. O Dito gemia, e a gente ouvia o barulhinho de Vovó Izidra repassando as contas do terço.


No outro dia, o Dito estava melhorado. Só que tinha soluço, queria beber água-com-açúcar. Miguilim ficava sentado no chão, perto dele. Vovó Izidra tinha de principiar o presépio, o Dito não podia ver quando ela ia tirar os bichos do guardado na canastra — boi, leão, elefante, águia, urso, camelo, pavão — toda qualidade de bichos que nem tinha deles ali no Mutum nem nos Gerais, e Nossa Senhora, São José, os Três Reis e os Pastores, os soldados, o trem-de-ferro, a Estrela, o Menino Jesus. Vovó Izidra vez em quando trazia uma coisa ou outra para mostrar ao Dito: os panos, que ela endurecia com grude — moía carvão e vidro, e malacacheta, polvilhava no grude. Mas Dito queria tanto poder ver quando ela estava armando o presépio, forrando os tocos e caixotes com aqueles panos — fazia as serras, formava a Gruta. os panos pintados com anil e tinta amarela de pacari, misturados davam um verde bonito, produzido manchado, como todos os matos no rebroto. E tinha umas bolas grandes, brilhantes de muitas cores, e o arroz plantado numa lata e deixado nascer no escuro, para não ser verde e crescer todo amarelo descorado. Tinha a lagoa, de água num prato-fundo, com os patinhos e peixes, o urso-branco, uma rã de todo tamanho, o cágado, a foquinha bicuda. Quase a maior parte daquelas coisas Vovó Izidra possuía e carregava aonde ia, desde os tempos de sua mocidade. Depois de pronto, era só pôr o Menino Jesus na Lapinha, na manjedoura, com a mãe e o pai dele e o boizinho e o burro. E punha um abacaxi-maçã, que fazia o presépio todo cheirar bonito. Todos os anos, o presépio era a coisa mais enriquecida, vinha gente estranha dos Gerais, para ver, de muitos redores. Mas agora o Dito não podia ir ajudar a arrumação, e então Miguilim gostava de não ir também, ficar sentado no chão, perto da cama, mesmo quando o Dito tinha sono, o Dito agora queria dormir quase todo o tempo.



João Guimarães Rosa

Campo Geral

em Corpo de Baile 1º volume

José Olympio. Rio de Janeiro.

1ª edição. 1956.


Segunda-feira, Dezembro 28, 2009

 

ENQUANTO ISSO,NO CONE SUL


Com essa idéia era-me indispensável um comando de tropa. Sem isso, as concepções mais brilhantes, os desejos mais nobres, a vontade mais firme resultariam inoperantes. E nenhum me pareceria em melhores condições que a ID/4 . Muito embora hierarquicamente subordinada ao comando regional sediado em Juiz de Fora, a ID/4, em Belo Horizonte, se lhe sobrepõe em importância. Primeiro, por achar-se junto do governo do estado, onde se concentram os fatores de uma decisão, principalmente a informação. Segundo, por ocupar uma posição central, de onde se irradiam todas as comunicações dentro do Estado e para fora dele. Terceiro, porque Belo Horizonte é a síntese e o espelho do que se passa em Minas Gerais. Resume e amplia anseios, interesses, decepções, vontade e ação do povo mineiro. Sofre suas angústias, vibra com suas alegrias, exulta com seus triunfos. É foco e ímã. Influência poderosa e decisiva no procedimento dos mineiros.

Juiz de Fora, quase na periferia de Minas, é passagem para o Rio. Tem lá seu principal mercado, recebe cedo seus jornais, por circunstância de disponibilidade de acesso fácil, rápido e permanente, dispondo, durante anos, da única via asfaltada do estado. Naquela cidade vivi oito anos. E não creio desagradar aos juiz-de-foranos se os considerar mais cariocas que mineiros. Fatalmente, essa situação iria refletir-se no comando regional. Se observarmos o noticiário é fácil comprovar nossas conclusões. Esporadicamente é aquele comando citado, enquanto que o de Belo Horizonte está sempre em evidência. As próprias autoridades estaduais, com raras exceções, consideram o general de Belo Horizonte acima do de Juiz de Fora. Há que acrescentar para justificativa desse juízo que, durante algum tempo, quando constituíam comandos separados a divisão e a região, isto era verdadeiro. Depois de fundidos, a nova organização permaneceu quase ignorada no meio civil.

Minha transferência resultara de uma interpretação não muito feliz do Marechal Denys, então Ministro da Guerra. Ao classificar-me em Pouso Alegre, no sul de Minas, dissera-me: “Será por pouco tempo. Minha idéia é mandar você para Belo Horizonte, substituindo seu xará (General Manoel Joaquim Guedes) que, em setembro, completará a idade limite para permanência na ativa, no comando do Colégio Militar.”

Estávamos em junho de 1960. Em agosto, chamou-me ao Rio e disse-me haver recebido um pedido do General Eduardo Peres Campelo para comandar o colégio, por motivos de saúde. Ficava, dessa forma, prejudicada sua decisão inicial, mas como, em fevereiro de 1961, resolvera substituir no comando da ID/4 o General Franklin Rodrigues de Morais, que nele se encontrava há quatro anos, matriculando-o na Escola Superior de Guerra, seria eu nomeado para o mencionado comando. Como sempre, não discuti sua decisão. Quase trinta anos de convivência, dos quais cinco sob seu comando, como homem de sua absoluta confiança, a par da consideração que ele me merecia, tinha-lhe grande amizade e muito me desvanecia a estima com que ele me honrava. Todas as suas deliberações, que a prática e o tempo demonstravam acertadas, sempre foram por mim acatadas e nada teria que opor em caso estritamente pessoal. Ficou-lhe, porém, a idéia de que era meu desejo comandar o Colégio Militar, tido como uma restauração do antigo, sediado em Barbacena, fechado em 1924, com grande e justificada mágoa para todos nós que ali formamos nosso caráter, desenvolvemos nossa inteligência, criando sólida base para os estudos futuros e para os embates da vida. Na verdade, mudar de Pouso Alegre para Belo Horizonte, ainda que para o colégio, seria uma promoção, dados os laços que me prendem à capital mineira. Mas o evoluir da situação, em junho de 1961, transformara a perspectiva. Já então, havia prenúncios de tempestade e eu me achava plenamente satisfeito com o comando da ID/4, enfeixando nas mãos toda a infantaria da 4ª Divisão, mais tarde revelando-se sólido ponto de apoio para o desencadeamento da Revolução de 31 de março de 1964, e não desejava trocá-lo pela direção de um estabelecimento de ensino para meninos e adolescentes que, embora honroso e de largo campo de ação para o futuro, não oferecia possibilidades na conjuntura que se avizinhava.

Por esse motivo, fui ao Rio entender-me com o marechal e, pela primeira vez, discordar de um ato seu. Indaguei, inicialmente, se havia alguma restrição a meu respeito, pois parecera-me indício de desconfiança a mudança levada a efeito. Assegurou-me, desde logo, que não. Julgara mesmo estar realizando um desejo meu, mas, como já havia nomeado o General João Punaro Bley para a ID/4, não poderia voltar atrás em seu ato. Para afastar, porém, qualquer dúvida de meu espírito, oferecia-me outros comandos, vagos no momento: a ID/2, em Caçapava, Estado de São Paulo; a ID/5, em Ponta Grossa, no Paraná; ou a 10ª RM, em Fortaleza. Aceitei a ID/5. Sem pressa de seguir, após entregar o comando a Bley em 25 de julho, entrei em dois períodos de férias e segui para Juiz de Fora, onde possuía casa.


Carlos Luís Guedes
em Tinha que Ser Minas
Nova Fronteira. Rio de Janeiro.
1979.

Quinta-feira, Dezembro 24, 2009

 

EM BH, NA DÉCADA DE 20


Marcada por brincadeiras mais ou menos literárias, a amizade entre os dois escritores comportou um capítulo tragicômico no segundo semestre de 1940. Frieiro se recuperava de uma operação de apendicite — feita, por sinal, por Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte — quando sobreveio uma peritonite. Ficou morre-não-morre. Uma noite, depois de uma desalentadora conversa com Juscelino, Moacyr Andrade foi para casa e se pôs a escrever o necrológio do amigo. Queria tê-lo pronto para levar às oficinas do Minas Gerais tão logo se desse o óbito.


“A notícia de minha morte, no Minas, o preocupava”, registra Frieiro em seu Novo Diário.A paginação do Minas fecha cedo, antes de uma da madrugada. Já era meia-noite e eu ainda continuava vivo.” Viveria muitos anos mais, e quando entrou em convalescença ganhou de Moacyr os originais do necrológio inacabado.

Frieiro repisaria a história em mais de uma passagem de seus diários, sempre com muito bom humor. “Eu tenho a certeza de que serei enterrado com todas as honras, se o Moacyr ainda for o redator-secretário, por ocasião de meu óbito”, anotou em dezembro de 1944 — e acrescentou, em abril de 1946: “Ninguém enterra melhor que o Minas, e o Moacyr é o mais emérito dos enterradores”. O destino, porém, quis outro enredo. O cronista se foi primeiro, em setembro de 1979, num momento em que Frieiro, cego e doente, já não poderia retribuir a gentileza do necrológio.


Há mais gente da vida real, além de Eduardo Frieiro, mal disfarçada nas personagens de Memórias de um Chauffeur de Praça. Atílio Marcondes, no livro diretor do Diário do Governo, é Abílio Machado, que comandava o Minas Gerais. O secretário Borborema é mais do que uma rima para o ministro Gustavo Capanema. Cyro dos Anjos é Belmiro Borba — exatamente o pseudônimo que ele usava na imprensa e sob o qual vinha publicando, em A Tribuna, textos mais tarde aproveitados no romance O Amanuense Belmiro. A seu lado aparece Carlos Drummond de Andrade, na pele do poeta modernista De Monte. Os dois são apresentados como “literatos oficiais” — expressão com que Eduardo Frieiro, Moacyr Andrade e outros escribas da velha-guarda designavam os intelectuais de alguma forma ligados ao poder.


As Memórias de um Chauffeur de Praça, em dado momento, falam da legendária “moça-fantasma” que, na vida real, assombrara a capital mineira e cuja história é contada, entre outros, por Drummond, na “Canção da Moça-Fantasma de Belo Horizonte”, poema incluído em seu terceiro livro, Sentimento do Mundo. Moacyr Andrade, nessa passagem, se vale do pretexto da ficção para criticar as liberdades que os modernistas estavam tomando com o diário do governo mineiro: “O poeta modernista De Monte já celebrara a moça misteriosa em versos magníficos, que até foram publicados no jornal oficial com moldura de vinhetas, por ordem especial do Secretário Borborema, protetor das artes e das letras”, diz o narrador das Memórias.


A publicação dos versos sobre a “moça-fantasma” no jornal oficial, quebrando a tradição cinqüentenária de sua austeridade de órgão venerando, foi tida pelo povo como confirmação oficial de sua aparição, quando em verdade não era senão homenagem do dr. Borborema ao poeta seu amigo, porque descobrira nos versos um sabor “goethiano” pronunciado e Goethe era a paixão literária daquele secretário de governo.


Drummond, parece, não se aborreceu. Tinha boa camaradagem com Moacyr Andrade, a quem fará referência amistosa no artigo “A Doce Música Mecânica”, escrito por ocasião dos oitenta anos da Imprensa Oficial de Minas Gerais, em 1972, e no qual evoca seus tempos de redator do Minas Gerais. “Comandava-nos (força de expressão) Moacyr Andrade”, lembra o poeta. “Era o menos formalista dos secretários, e dirigia o serviço entre piadas. O mais austero jornal de Minas, quiçá do Brasil, tinha redação alegre, descontraída.”



Humberto Werneck

em O Desatino da Rapaziada

jornalistas e escritores em Minas Gerais

Instituto Moreira Salles / Companhia das Letras.

São Paulo. 1992.


Quarta-feira, Dezembro 23, 2009

 

TIRADENTES


 

FAMÍLIAS GOVERNAMENTAIS


3) VIEIRA-REZENDE — Boa parcela da descendência Rezende Costa liga-se à família Vieira, que foi uma das fundadoras do atual município de Cataguases. Foi por volta de 1840 que o major Joaquim Vieira da Silva Pinto, natural de Queluz, se estabeleceu em sesmaria de três mil alqueires do nascente curato de Meia Pataca. Nas vizinhanças de sua propriedade se instalariam em seguida em outras enormes sesmarias, o seu irmão Antônio Vieira, o seu cunhado Francisco de Rezende, o seu concunhado Severino de Rezende, outro seu cunhado José Joaquim de Rezende, o seu genro Pedro Chaves, o seu sobrinho Antônio Vieira Coimbra, e, no vizinho município de São João Nepomuceno, outro seu cunhado, José Dutra Nicácio. O major Joaquim Vieira tornou-se guarda-mor das minas de Ubá e Meia Pataca, destacando-se ainda como chefe conservador influente da região. Seu filho José Vieira de Rezende e Silva seria o seu substituto na chefia política local. Em 1861 era eleito deputado provincial, reelegendo-se em seguida durante várias legislaturas. Criado o município de Cataguases, foi seu primeiro presidente. Na chefia política do município, sucedem-se o seu irmão Luiz Vieira Rezende, também deputado provincial, o seu filho Astolfo de Rezende, o seu sobrinho Astolfo Dutra Nicácio, que foi presidente da Câmara dos Deputados, o filho deste, Pedro Dutra Nicácio, com os parentes Afonso de Rezende, Edson de Rezende. Convidado a indicar os políticos que tiveram a liderança de seu município de origem, que é Cataguases, o atual deputado Edson Vieira de Rezende observou que todos eram seus parentes. É um domínio político familiar, que se prolonga por cerca de cem anos, só praticamente quebrado nos últimos tempos, por força do crescimento urbano e industrial da cidade. É interessante assinalar a propósito que na disputa aguerrida do controle político de Cataguases desde há vinte anos encontra-se uma família de industriais, os Peixoto.


Os Vieira-Rezende, entretanto, ainda são fortes politicamente tanto em Cataguases, como nas cidades vizinhas de Astolfo Dutra, Miraí, Laranjal, tendo um representante na Assembléia Estadual, outro, que foi deputado e prefeito várias vezes, na Comissão Executiva do PSD.


Nos municípios vizinhos estendem-se ainda grandes famílias de ação política dominante, estreitamente entrelaçadas por parentesco com os Vieira-Rezende. São os Dutra Ladeira, em Rio Novo, os Soares Henriques e Mendonça, em Nepomuceno, Rochedo e adjacências.



Cid Rebelo Horta

Famílias Governamentais de Minas Gerais

em Análise & Conjuntura

v. 1, n. 2, maio/agosto – 1986.

Fundação João Pinheiro. Belo Horizonte.


Segunda-feira, Dezembro 21, 2009

 

NO CLUBE DA ESQUINA


Antônio Morais, o Bolão, o dono da boate Berimbau, apareceu na porta, olhou para Bituca com cara de patrão e apontou o relógio de pulso. Depois voltou para dentro. A Berimbau, a bem da verdade, era vanguarda. Só jazz. Era decorada com fotos de Jorge Ben, Modern Jazz Quartet e Coltrane, enormes nas paredes (a foto de Jorge Ben como concessão ao gênio brasileiro).

— Prefiro mil vezes o Capitão César — Bituca ironizou.

— Antes que você volte, deixa eu falar uma coisa: amanhã estréia Jules et Jim no Tupi. A projeção não é boa como a do Metrópole, mas o filme é genial.

— Sabe de uma coisa? — disse Bituca. — Eu não ia com sua cara desde o dia em que te conheci. Aliás, até hoje o povo do Levy não gosta de você.

Soltei um sonoro palavrão. Bituca deu uma risada:

— Não precisa ir virando Das Baixínhans Invocádans.

Voltamos para dentro da boate Berimbau. O som de Halimah, com John Coltrane solando, foi cortado das caixas. Naquela noite o Berimbau Trio atuava com Wagner Tiso ao piano e um certo Violão na bateria. Ambos já estavam sobre o pequeno tablado-palco, atrás dos respectivos instrumentos. Bituca assumiu o baixo acústico e a Jam começou: jazz e Standards americanos. Em alguns números, ele também cantava. My Funny Valentine, por exemplo. Aquele Berimbau Trio era muito bom.

Sentado a um canto escuro, bebendo Pernod 45, eu viajava pela sonoridade original do meu jovem amigo preto, tímido, magricela, de olhos arregalados, calça pega-frango e mãos enormes, de fala balbuciante toda vez que o assunto se tornava sério, meu amigo esquisito, caladão para quase todos e histrião para alguns poucos, meu amigo cantor, músico e poeta genial, eu sabia disso, genial. Difícil seria convencer o próprio.

Ao final do último set, Wagner Tiso comentou comigo:

— Tinha esquecido de outro nome do Bituca — Wilton.

Novas risadas.

— Wilton?

— Em Três Pontas, tinha o conjunto W’s Boys, que fazia bailes por ali tudo. Era: Wagner, Waltinho, Wilson, Wanderley e Bituca.

Rimos mais um bocado.

— Bituca teve que virar o M de cabeça pra baixo, senão, não tocava.

Mais risos. Depois, Wagner e Violão foram comer um tropeiro no Adão. Bituca e eu voltamos para o Levy, caminhando em silêncio. Era madrugada. Estávamos cansados, mas alegres e satisfeitos. A gente pressentia que estava nascendo ali muito mais do que uma grande amizade qualquer. Um pacto de vida, uma promessa de futuro, um amor fraterno, um valor humano. Fosse o que fosse, naquele momento as palavras eram de todo desnecessárias.


Márcio Borges
em Os Sonhos não Envelhecem
histórias do clube da esquina
Geração Editorial. São Paulo.
1996.

Domingo, Dezembro 20, 2009

 

A HISTÓRIA MÍTICA


A EXPEDIÇÃO DO CAMINHO NOVO


Havia pouco tempo que terminara a Guerra dos Emboabas, travada por brasileiros e reinóis na porção territorial de nosso estado, em que mais abundavam as minas. Foi pacificador dos povos o notabilíssimo Capitão General Antônio de Albuquerque, a quem o rei de Portugal em boa hora confiara tão elevada missão.


Nesse tempo São Paulo, Minas e Rio formavam uma só capitania. Antônio de Albuquerque teve ordem de desmembrar São Paulo e Minas da capitania do Rio, criando a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro. Veio também autorizado a inaugurar em Minas o Regime das Municipalidades e a criar as três vilas (as primeiras que se fundaram em nosso estado), as quais elegeriam livremente as suas câmaras. Isso se deu do ano 1709 ao ano de 1711, no princípio do século 18. Nove anos mais tarde,isto é, em 1720, foi o território de Minas desmembrado do de São Paulo, passando a constituir uma capitania independente — a Capitania de Minas Gerais, cuja capital foi Vila Rica (Ouro Preto) e cujo 1º governador e capitão-general foi D. Lourenço de Almeida.


Como íamos dizendo, foram criadas três vilas, a saber: Vila do Carmo, hoje Mariana, em abril de 1711; Vila de Albuquerque, hoje Ouro Preto, em julho do mesmo ano, e Vila Real, hoje Sabará, no mesmo mês e ano.


Uma das cerimônias mais interessantes daquela época era a fundação de uma vila. Era um ato solene, revestido de muitas formalidades, como vamos ver.


Antes de tudo levantava-se na praça pública o pelourinho. O pelourinho era o principal distintivo (símbolo) das vilas. Lugar que não tivesse pelourinho não podia ser vila: continuava sendo “arraial”. O pelourinho era uma coluna de pedra, originariamente com 4 faces ou lados (correspondentes aos 4 pontos cardeais), tendo nas quinas argolões de ferro e, às vezes, ostentando na base da coluna um desenho alusivo ao emblema da vila (armas, brasões), além da data da inauguração da vila, ou outros dizeres. A esses argolões de ferro eram amarrados os escravos, que deviam ser surrados na praça pública em castigo de faltas cometidas.


Enquanto se inaugurava o pelourinho, os sinos de todas as igrejas badalavam a um tempo só, em sinal de regozijo; a força miliciana (força pública), postava-se na praça, armada de mosquetes, e dava uma descarga de salvas; o povo, por sua vez, dava salvas de roqueiras.


Levantado o pelourinho, — dava-se a inauguração oficial da vila pelo corregedor, ou ouvidor, da Comarca.Em livro especial lavrava-se um assento (termo) da inauguração). Nesse termo deviam ser arrolados “o dia da inauguração, o nome da vila, os limites e confrontações de seu território”, além dos “nomes do ouvidor, do capitão-mor da vila (nomeados na ocasião), do mestre-de-campo da vila (nomeado também na mesma ocasião). Assim como os “nomes dos juízes e oficiais da câmara” (vereadores) eleitos em eleição (escrutínio), presidida pelo mencionado ouvidor.



Carlos Góis

em Histórias da Terra Mineira

Garnier. Rio de Janeiro.

1994.


Quinta-feira, Dezembro 10, 2009

 

ENTRE RIOS DE MINAS


 

MESTRE AIRES


XVIII


Os sobreditos pretos alugados devem ser capazes de todo o serviço, isto é, nem velhos nem rapazes. A inspeção sobre os seus procedimentos deve competir aos Administradores que com eles trabalharem, debaixo de sujeição da Administração Geral dos serviços. Todos os sobreditos pretos serão vigiados e se tomarão com eles as mais assíduas e exatas cautelas, dando-se-lhes as mais repetidas e rigorosas buscas. Os que forem achados com balanças, com vendas ou com quaisquer outros sinais de traficância serão condenados a galé pelo tempo proporcionado aos indícios que contra eles se resultarem e não serão mais admitidos a entrar nos serviços. Achando-se-lhes negros que pareçam fugidos, serão entregues aos seus donos, fazendo-se-lhes pagar a tomadia deles e assinar termos de os venderem para fora da comarca debaixo de pena de despejo. Sendo os ditos negros forros ou escravos dos que andam a ganho, serão em todo o caso obrigados a despejarem a comarca e com eles os donos, se os tiverem por ser este o meio mais ordinário de que só costumam servir os descaminhadores de diamantes.


XIX


A escolha dos escravos que for necessário alugar, conforme a referida determinação, e igualmente a preferência que devem ter os seus respectivos senhores, serão reguladas com uma prudente igualdade pelo desembargador Intendente dos Diamantes e pelos três Caixas administradores, preferindo-se os escravos de maior habilidade e experiência dos quais não houver indícios de serem descaminhadores de diamantes. Em segundo lugar, se alugarão os escravos daquelas pessoas que se distinguem no serviço da Administração, concedendo a cada uma delas, conforme o seu préstimo, zelo e fidelidade, o aluguer de maior ou menor número de escravos. Em terceiro lugar, serão alugados os negros dos moradores, do distrito da Demarcação das Terras Diamantinas, conforme a maior ou menor quantidade de escravos que tiverem empregado nas suas lavras, lavouras ou outros exercícios. E se não atenderão a aqueles que houverem acumulado escravos só com o fim de os alugarem para os serviços da extração, com um abuso o qual mando seja inteiramente abolido, com os absurdos que o acompanharam.


XX


Depois de haver sido determinado o número de escravos que se hão de alugar e de haver sido feita a referida regulação de escolha dele pelo desembargador Intendente e pelos Caixas-administradores, não será lícito a pessoa alguma de qualquer qualidade ou condição que seja, formar pretensões ou alegar direito de preferência para que lhe admitam os seus escravos, debaixo das penas de ser havido por perturbador do sossego público, como tal desterrado para fora da comarca e castigado com as penas que merecer. Permito, porém, que as pessoas que foram preteridas nesta disposição dos alugueres dos escravos, possam requerer à Mesa da Inspeção e Administração de Lisboa, com a justiça que se considerarem para que, ouvindo o desembargador Intendente e mandando se informar, me dê conta para eu dar toda a necessária providência ou para fazer justiça aos agravados ou para castigar os acusadores, se reconhecer que as queixas são injustas e nascidas de um espírito sedicioso ou de desordenada cobiça.


XXI


Nenhumas pessoas que não sejam moradores no distrito da Demarcação dos Diamantes, poderão ter neles negros em cabeças de outras pessoas para os alugarem ao Contrato. E provando-se que os têm, depois de haverem os senhores deles pago a tomadia, serão obrigados a servir nas galés pelo tempo de três anos, de seis pela segunda, e de dez pela terceira vez, sendo os escravos do mesmo dono compreendidos na primeira transgressão deste artigo.


XXII


A admissão ou exclusão dos Administradores subalternos, feitores e mais empregados no serviço da Administração pertencerão privativamente ao Inspetor Geral e aos Caixas da Administração de Lisboa. Os quais com a aprovação do dito Inspetor despedirão todos aqueles que bem e fielmente não cumprirem com as suas obrigações, sem que estes possam formar perturbações, depois de despedidos, para serem admitidos por qualquer causa ou pretexto que seja.



Aires da Mata Machado Filho

em Arraial do Tijuco Cidade Diamantina

Itatiaia. Editora da Universidade de São Paulo.

Belo Horizonte. São Paulo.

3ª edição. 1980.


Terça-feira, Dezembro 08, 2009

 

VOZ DE MINAS


Tudo isso, o mineiro o sente de primeira mão, como um dos postulados de sua admirável filosofia da vida, tão preciosa de defendermos contra as dúvidas que o ambiente adverso do mundo contemporâneo possa ir levantando contra ela, entre os seus próprios portadores mais autorizados. É por isso que eu tenho vontade, de vez em quando, de gritar lá para cima — mineiros do meu Brasil, sede cada vez mais fiéis à filosofia mineira da vida. Não duvideis de sua veracidade, de sua modernidade, de seu futuro. Pode o mundo dar as voltas que der, podem dizer-vos as sereias de todas as praias do mundo que a vossa concepção da vida está velha e cansada; tudo isso é sofisma, é mentira, é interesse inconfessável. A vossa filosofia da vida é a única digna de vosso amor e de vossa vida. E com ela é que continuareis a ser alguma coisa no Brasil e no mundo. Há uma missão de Minas no Brasil, como há uma missão de Minas no mundo. Ela é a de ficardes fiéis à filosofia mineira da vida. E um dos seus postulados é o respeito ao passado, a fidelidade aos pontos fundamentais, às linhas de força de vossa tradição. “Para serdes modernos — dirão alguns — tereis de deixar de lado esses falsos respeitos”. Mentira. Não é exato que para serdes modernos tereis que deixar de lado tudo isso. Pertencer à categoria do eterno, como é o vosso caso, é o mesmo que ser contemporâneo de todos os tempos, inclusive o moderno. Pertencer apenas à categoria do moderno, isso sim é ser contemporâneo apenas do nosso tempo. Sois mais ricos como sois, do que vos conformando à moda, que vos quisessem impor.

A força do mineiro, a sua verdadeira modernidade está em não ser convencionalmente moderno. No dia em que um mineiro se trai a si mesmo e se submete a essa categoria da modernidade falsa, deixa de ser mineiro, corta as amarras com o seu povo, com o seu passado, com as suas raízes e vai ser uma célula louca, perdida nos turbilhões do mundo, arrastada por forças exóticas, a que irá servilmente obedecer, com a ilusão de uma liberdade que não possui.

O mineiro, portanto, rejeita, por seu simples modo de ser, esse falso dogma moderno da superioridade do presente sobre o passado. E nisso está e estará sempre sua grande força, sua diferença específica.


Alceu Amoroso Lima
em Voz de Minas
ensaio de sociologia regional brasileira
Agir. Rio de Janeiro. 1945.

Sábado, Dezembro 05, 2009

 

A ECONOMIA COLONIAL


A respeito da palavra “querosene”, um dos produtos de mais intenso comércio depois da sua descoberta em 1854, supôs-se que seria corruptela da firma carioca Queirós, Enes & Cia., primeira importadora desse produto do petróleo. Foi Afonso de Taunay quem apurou ser o verbete de boa e legítima cepa ianque.


Muitos plantadores de café, cana, milho, arroz, algodão etc., mantinham grandes lotes de burros para o transporte da sua produção, mas inúmeros outros se utilizavam dos tropeiros profissionais para esse serviço. Basta dizer que Kidder e Fletcher foram informados de que duzentas mil mulas, anualmente, deixavam em Santos a produção do interior de São Paulo e do sul de Minas e Goiás.


Por ocasião da revolução Farroupilha, esforçando-se o governo em isolar a Província conflagrada, proibiu o tráfego de muares procedentes do Rio Grande e da Banda Oriental. Era um sério golpe na economia da Província, que hauria grande parte da sua riqueza no comércio de animais para as Províncias do norte, e os clamores não se fizeram esperar. Comerciantes de Cruz Alta, onde estavam detidas milhares de cabeças, se dirigiram ao governo que, por aviso de 1 de agosto de 1842, concedeu permissão para conduzi-las à Província de São Paulo, prorrogando a autorização contida no aviso de 17 de maio do mesmo ano.


Desde 1825, aliás, estavam suspensas as proibições contidas na legislação colonial, com respeito ao comércio de muares, de vacas e éguas, conforme o ofício de 29 de novembro dirigido ao presidente da Província de Minas, então o futuro visconde de Caeté.


O príncipe Maximiliano, que percorreu as Províncias do Rio de Janeiro, Espírito Santo e parte das de Minas e Bahia em meados do século passado, fala longamente do fenômeno das tropas e confessa a sua admiração pelo que observou. “É espetáculo interessante — diz ele — o de uma dessas tropas, aliás características dos campos gerais. Sete burros formam um lote, conduzido e atrelado por um homem, que dele cuida. O primeiro animal da tropa tem uns arreios pintados e guarnecidos de numerosos guisos. O chefe da tropa vai a cavalo, na frente, com alguns de seus associados ou ajudantes; todos vão armados de compridas espadas e vestem botas de couro castanho, que sobem até muito em cima. Cobre-lhes a cabeça um chapéu de feltro cinzento claro. Essas tropas quebram, às vezes, a triste uniformidade dos campos.


Para arriar-se o burro, põe-se-lhe primeiro, ao lombo, uma albarda, “que é de madeira e tem uma forte saliência vertical nas suas extremidades da parte superior; suspendem-se nelas, de cada lado, as caixas ou sacos a se transportarem. A fim de diminuir a pressão dessa cangalha, forram-se internamente com capim seco, de longas folhas estreitas e que é estendido bem por igual; põe-se por cima desse colchão de capim um coxim feito de esteiras e cobre-se este com um pano de algodão. A albarda assim acolchoada é, ainda, guarnecida de um couro recortado; a parte externa deste tem dois orifícios para deixar passar as pontas da cangalha, em que se suspendem as cargas. Amarra-se, na frente dessa cangalha, uma correia larga e, atrás, uma outra comprida: estas duas correias são indispensáveis quando se sobe ou desce uma montanha. Uma tira de couro cru, fortemente amarrada e presa a um nó, dá a volta da cangalha e fixa-a solidamente”.



João Dornas Filho

Aspectos da Economia Colonial

Itatiaia. Belo Horizonte.

2ª edição. 1959.


Quinta-feira, Dezembro 03, 2009

 

CONGONHAS


 

MINEIRANÇAS


Passado o tempo, nota-se que a economia mineira não ofereceu resposta dinâmica no quadro brasileiro. Agigantou-se a atividade industrial, mas sem eficiência integradora. Antes, aprofundou a dependência econômica do estado à demanda internacional (café, minério e soja) ou aos interesses multinacionais (indústria alimentícia e automobilística). O setor bancário esfacelou-se em proveito de outras unidades da federação. A indústria siderúrgica expandiu-se sem adotar posição de liderança. As demais atividades mantiveram-se no mesmo grau e dependência em relação aos estados limítrofes.


Entretanto, pesquisa desenvolvida pelo Programa de Estudo dos Estados da Fundação Getúlio Vargas revela que Minas Gerais, detendo 12,52% do Produto Interno Bruto, situa-se em segundo lugar em produção, entre os estados brasileiros, superado apenas por São Paulo, que contribui com 35,77% do PIB.


A participação relativa de Minas Gerais no PIB nacional vem-se avolumando a partir de 1970. Vê-se, da tabela anexa, o incremento da participação mineira, que registra 8,28% em 1970.


Simultaneamente ocorre o declínio do peso relativo do Rio de Janeiro no Produto Interno Bruto, que aponta 16,67% em 1970 e apenas 10,91% em 1990.


O estudo da Fundação Getúlio Vargas indica, além de Minas Gerais, os Estados do Paraná, da Bahia, de Goiás e do Mato Grosso do Sul como os novos centros dinâmicos da economia brasileira. Talvez o resultado, segundo Istvan Karoly Kasznar, do êxito do esforço de interiorização do crescimento, iniciado pelo presidente Juscelino Kubitschek nos anos 50.


Sente-se, igualmente, pela tabela, uma desaceleração da economia de São Paulo, cuja participação no PIB cai de 39,43% para 35,77%, em face da retração industrial do país na década de 80, bem como do declínio dos investimentos estrangeiros.


O avanço da economia mineira é atribuído ao fomento continuado à pequena e média empresas, apoiado na oferta de infraestrutura industrial e na capacitação técnica dos recursos humanos.


Tudo isto aponta para o fortalecimento da classe média urbana do Estado, o que certamente refletirá no âmbito da cultura e da política.



Fábio Lucas

Mineiranças

Oficina de Livros. Belo Horizonte.

1991.


Sábado, Novembro 28, 2009

 

NOS TEMPOS DO BENÉ


A CONFIRMAÇÃO

Apenas chegado ao Rio, procurei no hotel o deputado Gabriel Passos, a quem narrei o sucedido e pedi interviesse junto ao Capanema a fim de que ele cumprisse as determinações do Presidente.

— Absolutamente! O Capanema faz muito bem em recusar. É um desaforo. O Presidente não pode deixá-lo nesta situação humilhante.

— Gabriel, senti que o Presidente quer nomear o Capanema, mas está em dificuldades para assinar agora a nomeação. Com o passar do tempo as paixões vão-se arrefecendo e as coisas podem mudar.

— Não, de nenhuma forma concorro para isso.

Apesar de ter tido a impressão de que a conversa pelo telefone já se havia realizado, solicitei ao Gabriel que ligasse para o Capanema.

Feita a ligação e estabelecido rápido diálogo, o Gabriel declarou, de maneira conclusiva e firme:

— Pode dizer ao Presidente que o Capanema não aceita governar sem ser efetivado.

Saímos juntos e fomos à Câmara eleger o líder da bancada.

Por sugestão de Antônio Carlos, foi eleito unanimemente Virgílio de Mello Franco.


Benedicto Valladares
em Tempos Idos e Vividos
memórias
Civilização Brasileira. Rio de Janeiro.
1966.

Sexta-feira, Novembro 27, 2009

 

O DIABO NA LIVRARIA DO CÔNEGO


FEBRE DE INSTRUÇÃO


O espírito do século XVIII — o espírito novo — inclinava-se para a observação e a experiência. Descobria-se a natureza externa, procurava-se o real. O mundo era vasto e desconhecido; a natureza humana, diversa e complexa. As relações dos grandes viajantes e exploradores marítimos — Anson, Cook, Bougainville — lidas com avidez, incutiam por toda a parte o gosto das viagens. Para os que não podiam ou não queriam viajar, escreviam-se livros mais ou menos documentados e pitorescos. O filósofo Kant, sedentário e comodista, jamais saíra da sua cidade natal, a não ser para lecionar algum tempo num lugarejo vizinho; mas — homem de sua época — gostava da geografia e da etnologia de terras longínquas, e metade de sua pequena biblioteca constituía-se de narrações de viagens.


Essa literatura entrou também na livraria do Cônego Luís Vieira da Silva e ali se achava representada principalmente — entre outras obras provavelmente existentes mas não especificadas na relação das que lhe foram seqüestradas — pelo livro de Robilon e Banks, Voyages Autour du Monde, em quatro volumes, e por outro muito anterior à dromomania do século XVIII, o intitulado Novus Orbis Regionum ac Insularum Veteribus Incognitarum, compilação de narrativas de viagens modernas, tomadas a diversos viajantes, pelo célebre teólogo e filólogo protestante Simon Grynaeus, amigo de Erasmo e Melanchton. Nessa obra, publicada em Basiléia, 1532, apareceu um mapa-múndi, logo famoso, com curiosos desenhos e interessantes descrições das terras americanas.


O livro de Banks referia-se às viagens que o célebre naturalista inglês realizou pelo mundo, para formar sua coleção de plantas e enriquecer sua biblioteca de todos os livros relativos à ciência de que se ocupava. Banks visitou primeiramente, no navio de um capitão amigo, as regiões frias da Terra Nova e do Labrador. Depois, fez parte da expedição de Cook aos mares do Sul, em 1768. Passando pelo Rio de Janeiro, empenhou-se em explorar com seu companheiro Solander (discípulo de Lineu) a flora e a pequena fauna do Rio e arredores. O governador da cidade, não compreendendo que alguém pudesse empreender penosas e arriscadas excursões com o fim único de herborizar e caçar borboletas, recebeu hostilmente os visitantes. Estes, não obstante, conseguiram percorrer todas as ilhas da baía e recolheram boa quantidade de plantas e insetos.


Sobre geografia tinha o Cônego dois dicionários, ambos em francês (um seria, provavelmente, o de Ladvocat e Vosgien) e a Géographie Moderne, em dois volumes, de Nicolle de Lacroix, que durante muito foi clássica na França.


Ao gosto da geografia e das viagens e explorações prendia-se o gosto das ciências e, em particular, das ciências naturais. E também o gosto dos estudos históricos, pois a história confirma a geografia, ou esta confirma aquela.


De História Natural, anotamos o Dictionaire Universelle d’Histoire Naturelle, em seis volumes, de Valmont de Bomare, naturalista francês que muito concorreu para difundir a ciência que professava; um volume com as Mémoires Instructives sur l’Histoire Naturelle e ainda um livro relacionado com o assunto, de Bernardin de Saint Pierre, os Estudos da Natureza, muito lido na época.


Era grande a difusão e a influência da ciência. O estudo das ciências experimentais penetrava no ensino. A escolástica desaparecia do ensino científico dos colégios e mergulhava no ridículo. E até os jornalistas — apedeutas crônicos — justificavam o estudo da Física e das Matemáticas. A moda propagou-se às próprias mulheres. Na opinião de um filósofo da época, a Física era uma das mais nobres e virtuosas ocupações do espírito humano.



Eduardo Frieiro

O Diabo na Livraria do Cônego

Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo.

Belo Horizonte / São Paulo.

2ª edição. 1981.

Quinta-feira, Novembro 26, 2009

 

RIO ACIMA


 

TOTÔNIO PACHECO


O vento seco vinha da noite inteiramente preta. Na sala de jantar grupos sentados em bancos, contra as paredes, conversavam em voz baixa. No lampião belga que pendia do teto de esteira, a chama crescia no vidro a cada lufada. O casarão parado no meio da sombra. Carmo Peres, abancado na varanda ao lado do amigo, olhava a noite.


— Puxa, que escuridão. “No princípio, era o nada...”


Fernandes se estendera num banco, de olhos cerrados, as mãos sobre o peito de onde brotava um suspiro de vez em quando. Atitude mortuária. O vento vinha dos campos que ninguém via, rascava nos canaviais e milharais apenas pressentidos, dobrava os arbustos diluídos num só uivo que se repetia, sacudia árvores que tinham deixado de existir.


— Por que esta fazenda se chama Grota?


— Nunca procurei saber por quê. Talvez por causa da construção da casa na base da montanha, com um porão aberto na pedra pela escravaria, lá onde estão os tanques de garapa, os alambiques, as tachas de rapadura, uma sujeira antiga conservada até hoje pelo relaxamento. Como tudo aqui.


— Mas você poderia ter dado um jeito nisso. Aconselhado seu pai a respeito de melhoramentos. Mais conforto, maquinismos, aparelhos sanitários.


— Ora, eu quero lá saber de fazenda, Peres... Ah, o ribeirão que passa a um quarto de légua daqui, aquele do pontilhão de concreto da estrada, é o ribeirão da Grota. Uma coisa ou outra explica o nome.


Misturados com o vento, iniciaram-se atrás da casa uivos de cachorros. Verdadeiros gritos de dor, ganidos que foram aumentando, ganhando força de desespero. Cresciam, se extinguiam, voltavam, diminuíam, permaneciam.


— Devem ser os cães de caça de meu pai. Uma cachorrada impossível. Devido à doença, ou à presença de você, estão presos; senão, estavam pelos cômodos, trançando entre as pernas da gente.


— Mas vi alguns cachorros por aí.


— São os menos imprudentes, cães caseiros. Os de caça geralmente são mal educados, exigentes.


— Ahn... Mas que noite, Fernando. Nunca me senti tão isolado no mundo. Isolado do mundo. Isso é mil vezes pior do que a noite num pequeno navio no alto mar. Lá tem pelo menos a trepidação barulhenta das máquinas, atividade humana. Aqui, talvez pelo marasmo, não sei que espécie de desânimo, sentimento de inutilidade... A solidão, o isolamento completo. Imagino toda uma existência aqui! Numa noite assim eu colocaria possantes holofotes nesta varanda, passaria o jato de luz em redor até longe. Pra me certificar constantemente de que a casa não se tinha desgarrado para o infinito... Isto assim impressiona a gente, fora de brincadeira.


O coronel chegou subitamente ao peitoril da varanda, espiando a sombra na direção do terreiro:


— Felisbino, Felisbino diabo!


— Senhor!


— Você esqueceu de dar comida aos cachorros, negro à-toa!


Na escada de pedra os passos descalços quase correndo e Felisbino se revelou à luz do lampião: preto de olhos vivos, pelos vinte anos, sujo e fedorento. O mesmo que, sem camisa, abrira a porteira à chegada. Sem camisa ainda, mas vestindo um velho paletó de casimira, esmolambado, amplíssimo para ele.


— Seu velho enxergou o negro no terreiro. O negro no preto, ou vice-versa. Pra ele não há escuridão absoluta nestas paragens.


— É o treino dos homens envelhecidos longe da luz elétrica: enxergam no escuro, mas não enxergam longe.


— Pretensões, bacharel... Em todo o caso, pros que não têm tal treino, devia existir nesta varanda o holofote.


— Seria interessante... Mas a verdade é que vim encontrá-la morta, como falei. Esse estertor horrível já não é vida. Vida seria conhecimento: se ela me pudesse ver a seu lado, saber que vim logo...


— Mas há verdadeiros milagres, às vezes, contra os dogmas da ciência.


— Não me console com miragens. Estou perdido. Tanta ingratidão com minha mãe... Que é que vai ser de mim?


Os olhos estavam rasos d’água. O médico olhou com espanto aquela teatralidade. Veio um silêncio.


— O uso do cachimbo faz a boca torta.


— Quê?


— Nada, Fernando? Uma coisa em que eu estava pensando. Console-se, meu amigo.


— Que é que hei-de fazer senão me consolar... Estou me lembrando agora é de Orminda e do guri.


O lampião se apagou a uma lufada mais forte. Já nem mesmo a casa existia. Carmo Peres teve um arrepio que o tomou sem tempo para um controle psíquico. Aliás, a escuridão trouxe um silêncio tal que era iminente... Sem atingir o fim de seu pensamento, definir sua impressão, o médico somente se perguntou absurdamente por que não reagiam, apesar da rapidez do instante, ameaça, perigo, sombra... Esticou o braço para tocar no amigo, desencruzou as pernas para tocar com as plantas de ambos os pés as tábuas que sabia grossas e seculares. Seria mesmo? Seria o quê? Ia dizer alto: Fernando, você está aí? Mas o instante foi curto, bem menos de um minuto, e a voz do fazendeiro reboou lá dentro:


— Felisbino, Felisbino diabo!


— Jesus! — exclamou outra voz, de mulher, num esforço dentro da sombra, quase num gemido.


Reaceso o lampião pelo preto, Peres, humilhado, se ergueu para fechar a porta que ficava em frente da chama; a varanda continuaria iluminada pelas janelas. O coronel o deteve com um gesto imperativo:


— Deixe a porta, doutor. Faz favor de vir cá. A alma...


— Que besteira, meu pai.


— Meu filho, você bem sabe que não é besteira. Que tem mais de cem anos que é assim... Mas, se o doutor não acredita, venha ver: a alma do meu bisavô Francisco.



João Alphonsus

em Totônio Pacheco

Companhia Editora Nacional. São Paulo.

1935.


Quarta-feira, Novembro 25, 2009

 

FAFICH


ANA PAULA E MARIA RITA

Quem conheci naquele março foi um bando de militantes barbudos e charmosos, como Fernando Grossi, Murilo Valadares, Ricardo Ribeiro, Reinaldo Maia Muniz, Jânio Bragança, Lúcio Vaz Sampaio. Murilo eu havia conhecido primeiro de vista, quando ele preparava o show da calourada que eles, do DCE, estavam organizando para nós. Seria com o Gonzaguinha, então fui com a comissão de comunicação entrevistar o artista para sair em boletim ou jornal do qual não tenho qualquer registro. O Gonzaguinha nos recebeu nas arquibancadas do ginásio do Minas Tênis Clube, onde seria o show, e nos deu uma entrevista mal humorada, como era de seu feitio. Naquele dia, vi de longe o Murilo dando ordens, pegando no pesado, organizando tudo, e tive a impressão de que ali estava um verdadeiro Fidel Castro — com tudo de positivo que isto significava em termos de liderança. Eu não estava errada.

Meu primeiro contato com entidade estudantil propriamente foi com o Centro de Estudos do Básico, mas no mesmo ano entrei para a chapa da Liberdade para o DA Fafich, legendária entidade estudantil que vinha da tradição dos anos 60 e que sempre resistiu, mesmo nos momentos mais negros da vida nacional. A entidade nunca foi desativada, embora tenha sido proibida, junto com todos os DAs e DCEs desde 64. Fiz parte de sua diretoria duas gestões seguidas. A história de luta do DA Fafich remontava ao terreno histórico dos militantes da esquerda católica, a antiga Ação Popular oriunda dos movimentos JEC, JOC, JUC (Juventudes Estudantil, Operária e Universitária Católica). AP se transformou em APML (Ação Popular Marxista-Leninista) e tinha como fachada não legal, mas visível, em Minas, a tendência estudantil Liberdade. Em São Paulo nos chamávamos Refazendo, e em cada lugar tínhamos outros nomes. Quando conheci a face clandestina da organização — ou “O”, como a chamávamos —, ela atuava em conjunto com o MR-8, que ainda não tinha descambado para um caminho que o aproximou de uma postura meio fascista nos anos seguintes.

Em 78, AP e MR-8 (Ana Paula e Maria Rita, como as chamávamos), sob a fachada de Liberdade, estava à frente do DCE-UFMG havia dois mandatos. Em 78 e 79 ganhamos o DA Fafich e perdemos o DCE-UFMG. Em 79, em compensação, ganhamos a UEE (União Estadual dos Estudantes), numa aliança com o PC do B e outros, e a UNE (União Nacional dos Estudantes), na primeira diretoria eleita depois da reconstrução, no memorável congresso de Salvador, no qual tive a sorte de estar presente. Só que, numa piada de muito mau gosto, ganhamos a UNE mas os nossos representantes na diretoria debandaram para o MR-8 na hora da separação das duas “Os”, de modo que ganhamos mas não levamos.


Clara Arreguy
em Fafich
col. BH. A Cidade de Cada Um.
Conceito. Belo Horizonte. 2008.

Segunda-feira, Novembro 23, 2009

 

CYRO DOS ANJOS


Vejam como o nosso professor Abdias reagiu ao uísque da adega do dr. Azevedo. Volta para casa tarde e, encontrando a mulher a dormir, desliza, sorrateiro, para o escritório, onde já nem percebe o frio, e se põe a escrever de irreais amadas... Por pouco nos sai com uma teoria platonizante acerca do amor!


Se mestre Kant, o mais austero dos filósofos, tomasse, de vez em quando, o seu pileque... Bem, não digamos tolices. Vamos ao relato do que houve em casa de Gabriela e que foi omitido, com a digressão de ontem.


Tudo se passou sem maiores complicações. Os Ataídes de Azevedo são, na verdade, encantadores e cedo venceram as reservas com que entrei na casa. Gabriela havia-me enganado, fazendo crer que se tratava de um chá na intimidade, para que seus pais me conhecessem. Houve, com efeito, o chá, mas o programa foi além.


Fazia anos ontem (dezessete, contou-me o Dr. Azevedo) e quis associar-me à sua pequena festa.


Supôs que a reunião da noite, que seria mais ruidosa, pudesse não me agradar — explicou — e por isso lembrou-se do chá. Também teria sido difícil apanhar o Dr. Azevedo em casa, àquela hora, noutro dia que não fosse o do aniversário dela. Durante a semana, está sempre na sua Clínica, pela tarde, e os domingos passa-os no Country Club ou num sítio que possui na Pampulha, nas proximidades da represa que a Prefeitura está construindo.


Mas, com a ajuda da bebida e a sem-cerimônia com que às vezes me conduzo, vencida a desconfiança inicial, fiquei não só para o chá, como também para o jantar e até para a reunião da noite. É verdade que, fazendo-o, apenas cedi a instâncias do Dr. Azevedo, que verifiquei ser excelente companheiro, e de Glória, que teve prazer em recordar os tempos passados em Várzea dos Buritis.


Desde que cheguei, feitas as apresentações, a conversa orientou-se, animada, para esses velhos tempos.


Daí a pouco, tratavam-me como antigo amigo da casa, e o Dr. Azevedo — com protestos de Glória, que será, como todas as mulheres, um tanto formalista, mas com aplausos de Gabriela, que acha graça no pai — falou-me que esse negócio de chá era mais adequado às damas e o melhor era passarmos ao seu gabinete de música, onde nos aguardavam alguns discos e uma garrafa de velho uísque.



Cyro dos Anjos

Abdias

em Dois Romances

José Olympio. Rio de Janeiro.

1ª edição. 1957.


Sábado, Novembro 21, 2009

 

RAPOSOS


 

MIGUILIM


De madrugada, todo o mundo acordou cedo demais, a Maria Pretinha tinha fugido. A Rosa relatava e xingava: — “Foi o vaqueiro Jé que seduziu, corjo desgramado! Sempre eu disse que ela era do rabo quente... Levou a negrinha a cavalo, decerto devem de estar longe, ninguém não pega mais!” O cavalo do vaqueiro Jé se chamava Assombra-Vaca. O vaqueiro Jé era branco, sardal, branquelo. Como é que foi namorar completo com a Maria Pretinha? A Rosa também era branca, mas era gorda e meia-velha, não namorava com ninguém. Quando a Rosa brabeava, desse jeito assim, Papaco-o-Paco também desatinava. Aquilo ele gritava só numa fúria: — “Eu não bebo mais cachaça, não gosto de promotor! Filho-da-mãe é você! É você, ouviu!? É você!...


O Dito não devia de ter ido de manhãzinha, no nascer do sol, espiar a coruja em casa dela, na subida para a Laje da Ventação. Miguilim não quis ir. Era uma coruja pequena, coruja-batuqueira, que não faz ninhos, botava os ovos num cupim velho, e gosta de ficar na porta — no buraco do cupim — quando a gente vinha ela dava um grito feio — um barulho de chiata: “Cuíc-cc’-kikikik!...” e entrava no buraco; por perto, só se viam as cascas dos besouros comidos, ossos de cobra, porcaria. E ninguém não gostava de passar ali, que é perigoso: por ter espinho de cobra, com os venenos.


O Dito contou que a coruja eram duas, que estavam carregando bosta de vaca para dentro do buraco, e que rodavam as cabeças p’ra espiar pra ele, diziam: “Dito! Dito!” Miguilim se assustava: — “Dito, você não devia de ter ido! Não vai mais lá não, Dito.” Mas o Dito falou que não tinha ido para ver a coruja, mas porque sabia do lugar onde o vaqueiro Jé mais a Maria Pretinha sempre em escondido se encontravam. — “Que é que tinha lá, então, Dito?” — “Nada não. Só tinha a sombra da árvore grande e o capim do campo por debaixo.”


Mas no meio do dia, o mico-estrela fugiu, correu arrepulando pelas moitas de carqueja, trepou no cajueiro, pois antes de trepar ainda caçou maldade de correr atrás da perua, queria puxar o rabo dela. Todo o mundo perseguiu ligeiro pra pegar, a cachorrada latindo, Vovó Izidra gritava que os meninos estavam severgonhados, Mãe gritava que a gente esperasse, que a Rosa sozinha pegava, Drelina gritava que deixassem o bichinho sonhim ganhar a liberdade do mato que era dele, o Papaco-o-Paco gritava: “Mãe, olha a Chica me beliscando! Ai, ai, ai, Pai, a Chica puxou meu cabelo!...” — era copiadinho o choro de Tomezinho. A gente tinha de fazer diligência, se não já estava em tempo d’os cachorros espatifarem o pobre do mico. Não se pegou: ele mesmo, sozinho por si, quis voltar para a cabacinha. Mas foi aí que o Dito pisou sem ver num caco de pote, cortou o pé: na cova-do-pé, um talho enorme, descia de um lado, cortava por baixo, subia da outra banda.


— “Meu-deus-do-céu, Dito!” Miguilim ficava tonta de ver tanto sangue. “— Chama Mãe! Chama Mãe!” — o Dito pedia. A Rosa carregou o Dito, lavaram o pé dele na bacia, a água ficava vermelha só sangue, Vovó Izidra espremia no corte talo de bálsamo da horta, depois puderam amarrar um pano em cima de outro, muitos panos, apertados; ainda a gente sossegou, todo o mundo bebeu um gole d’água, que a Rosa trouxe, beberam num copo. O Dito pediu para não ficar na cama, armaram a rede para ele no alpendre.



João Guimarães Rosa

Campo Geral

em Corpo de Baile 1º volume

José Olympio. Rio de Janeiro.

1ª edição. 1956.


Sexta-feira, Novembro 13, 2009

 

CINE PATHÉ


Dessa época, guardo duas lembranças. A primeira, de JK na varanda da casa onde residia sua mãe, respondendo, com um leve aceno de mão, aos cumprimentos das pessoas que passavam na calçada da Avenida Getúlio Vargas, em direção à praça. E o seu rosto se abrindo em um grande sorriso quando a criançada gritava: “— Boa noite, governador; — boa noite, Dona Júlia”. A segunda, uma atitude dramática que tomei para não perder minha diversão predileta. Na minha casa, a ida ao Cine Grátis deveria ser sempre acompanhada de uma pessoa adulta. Por isso, nas manhãs de segunda-feira, minha irmã Goia e eu já começávamos a procurar quem nos levaria. Um dia, deu “zebra”. Ninguém disponível, nem meus pais, nem as empregadas. Depois do jantar, um pedido choroso para ir com duas amigas e o irmão mais velho de uma delas caiu no vazio. Decidida a ganhar essa batalha de qualquer jeito, fui para a cozinha e, de posse de uma faca, ameacei suicidar-me. Moral da história: não fui ao Cine Grátis, ganhei bons beliscões de minha mãe e forneci mais um caso sobre os atos impensados de uma menina, ora com seis anos, cada vez mais fascinada pelo que descobria através do cinema. Uma fábrica de sonhos e aventuras, de conhecimentos e emoções.

Para viver intensamente os filmes, o melhor mesmo era assistir a eles em uma sala de cinema de verdade, no centro da cidade ou nos bairros. Todas tinham o mesmo ritual: a sala escurecendo ao som de uma envolvente melodia, e uma pesada cortina se abrindo para que a tela branca no centro do palco recebesse o feixe de luz que dominava o olhar do espectador durante duas horas. Mas cada cinema tinha sua música. A do Pathé era A Lenda da Montanha de Cristal; a do Metrópole, Folhas Mortas; e a do Acaiaca, O Despertar da Montanha.

Eu não me lembro do dia em que entrei pela primeira vez no Cine Pathé. Devo ter começado a freqüentá-lo em 1950, na superlotada matinê Mickey de domingo — que exibia desenhos animados de Walt Disney e Hanna & Barbera, comédias do Gordo e o Magro, dos Três Patetas, de Abbot & Costello, entre outros.

Mas ao procurar na minha memória, nos livros e jornais, datas e fatos importantes que aconteceram no Pathé, posso afirmar que eu estava lá, na matinê do dia 2 de julho, assistindo a O Jardim Encantado, com Margaret O’Brien, que tentava ser a Shirley Temple da minha geração. O filme, em preto-e-branco, conta a tradicional história de uma orfãzinha que foi viver em um castelo na Inglaterra, com um tio rico e mal-humorado. Com a ajuda do filho do caseiro ela descobre um primo doente e um jardim secreto. Por causa da cena final, nunca me esqueci desse filme. Margaret O’Brien abre o portão e o jardim é colorido. Um momento mágico.

Dos primeiros filmes “sérios” a que assisti, o mais impactante foi O Menino dos Cabelos Verdes. Dean Stockwell é Peter Fry, um órfão de guerra que mora com o tio bonachão em uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos. Um dia, misteriosamente, seus cabelos ficam verdes e isso provoca uma reviravolta em sua vida. Uma história sobre a reação preconceituosa das pessoas diante de algo diferente. Uma fábula contra a intolerância que levou seu diretor, Joseph Losey, a ser perseguido pelo macarthismo. A cena de Peter na cadeira do barbeiro olhando através do espelho a máquina tosar seus belos cabelos verdes ficou gravada para sempre na minha memória.

Quatro Destinos foi outro filme marcante da minha infância. Baseado no famoso romance de Louisa May Alcott, “As Mulherzinhas”, conta a história das irmãs March — a romântica Meg (Janet Leigh), a corajosa Jô (June Allyson), a fútil Amy (Elizabeth Taylor) e a generosa Beth (Margareth O’Brien) — na Nova Inglaterra, durante a Guerra Civil. Um filme que mexe com as emoções do público ao mostrar de forma sensível e delicada como essas jovens lidam com as mudanças que vão acontecendo em suas vidas, com o amor, com a morte. Das quatro irmãs, minha predileta sempre foi a Jô, a mais independente. Mas foi por causa da Amy que andei colocando pregador de roupa no nariz para torná-lo mais fino. Sonhava com o perfil da Elizabeth Taylor.

Uma menina e seu cachorro, um leão, um espantalho e um homem de lata são os personagens de O Mágico de Oz, um filme a que assisti dois dias seguidos. Eu queria ser Dorothy (Judy Garland) com seus sapatos vermelhinhos, com seus sonhos cantados, suas aventuras com amigos bem diferentes em busca da terra encantada onde não existiam problemas, onde as crianças eram ouvidas. Uma fábula que nos mostra o bem e o mal, que nos ensina lições de amor, de bravura e de lealdade. A entrada de Dorothy no reino de Oz é um dos momentos memoráveis do cinema, quando a cena em preto-e-branco- desaparece sob o brilhante colorido do arco-íris.


Celina Albano
em Cine Pathé
col. BH. A Cidade de Cada Um.
Conceito. Belo Horizonte. 2008.

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

 

ALMANAQUE MINEIRO


Freguezia de Taquarussú.


A freguezia do Santissimo Sacramento de Taquarussú foi creada pelo § 9º do art. 1º da lei provincial n. 209 de 1841. Dista da sede do termo 5 ½ legoas, da capital da provincia pela estrada de Matto Dentro 16, e pelo alto do Pires 11. Tem de norte a sul 9 legoas e de leste a oeste 4, e confina com as freguezias de Roças-Novas pelo Rio Preto e Morro, entre as fazendas do Mello e finado Antonio José da Costa Guimarães; com a da Lapa pelo campo de S. Antonio; com a de Santa Luzia pelo Rio Vermelho; com a da Lagoa-Santa pelo Rio das Velhas e estrada antiga do Serro; com a de Jaboticatubas pela estrada que dividia antigamente os dous districtos do Rapozo e Taquarussú e com as da cidade da Conceição e freguezia do Morro do Pillar pelo Rio Sapé. Está situada na margem do Rio das Velhas. Sua população orça por 5,100, dá 425 votantes e 9 eleitores.


Subdelegado


José Antonio Pinto.


Inspector Parochial


Conego Candido Affonso dos Santos Lage.


Vigario


Conego Candido Affonso dos Santos Lage.


Negocios de fazendas seccas


Carlos Frederico de Sá.


Generos do paiz


Domingos Francisco.

Joaquim Baptista Pingueiro.

José Ferreira da Silva.

Francisco Soares Junior.

João Baptista Nunes.

Antonio José de Lima.

Joaquim Carlos.

José Nunes dos Anjos.

Bernardino Antonio de Avellar.

José Pereira da Silva Junior.

Elisiario Augusto Soares.

Antonio Amalio de Candú.

José da Silva Junior.

Antonio Moreira Teixeira.


Fazendeiros que cultivão canna


Manoel Pinto Moreira.

D. Maria Joaquina dos Santos.

Antonio Teixeira Pinto.

(viuva de) Augusto da Costa Moreira.

D. Anna Theodora de Bittencourt.

Felicissimo dos Santos Ferreira e Comp.

Joaquim da Costa Moreira e Comp.

José Pinto dos Santos.

(os herdeiros de) Francisco das Chagas Torres.

José Amancio Pinto.

Luiz Quintão e Silva.

Rev. João da Costa Vianna.

Estevão Rodrigues Cortes.

Joaquim Marianno.

Marianna Carlota.

(a viuva de) Antonio Soares.

(o recolhimento de) Macaúbas.

O director da companhia ingleza de Cocáes.

D. Rita Theodora.

Antonio José de Castro.

Antonio Ferreira Torres.

Felicissimo Pereira da Silva.
Joaquim Regino.

José Alves Portella.

João Theotonio.

Manoel Gonçalves.

(a viuva de) Clemente Antonio da Silva.

Francisco Matheus de Castro.

Felicissimo Alves Ferreira.

Paulo Pereira de Souza.



Almanak Mineiro

publicado em Ouro Preto, 1864.

(mantida a ortografia da época)


Segunda-feira, Novembro 09, 2009

 

NOVA LIMA

Na Praça Bernardino de Lima, em Nova Lima, na Grande BH.

 

LUND, O COLETOR DO PASSADO


Esse local, a Lagoa do Sumidouro, deveria ter um tratamento especial. Ela foi palco de uma descoberta de grande importância histórica e científica. O estado atual da lagoa, do paredão em cuja base escoa a água e do entorno é lamentável. A lâmina de água foi cortada por um aterro, para se fazer uma estrada, o entorno recebe detritos em grande quantidade e o paredão é alvo constante de pichações que conseguiram estragar uma série de pinturas que testemunham o homem primitivo. A Lagoa do Sumidouro é um monumento ao descaso e ao abandono de um patrimônio cultural. Ainda bem que está protegida pela lei...


Pelo escrito anteriormente, deduz-se que o Rio das Velhas foi a causa principal da existência de fósseis nas grutas da região de Lagoa Santa. Sem a ação das águas haveria nas grutas, no máximo, pequenos mamíferos troglófilos (que podem refugiar-se ou habitar em grutas como os morcegos e roedores), os depositados por corujas e os raros que penetrassem acidentalmente nelas. Mas nunca na quantidade que Lund encontrou.


Após dez anos de pesquisas, o notável sábio abandonou seu trabalho de paleontólogo. Dificuldades econômicas, revoluções do período colonial, que tornaram perigoso o trabalho de campo, os achados repetitivos que pouca novidade lhe traziam, o medo do erro, uma vez que era difícil receber publicações novas na solidão de Lagoa Santa, as novas tendências da Biologia e as descobertas que fizera na Lagoa do Sumidouro, que esvaziaram seu paradigma científico, fizeram com que optasse por uma aposentadoria paleontológica. Preparou sua coleção e enviou-a para sua distante pátria onde está depositada no Museu de Zoologia da Universidade de Copenhague.


Por meio do material fóssil, coletado por ele, ou por outros pesquisadores, foram determinadas cerca de cento e trinta espécies que ainda sobrevivem e trinta extintas no vale do Rio das Velhas, o qual, por séculos, foi depositando no interior de numerosas grutas excepcional amostragem da vida do passado que Lund recolheu. Ele foi, na verdade, o cientista que resgatou o que as águas arquivaram. Mais uma que devemos ao Rio das Velhas e a seus afluentes.



Cástor Cartelle

Lund, o coletor do passado

em Navegando o Rio das Velhas das Minas aos Gerais

volume 2: Estudos sobre a Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas

org. por Eugênio Marcos Andrade Goulart

Projeto Manuelzão – Faculdade de Medicina da UFMG.

Belo Horizonte. 2005.

Sábado, Novembro 07, 2009

 

A EXPEDIÇÃO DE BURTON


A política colonial portuguesa amparava-se numa delicada obra de engenharia social em que a mestiçagem cultural lastreava a estabilidade do sistema, inserindo no caso brasileiro elementos da sociabilidade asiática que não passaram despercebidos a Burton. Ele não deixaria de encantar-se com a cálida acolhida que lhe prodigalizou uma senhora mineira que habitava nas margens do Velhas, a qual orientalmente (...) sentou-se sobre as pernas enrodilhadas à beira da cama à moda da Índia, mas sua extrema capacidade de comunicação e o gosto pelo que chamamos palração, substitui a graça da postura. E logo em seguida, malgrado a evidente indianidade do modo de sentar de sua anfitriã, Burton, surpreso pela oportunidade que teve de um contato social com mulher de família, justificou essa exceção dizendo que a (...) reserva semi-oriental e portuguesa começa a desfazer-se à medida que penetramos no interior. E se assim se comportavam as pessoas do sexo feminino em sua vida íntima, também os machos brasileiros da beira do Velhas, toscos proprietários de terras das barrancas do rio, iniciavam o seu dia de trabalho com um ritual observável em toda a região do Oriente Médio Islâmico pois, segundo Burton, (...) a vida do fazendeiro é fácil de contar-se. Levanta-se de madrugada. O seu escravo-aio lhe traz o café e um jarro de sólida prata. Esse costume é ainda conservado na Turquia, Egito e Pérsia. No Rio das Velhas o metal é preferível a qualquer outro material, pois os negros quebram tudo que pegam.

E se a vida dos brasileiros da elite era assim dominada por uma liturgia social de matiz asiático, também a classe popular não estaria infensa aos orientalismos que impregnavam o dia-a-dia da América Portuguesa. Referindo-se à tripulação do barco em que navegava no Rio das Velhas, Burton, observando o gosto que seus marujos tinham pela música e instrumentos musicais, disse que (...) gostam também da bandurra, ou pequena viola, espécie de guitarra de cordas metálicas e do marimbau, harpa judia (“jew’s harp”) ou antes “jaw’s harp”. O nome é visivelmente português de Angola. Tenha-se em vista, entrementes, que se o berimbau é angolano e portanto africano, o explorador britânico acuradamente empresta àquele instrumento uma filiação judia e, assim, semita como os árabes. Está pago aí, desta forma, o tributo prestado pelo berimbau ao asiatismo da vida brasileira.

A vida econômica brasileira, na região do Rio das Velhas, também foi surpreendida por Burton como estando permeada por variegados traços do Oriente. Enquanto navegava de Santa Luzia à Jaguara, o inglês avistou a fazenda da Carreira Comprida, da família Fonseca, a qual produzia provisões e “restilo”, como era chamada uma aguardente de alto teor alcoólico. O nosso aventureiro, fixando o seu olhar na maquinaria em movimento, observou que (...) o engenho fica numa elevação junto ao rio, com a face para o sudeste. Estava funcionando quando por lá passamos, e a música do maquinismo trouxe-me à lembrança agradáveis recordações de certas rodas-d’água no Sindh, Egito e Arábia. Nessas terras do futuro qualquer lembrança do passado é um dom inesperado.


Paulo Roberto Azevedo Varejão e
Alice Conceição Christófaro
A Expedição de Richard Burton
Em Navegando o Rio das Velhas
das minas aos gerais
vol. 2: Estudos sobre a Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas
organizado por Eugênio Marcos Andrade Goulart
Instituto Guaicuy-SOS Rio das Velhas / Projeto Manuelzão /
Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais.
Belo Horizonte. 2005.

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

 

OS VIAJANTES


OS CAMPOS BRASILEIROS


“Nuvens,

Névoas, sombras, luz de sóis de ouro,

Vibrações do luar

Há entre tudo penetração e compreensão

Aliança e entendimento

Mas só o sentem os corações feridos

e as almas livres...”


Wordsworth


A palavra campo campus — traduz bem a nossa expressão prairie. Não significa, porém, uma planura elevada, de formação semelhante à dos mares de grama do Orenoco, mas enfadonhas estepes da Tartária ou das grandes planuras russas e polonesas — fundos secos de lagos ou pântanos; nem tampouco apresenta paralelo com os planaltos ondulados do Kansas ou dos territórios transmississipianos. No Brasil oriental é uma superfície com colinas arredondadas, entre 300 e 600 pés de altura, geralmente d enível desigual e dispostas sem regularidade, e não em linha ou em ondas gigantescas, como as vastass elevações dos mares da África do Sul. Cada elevação é separada da vizinha por uma grota ou vale, profundo ou raso, que, muitas vezes, pode ter sido um lago. Esses vales são em geral cobertos de florestas e, durante as chuvas, ficam cheios de lama ou de correntes de água. Na província de são Paulo, o alto dos mosntículos tem um perfil mais baixo e às vezes assemelha-se a uma planície, enquanto que em Minas, exceto nas fronteiras, raramente esses cimos possuem extensão suficiente para localização de uma cidade. os declives dos montes e dos pouco profundos vales alternam-se progressiva e ininterruptamente através da província do Paraná e atingem seus máximos nos pampas e llanos, as despidas e pobres landes do sul.


Os campos formam a terceira região desta parte do Brasil, seguindo-se na direção ocidental, à Serra Marítima e à beira-mar, ou região costeira. É constituída por um plateau sedimentar e estratificado de 2.000 a 2.500 pés de altura, atingindo a leste, ou na direção do mar, a grande cadeia plutônica e não estratificada que tem cerca de 3.000 e 4.000 pés. Gardner encontrou em um ponto da Serra dos Órgãos 7.800 pés de altura. Assim, nessa região do Brasil, como em Zanzibar, na África, a linha das cumeeiras não fica no inteior, mas próxima à costa. Além disso, as montanhas não atingem grandes altitudes, como na Grécia (8.250 pés). Entramos agora nas vastas formações de itacolomitos e itabiritos que caracterizam as cadeias de montanhas do interior e que se estendem, com intervalos, até os Andes. O solo é composto de rochas hipogêneas cristalinas, granitos e sienitos que, em raros lugares se arqueiam e se revelam, em geral, onde os leitos dos grande srios cortaram os depósitos superiores. Assim, para não citar outros exemplos, no vale do Nilo, com 400 milhas de comprimento por doze de largura, o granito abre caminho até as cataratas através do calcário e da areia; no Uniamwesi encontrei enormes afloramentos de rochas plutônicas rompendo através das netunianas. O Sr. Chaillu (2ª expedição, cap. XV, p. 292) descreve fenômeno semelhante em Mokenga, na ilha Ishogo, a cerca de 150 milhas em linha reta da costa africana ocidental.


Colocadas ora em plena conformação, ora em desconformidade sobre esta base ondulante, as rochas cristalinas e estratificadas, quer no interior, quer na costa, ficam, como as fendas naturais e os cortes artificiais o provam, sobre o leito de seixos, principalmente de quartzo, ora rolado pela água, ora agudo ou anguloso, dispostas em nível ou em camadas onduladas, como que depositadas por águas serenas, ou por força do gelo. Superjacente, de novo, está a profunda e rica camada de barro, que faz do Brasil, como a África, uma terra de Ofir — terra vermelha, cor de ocre, altamente ferruginosa, homogênea e quase não estratificada, outrora uma massa de areia e argila, com seixos e rochedos espalhados indiscriminadamente sobre o depósito. A superfície é silicosa e argilosa, pobre e amarela, parca de húmus e com pouco quartzo espalhado e pedras de areia, geralmente contendo ferro.


Esta formação felizmente a livra das terríveis tempestades de areia da Ásia e da África.


A primeira vista desses campos trouxe-me fortemente à lembrança Ugogo, na África oriental, região árida e plana, privada de chuva pela interposição das úmidas montanhas de Usagara. A analogia com a formação elevada da África interior apresentou-se-me naturalmente. A principal diferença está em que, segundo se percebe por uma rápida vista de olhos em qualquer mapa, a vasta região lacustre do continente africano está mal representada no americano. O declive drenador da América do Sul é mais regular e suas “bacias continentais” não encontram nenhuma frincha na rocha como o leito do Tanganica, nem vastas concavidades como as do vitória-Nianza. Assim, as principais artérias encontram, nesta época do mundo, caminho franco para o oceano. A América do Sul, pois, cujas montanhas e rios igualam, ou mesmo excedem todos os demais continentes, não tem lagos, enquanto que a América do Norte e a África, com os seus mares interiores e Nianzas têm, comparativamente, pequenas cordilheiras.O lago, nesta terra, torna-se pantanal freqüentemente, como xaraies e uberaas, meros alargamentos de grandes rios, lençóis tranqüilos e pouco profundos em que bosques submersos e florestas afogadas formam festões de verdura; em que pequenas extensões secas, como os pequenos prados, nos escuros mares da selva africana, mostram encantadores campos, semeados de flores, ostentando a palmeira e a magnólia; em que ilhas flutuantes estão ligadas por liames intransponíveis de plantas aquáticas e semi-aquáticas, pontidérias e poligônias, malváceas, convolvuláceas, portulárias, sacchara altas e o arroz conhecido como arroz-do-pantanal (Oriza paraguayensis).” Esses pântanos sustentam considerável população de canoeiros e têm sido cantados pelos poetas do Brasil. Constituem um traço característico das regiões centrais da América do Sul.



Richard Burton

em Viagem aos Planaltos do Brasil I

tradução de Américo Jacobina Lacombe

Companhia Editora Nacional. São Paulo.

1983.


 

BELO HORIZONTE

A Praça da Liberdade, em Belo Horizonte

Terça-feira, Novembro 03, 2009

 

NO SERTÃO DOS CONFINS


Cedinho, madrugada escura ainda, quando João Soares acordou o deputado. Noite maldormida: chegara tarde do rio — meia-noite e tanto — e a venda não se esvaziara de todo. A pobre da Ambrosina continuava na cozinha a coar e servir café, e ainda teve de retalhar e temperar o peixe que o Gerôncio inventara de trazer. No tabuado da balsa, o balseiro sangrara-o e limpara-lhe o fato — um mundo de sangueira e porcariada — mas, mesmo assim, o Gerôncio chegou arcado à venda, com o bicho às costas. E Paulo teve de contar a história toda, a luta com o surubim, o upa até dar com ele na canoa, o isto de piranha que ajuntou... Dois metros de comprido e bem de três arrobas, o animalão!

Moído embora de canseira e sono, o deputado levantou-se. Gerôncio já esperava com a balsa pronta para a travessia:

— Desça com cuidado, doutor. A rampa virou quiabo.

Paulo dirigia a camioneta com cuidado, pé nos freios. Mas para baixo os santos ajudavam. E embarcou sem dificuldades.

— Anda um chuvão brabo pelos lados da Brejaúva. Olhe o rio, Gerôncio: pura terra massapé, da roxa... — disse o João Soares.

Gerôncio não deixou passar a deixa:

— É mesmo, o barro vem de lá. E mandou a marca na frente, que já rodou imundícia de folha de bacuri...

Retirados os pranchões de embarque e soltas as correntes, Gerôncio regulava o cabresto. Os varejões, agora, ajudando o desatracar; e a carretilha começou a cantiga no cabo de aço.

— Nada burro, não, o sujeito que inventou a balsa — proseava o Aurélio. — Dois canoões, tabuado por cima, cabo de aço e boa carretilha...

— Engraçado — começou Paulo — até hoje não entendi direito como é que isto funciona. Sei que é só pela força da água. Mas o resto...

— Pois é uma simplicidade, Paulo — aproveitou o tio. — Tudo por causa deste jeito meio torto das canoas: a correnteza vem, esbarra nelas, e força a balsa a andar de lado que nem caranguejo... O cabo de aço e a carretilha fazem o resto...

— E para voltar?

— A mesma coisa: vira-se a posição das canoas, o cabresto agora do outro lado. A correnteza, em vez de bater do lado de cá, passa a fazer força do outro. O empuxo da água é o mesmo; só o entortado da balsa é que muda...

— Parece até invenção do Toteiro... Já lhe contei essa, tio Aurélio?

— Qual? A da roda-d’água emendada com pilão de monjolo?

— Não, a das capivaras... O Toteiro, João Soares, é um amigão nosso, morador na beira do Paranaíba, nas divisas com Goiás. Já pesquei muito no Canal de São Simão, e o Toteiro ia sempre comigo — bom pescador e melhor caçador ainda. Faz tempo, encontrei-me com ele em Amburana e ficamos horas conversando, relembrando as nossas pescarias. E me contou a tal história das capivaras: que tinha comprado umas terras do outro lado do rio... que resolvera tocar lavoura... etc., etc. — “Já andava cansado, Dr. Paulo, de atravessar o rio de canoa, no puro remo. O senhor sabe, o Paranaíba, lá onde eu moro, é espraiado, com quase meio quilômetro de barranco a barranco. Gente para levar e trazer todo o dia, um tal de carrega-e-traz que eu não agüentava. Aí foi que eu imaginei: eu tinha no chiqueiro uma capivara nova, das goianas, apanhada no mundéu; era só arranjar uma das mineiras... Não demorou nem dois dias e eu já estava com a bicha caída no laço. As duas ainda estão lá, no serviço, para quem duvidar. Quando eu vou para Goiás, encabresto a capivara goiana na proa do canoão e boto a mineira dentro: é um nadado só, de ponta a ponta, melhor que muita besta marchadeira... Para voltar, destroco: boto a mineira no cambão e embarco a goiana.” E o Toteiro explicou: — “Querência de capivara, doutor, é querência braba, mais forte que querência de boi pantaneiro...”


Mário Palmério
em Vila dos Confins
José Olympio. Rio de Janeiro.
2ª edição. 1957.

Sábado, Outubro 31, 2009

 

LIVRARIA AMADEU


É preciso falar de Mariana, a mais antiga cidade mineira. Foi lá que nasceu, em 1916, o herói desta história. Um herói discreto e alegre, que fez de sua vida um permanente exercício de sobriedade, gentileza, caráter e coragem para arrostar dificuldades, que foram muitas. O herói desta história, Amadeu Rossi Cocco, livreiro e grande cidadão, tem dado à nossa cidade, por longos anos, permanentes provas de sua generosa dedicação.


Sede de bispado, e por isto cidade, Mariana mereceu das autoridades tratamento especial no referente a seu traçado, à sua estrutura urbanística. Se o que prevaleceu sempre em Minas Geais fora a dinâmica espontânea, que caracterizava a tradição colonial portuguesa, Mariana foi objeto de plano, de intenção ordenadora, seja no referente à praça principal, seja no que diz respeito ao arruamento, que se organizou a partir dessa praça. Mariana, nesse sentido, em sua forma urbanística, assemelhou-se ao que era típico da tradição espanhola, que buscou fazer de suas cidades na América um permanente espelhamento das lições de Vitrúvio e o rigor de uma geometria exata. Disse Sérgio Buarque de Holanda — “Já à primeira vista, o próprio traçado dos centros urbanos na América Espanhola denuncia o esforço determinado de vencer e retificar a fantasia caprichosa da paisagem agreste: é um ato definido da vontade humana. As ruas não se deixam modelar pela sinuosidade e pelas asperezas do solo, impõem-lhe antes o acento voluntário da linha reta” — como “triunfo da aspiração de ordenar e dominar o mundo conquistado” (Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, 6ª ed., Rio de Janeiro, Livraria José Olympio, 1977, p. 62).


Em 1745 criou-se o bispado de Mariana. Esse fato, a dignidade episcopal, exigiu que a vila fosse ascendida à condição de cidade. Em 1748, chegou a Mariana o seu primeiro bispo, Dom Frei Manoel da Cruz, transferido de São Luís do Maranhão. Sua chegada foi motivo de um extraordinário espetáculo com comemorações e festejos públicos, religiosos e profanos. Diz Affonso Ávila — “A partir de 28 de novembro de 1748, iniciam-se festas que se estenderão até o decorrer do mês de dezembro, entre procissões, desfiles alegóricos, jogos de iluminação, missas solenes, encenações teatrais e oralizações poéticas, num misto espetaculoso de ritual católico, comprazimento intelectual e divertimento público” (Affonso Ávila, Resíduos Seiscentistas em Minas, vol. 1, Belo Horizonte, Centro de Estudos Mineiros, Universidade Federal de Minas Gerais, 1967, p. 29). É o Triunfo Eucarístico, uma das mais extraordinárias manifestações culturais da capitania de Minas Gerais, que na multiplicidade de suas vozes, de suas cores, de suas motivações deu mostras de uma sociedade enérgica e vibrante, em que a “civilização do ouro”, em seus inícios, pareceu confirmar os sonhos de restauração da grandeza do império português.



João Antonio de Paula

em Livraria Amadeu

os livros e a cidade

col. BH. A cidade de cada um.

Conceito. Belo Horizonte. 2006.


Terça-feira, Outubro 27, 2009

 

VILA RICA


2 — SOCIEDADE

Esta população, assim variável, heterogênea e irrequieta, teria que determinar uma sociedade também pouco estável, e “bem se pode considerar o estado em que se achavam as Minas por todo este tempo, em que só o despotismo e a liberdade dos facinorosos, punham e renovavam as leis a seu arbítrio. O interesse regia as ações, e só se cuidava em avultar em riquezas, sem se consultarem os meios proporcionados a uma aquisição inocente: a soberba, a lascívia, a ambição, o orgulho e o atrevimento tinham chegado ao último ponto”.

É tamanha a desordem, que fere o senso moral do jesuíta Antonil, a ponto de anatematizar que “nem há pessoa prudente que não confesse haver Deus permitido que se descubra nas Minas tanto ouro para castigar com ele ao Brasil”.

De 1710 a 1720, por exemplo, as sedições são quase contínuas na região, a começar pela dos paulistas e emboabas, a que se sucedem a de 1712 em Vila do Carmo, com a expulsão do Desembargador Antônio da Cunha Soto Maior; a de 1715, na mesma Vila, com a fuga do Ouvidor, quase assassinado, D. Manuel da Costa Amorim; a de 1716, do Morro Vermelho; a de 1719, felizmente frustrada, dos escravos, e finalmente, a de 1720, com Filipe dos Santos, que também repercute em Pitangui.

Não é sem custo que os governadores, mesmo dispondo de tropa armada, conseguem firmar sua autoridade, por vezes vendo-a ofendida e só resguardada a custo de negaças e circunlóquios, como na revolta de 1720, e de enérgicos castigos, como em 1789.

Prendem-se as autoridades, menoscabam-se as leis, só se acalmando o povo com promessas de perdão e de anulação das ordens a que não se desejava sujeitar. Mesmo no Império os ânimos se mantêm exaltados e, em 1833, por exemplo, Bernardo de Vasconcelos, na vice-presidência da Província, é expulso da comarca, só pela força armada conseguindo restabelecer a ordem legal que pouco depois, em 1842, novamente se perturbaria com as lutas entre os conservadores e liberais.

“Das Minas e seus moradores bastava dizer o que dos do Ponto Euxino, e da mesma região afirma Tertuliano: que é habitada de gente intratável, sem domicílio, e ainda que está em contínuo movimento, é menos inconstante, que os seus costumes: os dias nunca amanhecem serenos: o ar é um nublado perpétuo: tudo é frio naquele país, menos o vício, que está ardendo sempre. Eu, contudo, reparando com mais atenção na antiga e continuada sucessão de perturbações, que nela se vêem, acrescentando que a terra parece que evapora tumultos: a água exala motins: o ouro toca desaforos: distilam liberdades os ares: vomitam insolências as nuvens: influem desordens os astros: o clima é tumba da paz e berço da rebelião: a natureza anda inquieta consigo, e amotinada lá por dentro, é como no inferno.” (Conde de Assumar, Discurso Histórico e Político sobre a sublevação que nas Minas houve no ano de 1720.)

Com esta barbaria tão cruamente evidenciada, procuram os governantes justificar as violentas repressões, sem exemplo na história pátria, a que, por vezes, se animam, como o esquartejamento dos réus e subseqüente exposição de seus membros pelos caminhos (Contribuindo para o sossego público, acordam os vereadores em 1720 “mandar tomar por lista todas as pessoas desta Vila para elegerem 12 homens em cada bairro a saber: Ouro Preto, Antônio Dias e Padre Faria, para andarem de ronda todas as noites por estas ditas Vilas a sossegar qualquer inquietação que suceder”, rondas que seriam comandadas por cabos também escolhidos dentre os moradores pela Câmara).

A escravatura intensíssima com todas as características das raças de que se compõe, também influiria na formação da sociedade local, aumentando suas tendências desordeiras ou supersticiosas e contribuindo, em grande parte, para a sua singular constituição.

Habitando vales profundos, entre abrutas montanhas, dominado pela natureza, teria o mineiro que tornar-se melancólico, triste e introvertido, ao contrário do homem das planícies ou do litoral, senhor de largos e submissos horizontes (João Camilo de Oliveira Torres, O Homem e a Montanha). Explicam-se assim as várias lendas de que se pontilha a história local e as contraditórias reações emocionais, apaixonadas ou submissas, prontas ou retardadas da gente mineira. Das festas a que concorria, aliás mais como espectador que participante, citam-se as comemorativas de datas jubilares, organizadas pela administração, quase impostas ao povo (casamento de príncipes; nascimento deles), e as religiosas, sem dúvida, mais freqüentes e assistidas mais espontaneamente. Saint-Hilaire e Caldecleugh comparecem a bailes em Palácio, escandalizando-se, o primeiro, com as demonstrações coreográficas de dançarinas populares (referindo-se ao “fandango”), saraus que, vez por outra, se repetiam nas residências particulares.



Sylvio de Vasconcellos
Vila Rica
formação e desenvolvimento – residências
Biblioteca de Divulgação Cultural VI.
Instituto Nacional do Livro.
Rio de Janeiro. 1956.

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

 

SETE LAGOAS


Na Lagoa da Boa Vista, em Sete Lagoas, MG

 

EM DIAMANTINA, FINAL DO SÉCULO XIX


Domingo, 9 de abril de 1893


Tenho visto muita coisa na vida, mas padre mexeriqueiro foi hoje a primeira vez.


Eu estava na porta, quando vi Padre Augusto vir descendo do Palácio e caminhando para a Chácara. Como sei do gosto que vovó tem por padre, fui correndo recebê-lo e beijar-lhe a mão. Levei-o para a sala, contente com a satisfação que vovó ia ter, sem pensar, nem de longe, no que ele tinha ido fazer.


Chamo vovó, ela toda inchada com a visita, pega na bengala, segura no meu braço e vamos para a sala. Mamãe, Dindinha, Iaiá e tia Agostinha foram também para a sala conversar com o padre.


Deixei todas ali e voltei para dentro. Nós sempre aproveitamos toda a ocasião para irmos para a ribanceira. Chamei o pessoal todo: Nico, Renato, Nhonhô, Luisinha e Rita, e voamos para o fundo da horta. Tínhamos escorregado só uma vez e quando demos fé estava a velharia toda no alto, olhando o que estávamos fazendo.


Adivinhamos logo o que ia acontecer. Iaiá gritou Quintiliano: como ele é velho e não podia descer a ribanceira, Nico e Renato é que tiveram de subir com o couro. Para escorregar é um instante, mas para subir cansa; se não fosse isso ninguém entrava mais em casa. Mas em tudo há de haver uma gente ruim para atrapalhar.


Quintiliano enrolou o couro e levou, e Dindinha mandou guardar no quarto dos arreios e fechou com a chave.


Vovó ralhou muito e disse que ficou com pena de ver Padre Augusto, tão bom, tão caridoso, largar suas obrigações para vir avisá-la que, se ela não tomasse uma providência, um de nós era capaz de morrer afogado no córrego que passa no fundo da Chácara.


Nós explicamos como a coisa estava arranjada, mas não valeu de nada; elas não quiseram acreditar. Eu disse a vovó: “Padre Augusto não veio por caridade, não, vovó, veio foi mexericar. A língua dele coçou e ele veio, isso é que foi.”


E assim perdemos o melhor brinquedo que já descobrimos.



Helena Morley

em Minha Vida de Menina

Companhia das Letras. São Paulo.

5ª reimpressão. 1999.


Quinta-feira, Outubro 15, 2009

 

MIGUILIM


Com algum tempo, mais não agüentava: ia porque ia, procurar o Dito! Mas o Dito já vinha vindo. — “Miguilim, a gente vai trepar no pé-de-fruta...” O Dito nem queria falar na briga. Ele subia mais primeiro — o brinquedo ele tinha inventado. Antes de subir botava a camisinha para dentro da calça, resumia o pelo-sinal, o Dito era um irmão tão bonzinho e sério, todas as coisas certas ele fazia. Lá em cima, bem em cima, cada um numa forquilha de galhos, estavam no meio das folhagens, um quase defronte do outro, só sozinhos. Estavam ali como escondidos, mas podiam ver o que em volta de casa se passava. O gato Sossõe que rastreava sorrateiro, capaz de caçar alguma lagartixa; com um zapetrape ele desquebrava a lagartixa, homem de fazer assim até com calango — o calango pequeno verde que é de toda parte, que entra em mato e vem em beira de morada, mas que vive o diário é no cerrado. Maria Pretinha lavando as vasilhas no rego, Papaco-o-Paco cochilando no poleiro, Mãitina batendo roupa na laje do lavadouro. — “Dito, você não guarda raiva de mim, que eu fiz?” “— Você fez sem por querer, só por causa da dor que estava doendo...” O Dito fungava no nariz, ele estava sempre endefluxado. Falava: — “Mais, se você tornar a fazer, eu dou em você, de ponta-pé, eu jogo pedrada!...” Miguilim não queria dizer que agora estava pensando no Rio-Negro: que por que era que um bicho ou uma pessoa não pagavam sempre amor-com-amor, de amizade de outro? Ele tinha botado a mão no touro para agradar, e o touro tinha repontado com aquela brutalidade. — “Dito, a gente vai ser sempre amigos, os mais de todos, você quer?” “— Demais, Miguilim. Eu já falei.” Com um tempo, Miguilim tornava: — “Você acha que o Rio-Negro tem demônio dentro dele, feito o Patori, se disse?” “— Acho não.” O que o Dito achava era custoso, ele mesmo não sabia bem. Miguilim perguntava demais da conta. Então o Dito disse que Pai ia mandar castrar o Rio-Negro de qualquer jeito, porque careciam de comprar outro garrote, ele não servia mais para a criação, capava e vendia para ser boi-de-lote, boi-boiadeiro, iam levar nas cidades e comer a carne do Rio-Negro. Vaqueiro Saluz falava que era bom: castravam no curral e lá mesmo faziam fogo, assavam os grãos dele, punham sal, os vaqueiros comiam, com farinha.

Mas, de noite, no canto da cama, o Dito formava a resposta: — “O ruim tem raiva do bom e do ruim. O bom tem pena do ruim e do bom... Assim está certo.” “— E os outros, Dito, a gente mesmo?” O Dito não sabia. — “Só se quem é bronco carece de ter raiva de quem não é bronco; eles acham que é moleza, não gostam... Eles têm medo que aquilo pegue e amoleça neles mesmos — com bondades...” “— E a gente, Dito? A gente?” “— A gente cresce, uai. O mole judiado vai ficando forte, mas muito mais forte! Trastempo, o bruto vai ficando mole, mole...” Miguilim tinha trazido a mula de cristal, que acertava no machucado da mão, debaixo das cobertas. “— Dito, você gosta de Pai, de verdade?” “— Eu gosto de todos. Por isso é que eu quero não morrer e crescer, tomar conta do Mutum, criar um gadão enorme.”


João Guimarães Rosa
Campo Geral
em Corpo de Baile 1º volume
José Olympio. Rio de Janeiro.
1ª edição. 1956.

Terça-feira, Outubro 13, 2009

 

OS SENHORES DA SENZALA


Mas essa é uma reflexão a posteriori. Durante o período Goulart não havia nem tempo, nem disposição e nem vontade para se duvidar da eficácia dessa “doideira conscientizadora” colocada como resposta a um momento de efervescência político-cultural. Assim, o compromisso de todas as forças sociais que se propunham a transformar o país era com o “povo”: “O povo não é uma entidade homogênea em sua composição uma vez que dele faz parte não apenas a classe revolucionária mas também outras classes e estratos sociais os mais diversos... O importante no entanto é que ao ir aos mais diversos setores do povo, ao formular artisticamente os problemas específicos que aí encontra, o artista deve ir munido do ponto de vista da classe revolucionária, e a sua luz examinar aqueles problemas dando a eles as soluções consentâneas com os interesses da classe revolucionária, os quais, em última análise, correspondem aos interesses gerais de toda a sociedade”. No entanto, esse “povo” era encarado muitas vezes como a mitificação do “bem” revolucionário e transformador; também celebrava-se e ritualizava-se o “povo” em termos absolutos:


“Nosso amor é mais gostoso

Nossa saudade dura mais

Nosso abraço mais apertado

Nós não usa as ‘bleque-tais’

Minhas juras são mais juras

Meus carinhos mais carinhoso

Tuas mãos são mãos mais puras

Teu jeito é mais jeitoso

Nós se gosta muito mais

Nós não usa as ‘bleque-tais’ “ (Gianfrancesco Guarnieri, Eles não Usam Black-Tie).


Um compromisso com o “povo”; uma missão e um dever para com a revolução popular; uma ingênua e inabalável crença no Brasil:


“De pé a jovem guarda

A classe estudantil

Junto à vanguarda

A trabalhar pelo Brasil

A nossa mensagem

De coração é que traz

Um canto de esperança

Num Brasil em paz...

A UNE, a UNE, a UNE SOMOS NÓS

a UNE é nossa voz.” (Vinicius de Moraes & Carlos Lyra, Hino da União Nacional dos Estudantes).


Todavia, do ponto de vista das classes dominantes o apelo à mobilização popular, como força inequívoca e definitiva na construção do “novo” Brasil, estava colorido por tons perigosamente radicais. Mesmo que não fosse diretamente composto pelos trabalhadores, o coro reivindicatório começava a causar um certo desconforto —


“Pro patrão pedi aumento

Só levei um pontapé

Sem comida e sem vintém

E agora seu José?

Se ser livre é passar fome

Não basta ser livre não” — (Augusto Boal & Geni Marcondes. Zé da Silva é um Homem Livre)


que aumentava com rapidez:

“Oi grileiro vem

Pedra vai

De cima deste morro

Ninguém sai

Ao grileiro nós vamos resistir

Todo povo daqui vai descer

E uma ordem geral vai partir

Que é botar o grileiro pra correr” (Raphael de Carvalho. Grileiro Vem, Pedra Vai. O Povo Canta. (CPC da UNE).


Se nas cidades a visão de uma multidão descendo dos morros era, no mínimo, preocupante para aqueles que por diferentes razões possuíam motivos para se imaginar na pele de algum “grileiro”, razões de sobra havia para quem quisesse se alarmar com o coro entoado na área rural. De fato, a idéia de que no campo, sobretudo no Nordeste, os trabalhadores organizados estavam prestes a deflagrar uma “guerra camponesa”, com vistas à repartição da grande propriedade agrária, deixava de ser um fantasma a assombrar os serões da casa-grande para se estender como ameaça latente ao conjunto das classes dominantes no Brasil. O crescente posicionamento popular em defesa de seus interesses fustigava os privilégios e o próprio eixo de poder das elites dominantes, fortemente impressionadas com os acontecimentos como o de Pernambuco, onde aos usineiros e latifundiários opôs-se o nome popular de Miguel Arraes, vitorioso nas eleições de 1962:


“Passe fome, frio e sede

Vá a pé pra Juazeiro

Falte sal dentro de casa

Falte gás no candeeiro

Arengue com a esposa

Vá dormir no galinheiro

Depois de ensaboado

Falte água no banheiro

Com medo de um boi brabo

Se suba até um facheiro

Passe seis noites de insônia

No bolso nenhum dinheiro

Faça tudo neste mundo

Mas não vote em usineiro” (Citado por Paulo Cavalcanti, O Caso eu Conto como o Caso foi. Da coluna Prestes à Queda de Arraes.).



Heloisa Maria Murgel Starling

em Os Senhores das Gerais

Vozes. Petrópolis. 2ª edição.

1986.


Segunda-feira, Outubro 12, 2009

 

CORDISBURGO

Na Gruta de Maquiné, a das Fadas, segundo Guimarães Rosa, em Cordisburgo, MG, ao norte de Belo Horizonte pela BR-040.

 

MINAS PATRIARCAL


As atividades econômicas desenvolvidas em São João del Rei foram a mineração, a agricultura, a pecuária e o comércio, vindo, inclusive, a ser conhecida como o “celeiro das Gerais”. Antonil já se referia, em 1711, à paragem do Rio das Mortes como local de pouso dos que se dirigiam às “minas gerais”, onde se proviam “do necessário, por terem [...] os que aí assistem roças e criação de vender”.


O peso da mineração na economia da região é difícil de ser dimensionado pelos relatos da época. Afonso Graça Filho afirmou que tal atividade, ali, parece ter sido contingente, uma vez que o objetivo inicial do povoamento da área seria a produção de gêneros de abastecimento. De qualquer forma, não se pode esquecer a ligação intrínseca desta atividade com a mineração, uma vez que sua produção visava abastecer, primeiramente, os transeuntes em direção às áreas mineradoras e, posteriormente, às próprias regiões. Por outro lado, a descoberta do ouro não pode ser desconsiderada como fato impulsionador dos deslocamentos populacionais em direção a São João del Rei. Ao menos nos momentos iniciais da exploração, parece clara a importância da mineração. No entanto, alguns relatos indicam que o surto aurífero não teria sido muito duradouro. Na memória, redigida entre 1750 e 1751 pelo Sargento-Mor José Álvares de Oliveira, sob o título de “História do Distrito do Rio das Mortes, sua descrição, descobrimento das suas minas, casos nele acontecidos entre paulistas e emboabas e criação de suas vilas”, encontra-se a seguinte referência às condições em que se achava a atividade mineradora:


E o ouro que agora dos ditos morros e córregos que deles saem se tira com limitação e assaz dificuldade então se extraía com tanta facilidade e grandeza que em breve tempo se fez um arraial de bastantes moradores paulistas e emboabas [...].


Neste trecho, pode-se perceber a distinção que o autor estabelece entre o momento inicial da exploração aurífera, na região, marcado pela abundância do metal, e aquele em que ele escreve, quando a atividade se encontraria em dificuldade. Assim sendo, já na metade do setecentos, a mineração estaria em crise, em São João del Rei. Parece-me, porém, que alguns questionamentos podem ser feitos em relação a esta caracterização. Marco Antônio Silveira, analisando a Capitania de Minas Gerais no século XVIII, tece interessante consideração sobre a idéia de decadência e crise da mineração, presente nos discursos de memorialistas e funcionários da administração. Para o autor,


[...] o discurso da decadência remetia a uma suposta ‘idade do ouro’ em que as Minas alcançavam aspecto menos aflitivo. Teixeira Coelho, descrevendo o governo do Conde de Galveas (1732 – 1735), contava que os ‘povos lamentaram a sua retirada, que fixou a época da ruína de Minas’. A Câmara de Vila Rica escrevia ao rei em 1772, comparando que ‘no tempo em que se estabeleceu a cota de cem arrobas, se achavam os povos destas Minas abundantes, e pingues as lavras: estava franca a extração dos diamantes em que percebiam os povos avultados interesses: girava o negócio com abundância; e presentemente se acha exaurido o ouro das melhores terras, e cansadas as roças, sem haver descoberto’. Já nos inícios do povoamento, profetizava Antonil não ‘haver pessoa prudente que não confesse haver Deus permitido que se descubra nas Minas tanto ouro para castigar com ele o Brasil, assim como está castigando no mesmo tempo tão abundante de guerras aos europeus com o ferro’.


O período apontado como próspero pela Câmara se encontrava dentro da ‘época de ruína’ do memorialista; para este, a decadência vinha da década de 1730, para aqueles, somente após a metade do século. O jesuíta, porém, alertava que, por detrás da abundância de ouro, já se esboçava uma ‘idade do ferro’ em torno da primeira dezena dos Setecentos. Os desencontros cronológicos sustentavam-se, a nosso ver, no fato de o empirismo desses eruditos desenrolar-se por uma trilha mítica: no presente, o decadente; em algum lugar do passado, a ‘idade de ouro’.


A argumentação do autor parece-me bastante pertinente, na medida em que os relatos sobre a crise da mineração, independentemente da época de que datam, sempre indicam que o esplendor desta atividade era coisa do passado e que o presente era marcado por uma situação de crise. Vale somar aos elementos indicados pelo autor que isto poderia ser uma estratégia dos contemporâneos, no sentido de fazerem frente às taxações impostas pelo Estado Metropolitano. Tal objetivo é bastante claro no discurso da Câmara de Vila Rica, referido por Silveira. Neste sentido, há que se matizar a fala do Sargento-Mor José Álvares de Oliveira quanto à crise da mineração em São João del Rei. Não pretendo negar que, à medida que transcorria o século XVIII, a extração de ouro, não só em São João del Rei, mas em Minas de uma maneira geral, parecia declinar. No entanto, uma periodização mais precisa do marco inicial da crise não pode basear-se apenas em discursos de época, requer uma análise de documentação mais confiável para este propósito, como os inventários post-mortem, por exemplo.



Silvia Maria Jardim Brügger

em Minas Patriarcal

família e sociedade

(São João del Rei – Séculos XVIII e XIX)

Annablume. São Paulo. 2007.


Sexta-feira, Outubro 09, 2009

 

NA ÉPOCA DO GOLPE


Cerca das 19 horas, fui conduzido a um furgão do DOPS, tipo Chevrolet C-14.

Acompanhavam-me o mesmo Peninha e mais dois investigadores, além do motorista. Permitiram-me passar por minha casa, a fim de pegar algumas roupas e material de higiene.

Ao chegar à Pampulha, disse ao Peninha que estava com fome e, como àquela hora provavelmente não encontraria com que me alimentar no Parque da Aeronáutica, solicitei rápida parada para comprar uns sanduíches.

— É claro, Dr. Romanelli (tratava-me formalmente). Até mesmo, se o “senhor” quiser, logo aqui em frente há um restaurante chamado “Frango Assado”, onde o senhor poderá jantar calmamente. Não temos pressa...

Aceitei, encantado, pois conhecia o restaurante e sabia que ali serviam um bom churrasco. Era oportunidade para um bom jantar, não sabendo quando teria outra chance.

A viatura estacionou em frente ao Frango Assado, àquela hora ainda com pouco movimento.

Descemos todos, inclusive o motorista, e sentamo-nos à mesma mesa. Pedi churrasco misto. Estranhei que todos os demais fizessem seus pedidos, como se estivessem esperando o momento de jantar. Cada um pediu seu chopinho gelado...

Foi um verdadeiro jantar “de confraternização”: a polícia e eu...

Tudo correu bem, até que veio a conta. Ninguém se moveu. Consternado, verifiquei que se consideravam meus convidados... Eu, como preso, teria de “financiar o “trabalho revolucionário” de levarem-me para a cadeia. Não tive alternativa...

Já eram 21:00 quando chegamos a Lagoa Santa e entramos para o desvio que leva ao Parque da Aeronáutica.


Antônio Ribeiro Romanelli
em 1964 Minhas Histórias
do Cárcere e do Exílio
Mazza Edições. Belo Horizonte.
1994.

Quinta-feira, Outubro 08, 2009

 

EM JUIZ DE FORA, NOS ANOS 40


TIO ORLANDO


Seus sons agônicos espalhavam-se pela casa. Vovó jamais quisera interná-lo, mandá-lo para um lugar apropriado. Ficava ali mesmo, num canto, sentado, o rosto sem expressão, as mãos batendo desordenadamente. Nós o chamávamos tiozinho e brincávamos com ele como um boneco.


À tardinha, Delfina lhe dava um banho, punha-lhe uma roupa nova e passeava com ele, empurrando a cadeira de rodas.


Nunca lhe vi um esgar de dor. Ria. Tanta inocência nos seus olhos límpidos!... Eram os olhos de tia Inaiá. Mas os seus gritos!... Era a sua única forma de expressão. Não pareciam nem de gente, nem de bicho.


Quando eu voltava do colégio, gostava de assistir ao resto do pôr do sol no fim da varanda. O Paraíba era um esplendor lá longe. Delfina costumava trazê-lo na cadeira para aquele lugar a essa hora. Ele emitia sons agudos. De quê? De alegria? Talvez fosse tocado pela beleza.


Delfina morreu antes dele, de enfarte. Tiozinho morreu em seguida. Tinha quarenta anos. Forma tão precária de vida! Morreu sem saber que morria.


O CAVALO


Uma vez vi meu cavalo branco no bosque de eucaliptos, imóvel ao luar. Eu tinha quinze anos. Sei que o cavalo morreu. Terei vivido ou sonhei que vivi a minha vida?



Rachel Jardim

Os Anos 40

José Olympio. Rio de Janeiro.

3ª edição. 1985.


Quarta-feira, Outubro 07, 2009

 

JUIZ DE FORA


Juiz de Fora

 

A ARQUIDIOCESE DE MARIANA


VISITADORES


A história eclesiástica de Minas tem que frisar com justiça a ação saliente dos abnegados servidores da religião, que foram os visitadores diocesanos, a quem cabe parte considerável no mérito da instituição das primitivas igrejas e por quem correra anos seguidos a responsabilidade de sua disciplina.


Medindo centenas e centenas de léguas através dos agrestes sertões mineiros, afrontando desconfortos que apenas se pode imaginar, nem sempre acolhidos com boa sombra, eles se constituíram apóstolos de Minas; nem nos demasiaríamos pedindo para eles esse título na história. E, modestos, passaram tão preocupados com o bem que deviam fazer, nunca se lhes dando do juízo da posteridade, que escassos documentos nos deixaram de sua missão, tão escassos que por eles impossível nos fora traçar-lhes sequer ligeiro escorço biográfico.


E a missão silenciosa desses homens exerceu incontestável e poderosa influência na organização social da capitania. Reunindo em suas mãos uma soma considerável de poder que lhes atribuía a legislação canônica e civil em vigor, foram eles que sanearam as Minas, fazendo dos turbulentos e insaciáveis aventureiros que as invadiram e foram seus primitivos povoadores um povo morigerado e laborioso, de proverbial honestidade, como é sabidamente o povo mineiro.


Recolhamos pois da poeira dos arquivos para a nossa memória e nosso reconhecimento os nomes desses beneméritos, tão de sobejo recomendados já à nossa veneração.


O mais remoto desses visitadores, cuja notícia embora exígua, se deve a Mons. Pizarro, foi o Cônego MANUEL DA COSTA ESCOBAR, secretário e apontador do seu cabido, pelo qual foi encarregado, por provisão de 18 de junho de 1701, da Visitação Geral das Minas, missão em que foi confirmado por D. Fr. Francisco de São Jerônimo, posteriormente empossado bispo da diocese.


Não tornou à sede do bispado, tendo-o colhido a morte em São João del Rei, em 1709, quando procedia à visita daquela freguesia.


CÔNEGO GASPAR RIBEIRO PEREIRA. Natural do Rio de Janeiro de cuja catedral foi dos primeiros cônegos, colando-se na 4ª cadeira (depois das dignidades) a 16 de junho de 1686. Era Mestre em Artes (o bacharel em ciências e letras de hoje).


Por comissão do bispo D. Fr. Francisco de São Jerônimo visitou o distrito das Minas, em 1703 especialmente para providenciar na instituição e administração das novas igrejas, e ajustar limites com o arcebispado da Bahia. Estes serviços lhe granjearam a promoção a arcedíago e pouco depois a tesoureiro-mor. Foi também vigário geral do cabido, sede vacante.


O DR. MANUEL DA ROSA COUTINHO, EM 1717, por comissão de Dom Fr. São Jerônimo, visitou as comarcas do Ribeirão do Carmo e Sabará e o Pitangui. Em 1729, já no governo episcopal de D. Guadalupe, encontramo-lo novamente visitando a comarca do Ribeirão (São Sebastião, Camargos, São Caetano, Inficionado e Catas Altas), Santa Bárbara e São João do Morro Grande.


Dos numerosos termos de devassa por ele deixados nas freguesias que visitou, apartamos o seguinte que, além de se referir a personagem de quem falaremos mais de espaço, dá um bom traço fisionômico dessas assustadoras visitas doutrora:


“Termo que fez José de Torres Quintanilha.


Aos vinte e oito dias do mês de maio de mil setecentos e trinta anos nesta freguesia de Nossa Senhora de Nazareth, digo, nesta Freg. de São Caetano nas casas donde estava pousado o Reverendo Senhor Doutor Visitador Manuel da Rosa Coutinho apareceu José de Torres Quintanilha notificado a sua ordem para satisfação da culpa que lhe resultou da devassa desta Freg.ª ao qual o dito Senhor admoestou da culpa de usurário e mandou que daqui por diante não tornasse a dar dinheiro ou ouro com semelhantes exorbitâncias com pena de ser castigado com as penas que a lei determina contra os usurários. Confessou a culpa e o fez judicial, aceitou a admoestação e prometeu emenda e disse se sujeitaria a todas as penas da lei, de que fiz este termo que assinou com o Reverendo Senhor Doutor Visitador e eu Padre Paulo Rodrigues Adam, secretário da Visita que o escrevi.


Dr. Cout.º


José de Torres Quintanilha.”



Cônego Raymundo Trindade

em Arquidiocese de Marianna – vol. I

Escolas Profissionais do Lyceu Coração de Jesus. São Paulo.

1928.


Terça-feira, Outubro 06, 2009

 

A AVENTURA MARAVILHOSA DE DARCY RIBEIRO


GARROTE

Com onze anos mamãe me levou, numas férias, para conhecer a velha fazenda do Garrote, origem da família Silveira. Viajamos na boléia de um caminhão até Mato Verde, parando na estrada ruim para necessidades e consertos. Numa dessas paradas, um valentão que viajava na carroceria disse que viu uma cobra em uma touceira de mato. Espavoriu nós todos. Tirou o revólver e meteu bala, atirando em círculos, porque não sabia onde estava a cobra. Eu argumentei que assim não matava a bicha e levei um beliscão de mamãe, que, pela injustiça, me faz lembrar do episódio.

No meio da viagem, paramos para comer numa pensão de estrada. A comida já estava pronta e posta na mesa, sobre tábuas limpas. Era boa demais. Comi tanto que mamãe até ralhou comigo: “Pare de comer, menino!”

Fui para o caminhão. Quando começamos a rodar eu vomitei o vômito azedo, fétido, que ficou lá fedendo a meus pés, até que o chofer parou, apanhou um pano sujo e veio limpar. Ainda hoje aquele fedor me incomoda e com ele o beliscão que mamãe me deu.

A viagem de caminhão acabou em Mato Verde, cidadezinha modesta com um mercado sortido de queijos, rapaduras e temperos, onde ainda corriam as patacas de cobre de vinte e quarenta centavos. Lá me encantei de paixão desvairada por Mariá, minha prima bastarda cor de telha, lindíssima. Creio que ela também gostou de mim. Nos olhamos longamente, olho no olho, sem rir. Ainda me lembro da soberana beleza dela.

Mamãe pouco se preocupou porque, no dia seguinte, partimos a cavalo para a fazenda do Garrote — ela montada de lado, num silhão, andava muito devagar, com medo de cair. Lá vivi o mês mais luminoso de minha infância, no casarão antigo, com telhados desdobrados em fraldas e lados inumeráveis, e tendo uma vasta cozinha onde uma calha de madeira derramava água borbulhante numa gamela. No pomar velho de ao redor, com toda fruta antiga, inclusive uma centena de laranjeiras de laranja azeda, de que se destilava muita água de flor de laranjeira.

Meu encanto maior mesmo foi com a beleza do tabuleiro, uma espécie de cerrado alto, cheio de frutas e flores, de pássaros e de cobras. Desleixadas cobras, que largavam suas peles pelo chão. Distraídos passarinhos, com ninhos ao alcance da mão. Temerários por esvoaçarem diante de meu primo, que tinha pontaria nunca vista no bodoque. Cortava na primeira pedrada o pescoço de um deles.

Nunca tinha visto e nunca mais vi tanta fartura de araçá, gravatá, cagaita, bacupari, jaracatiá, guabiroba, mangaba, pequi, panã e mil frutas mais. Não apreciei muito as virtudes das bezerras, porcas e ovelhas em que meu primo estava viciado. Mas aprendi dele quantidades de histórias de assombração e juízos verazes sobre as meninas que brincavam no paiol, sujas de tanto pó de palha de milho e de sobras de fubá que caíam do moinho, e que me faziam espirrar. Procurei com ele o freio do monjolo e soube que não havia. Era assim mesmo. Socava dia e noite. Esplêndidos eram a imensa roda-d’água, que girava a roda de pedra no fabrico do fubá, e o engenho de espremer cana.

Minha besteira grossa, ali, foi apanhar uma cobra morta que alguém jogara dentro de um mata-burro e levar, espetada num pau, para mamãe ver a beleza que era. Quem viu foi meu tio Januário. Capenga, nervoso, assustou-se tanto que desmaiou. A perna seca dele vinha da mordida de uma cobra cabeça-de-patrona, igualzinha à que eu levava. Isso ocorrera anos antes, de madrugada, quando ele comandava a colheita do algodoal. Picado, saiu correndo até uma fogueira, onde queimou inteira a batata de sua perna. Assim se salvou.

A glória maior do Garrote, de que me esquecia, foi ver, boquiaberto, a dona, minha tia Deija, gordíssima, sentada numa cadeirona enorme com os dois peitos de fora, dando de mamar ao último filho e ao primeiro neto. Beleza. Essa minha tia, criada ali no Garrote pela avó, era uma das pessoas mais cultas que eu conheci. Melhor ainda que a tia Nonó no domínio das artes arcaicas. Seus bordados de todo tipo encantavam. Eram incomparavelmente mais perfeitos que quaisquer outros. Suas comidas e doces, idem. Também maravilhosos. Tinha um admirável domínio da literatura oral luso-brasileira, que nas noites de luar contava longamente a um grande grupo de gentes da fazenda e vizinhanças, todos familiarizados com os doze pares de França, el-rei dom Sebastião, e muitos personagens mais.

Belas férias aquelas. Não faltaram nem as moças. Eram as mulatas e negrinhas que subiam e desciam a escada íngreme do moinho para atrair a gente a agarramentos. Tudo ficou em bolinas, de que fugiam às gargalhadas. Claro que queriam alguma coisa comigo, tanto me olhavam e chamavam. Mas, além de vê-las, tê-las pedia a ousadia que eu não tinha.


Darcy Ribeiro
em Confissões.
Companhia das Letras. São Paulo.
1997.

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

 

TIRADENTES


SURGE A IDÉIA DA CONJURAÇÃO


Perante o severo julgamento da História, mais exato do que pensam os aventureiros desejosos de escapar a suas indicações, não cabe aceitar as acusações que, no fim do século XVIII, pesavam sobre todos os governadores da Capitania de Minas. O homem comum das Gerais os tinha na conta de maus, violentos, vingativos, péssimos administradores, tiranos que sacrificavam os povos e se enriqueciam com seus despojos. E, em conseqüência, retratava-os como indignos de qualquer admiração ou louvor. Mas, se houve governantes indignos na Capitania, existiram, também, aqueles que se sacrificaram pelas Minas, que se opuseram corajosamente às turbulências tão comuns nas lavras, caminhos e localidades, que buscaram, decididamente, fazer da Capitania um país progressista e aberto ao mútuo respeito e à cordialidade entre seus habitantes. D. Rodrigo José de Menezes foi um desses benfeitores da Capitania. Mal chegara a Vila Rica, em 1780, e já se lançava ao trabalho de conquistar Minas para os padrões de vida honesta e produtiva, exatamente nos moldes desejados pelos seus melhores valores morais.


O outro extremo, aquele que justificava muitos dos impropérios atirados pelos mineiros contra seus governantes, foi marcado por Luiz da Cunha Menezes, que chegou ao meio de seus jurisdicionados em agosto de 1783, depois de passar pela direção da Capitania de Goiás. Não possuía as qualidades requeridas de verdadeiro administrador e, logo aos primeiros atos, ofereceu seguras indicações do tiranete que seria nas Minas. Mostram-no como autoritário, rude no tratar os dirigidos e até desonesto, não respeitando as barreiras impostas pela lei e pela moral. Teve, por isso, contra sua pessoa as figuras mais respeitáveis da Capitania. Elevou, para garantir-se no poder, exageradamente o número de regimentos radicados nas Gerais e entregou os postos de comando a protegidos seus. Disso é testemunho o haver gozado, em sua administração, de grande e imerecida força o temível capitão José de Vasconcellos Parada e Souza, que as “Cartas Chilenas” satirizaram, contundentemente, sob o pseudônimo de Pardelas. Das más qualidades de Luiz da Cunha Menezes são testemunhos essas “Cartas”, que, em seu afã zombeteiro e demolitório, descem às raias do torpe, descrevendo a doentia vaidade do Fanfarrão Minésio:


“Aquele que consome largas horas

Em falar com os sécios e peraltas,

Em meter entre as pernas os perfumes,

Em consertar as pontas dos lencinhos,

Não nasceu para as coisas que são grandes.”


Não menos agressiva e esclarecedora é a queixa de Tomás Antônio Gonzaga, em março de 1787, dirigida à Rainha e contra Cunha Menezes:


“Nem me atrevo a representar coisa alguma a este Exmo. General, por conhecer o seu notório despotismo. Ele tira os padecentes do patíbulo; ele açoita com instrumentos de castigar os escravos as pessoas livres, sem mais culpa ou processo...; ele mete os advogados e homens graves a ferros; ele dá portarias aos contratadores para prenderem a todos os que eles querem que lhes devam; ... elle revoga os julgados e ainda os mesmos das Relações. Enfim, Senhora, ele não tem outra lei e razão mais que o ditame de sua vontade e dos seus criados.”


A reação não se fez esperar. Forte clamor público contra os desatinos desse governante se levantou na Capitania. E dele participavam figuras de todas as classes sociais, inclusive as mais dignas e representativas, a começar pelo Cônego Luís Vieira da Silva, que, em suas habituais e apaixonadas leituras, na episcopal Mariana, sorvia as idéias republicanas de revolucionários franceses e norte-americanos e passava a admitir, desde 1781, que, nas terras vizinhas do Atlântico Sul, também se conseguiria vencer o poder dos soberanos e das metrópoles.


Tiradentes, que, em suas viagens, ao tempo de Cunha Menezes, conheceu esse quadro de geral insatisfação, passou a suspeitar que a verdadeira solução para tais e outros problemas não viria mais do soberano português. Deveria partir de autoridades maiores locais, depois de obtida a independência das Minas, que, assim, não teriam que tolerar a ação de enviados desse jaez do governo da metrópole. E, ardoroso como era, passou, sem demora, à fase de elaboração e pregação de seus ideais.



Oiliam José

em Tiradentes

Itatiaia / Edusp.

Belo Horizonte / São Paulo.

1985.


Sexta-feira, Outubro 02, 2009

 

TIRADENTES


 

OS AUTOS DE DEVASSA


Carta-denúncia de Joaquim Silvério dos Reis.

Cachoeira, 19-04-1789, datada de Borda do Campo, 11-04-1789.


Ilmo. e Exmo. Sr. Visconde de Barbacena


Meu Senhor: — Pela forçada obrigação que tenho de ser leal vassalo à nossa augusta Soberana, ainda apesar de se me tirar a vida, como logo se me protestou na ocasião em que fui convidado para a sublevação que se intenta, prontamente passei a pôr na presença de V. Excia. o seguinte: — Em o mês de fevereiro deste presente ano, vindo da revista do meu Regimento, encontrei no arraial da Laje o Sargento-Mor Luís Vaz de Toledo; e falando-me em que se botavam abaixo os novos Regimentos, porque V. Excia. assim o havia dito, é verdade que eu me mostrei sentido e queixei-me ao sargento-mor: me tinha enganado, porque em nome da dita Senhora se me havia dado uma patente de coronel, chefe do meu Regimento, com o qual me tinha desvelado em o regular e fardar, e muita parte à minha custa; e que não podia levar à paciência ver reduzido à inação o fruto do meu desvelo, sem que eu tivesse faltas do real serviço; e juntando mais algumas palavras em desafogo da minha paixão. Foi Deus servido que isso acontecesse para se conhecer a falsidade que se fulmina.


No mesmo dia viemos dormir à casa do capitão José de Resende; e chamando-me a um quarto particular, de noite, o dito Sargento-Mor Luís Vaz, pensando que o meu ânimo estava disposto para seguir a nova conjuração pelos sentimentos e queixas que me tinha ouvido, passou o dito sargento-mor a participar-me, debaixo de todo o segredo, o seguinte:


Que o Desembargador Tomás Antônio Gonzaga, primeiro cabeça da conjuração, havia acabado o lugar de ouvidor dessa Comarca, e que, isto posto, se achava há muitos meses nessa vila, sem se recolher a seu lugar da Bahia, com o frívolo pretexto de um casamento, que tudo é idéia porque já se achava fabricando leis para o novo regime da sublevação que se tinha disposto da forma seguinte:


Procurou o dito Gonzaga o partido e união do Coronel Inácio José de Alvarenga e do Padre José da Silva e Oliveira e outros mais, todos filhos da América, valendo-se para seduzir a outros do Alferes (pago) Joaquim José da Silva Xavier; e que o dito Gonzaga havia disposto da forma seguinte: que o dito Coronel Alvarenga havia mandar 200 homens pés-rapados da Campanha, paragem onde mora o dito Coronel; e outros 200, o dito Padre José da Silva; e que haviam de acompanhar a estes vários sujeitos, que já passam de 60, dos principais destas Minas; e que estes pés-rapados haviam de vir armados de espingardas e facões e que não haviam de vir juntos para não causar desconfiança; e que estivessem dispersos, porém perto da Vila Rica, e prontos à primeira voz; e que a senha para o assalto haviam de ser cartas dizendo tal dia é o batizado; e que podiam ir seguros porque o comandante da Tropa Paga, Tenente-Coronel Francisco de Paula, estava pela parte do levante e mais alguns oficiais, ainda que o mesmo sargento-mor me disse que o dito Gonzaga e seus parciais estavam desgostosos pela frouxidão que encontravam no dito comandante e que, por essa causa, se não tinha concluído o dito Levante.


E que a primeira cabeça que se havia de cortar era a de V. Excia.; e depois, pegando-lhe pelos cabelos, se havia fazer uma fala ao povo que já estava escrita pelo dito Gonzaga; e para sossegar o dito povo se havia levantar os tributos; e que logo se passaria a cortar a cabeça do Ouvidor dessa vila, Pedro José de Araújo, e ao Escrivão da Junta, Carlos José da Silva, e ao Ajudante-de-ordens Antônio Xavier; porque estes haviam seguir o partido de V. Excia.; e que, como o Intendente era amigo dele, dito Gonzaga, haviam ver se o reduziam a segui-los; quando duvidasse, também se lhe cortaria a cabeça.



Autos de Devassa da Inconfidência Mineira

volume 1

Câmara dos Deputados / Governo do Estado de

Minas Gerais. Brasília / Belo Horizonte. 1976.


Quinta-feira, Outubro 01, 2009

 

O ROMANCEIRO


Vencendo o tempo, fértil em mudanças,
conversei com doçura as mesmas fontes,
e vi serem comuns nossas lembranças..

Da brenha tenebrosa aos curvos montes,
do quebrado almocafre aos anjos de ouro
que o céu sustém nos longos horizontes,

tudo me fala e entende do tesouro
arrancado a estas Minas enganosas,
com sangue sobre a espada, a cruz e o louro.

Tudo me fala e entendo: escuto as rosas
e os girassóis destes jardins, que um dia
foram terras e areias dolorosas,

por onde o passo da ambição rugia;
por onde se arrastava, esquartejado,
o mártir sem direito de agonia.

Escuto os alicerces que o passado
tingiu de incêndio: a voz dessas ruínas
de muros de ouro em fogo evaporado.

Altas capelas contam-me divinas
fábulas. Torres, santos e cruzeiros
apontam-me altitudes e neblinas.

Ó pontes sobre os córregos! ó vasta
desolação de ermas, estéreis serras
que o sol freqüenta e a ventania gasta!

Rubras, cinéreas, tenebrosas terras
retalhadas por grandes golpes duros,
de infatigáveis, seculares guerras...


Cecília Meireles
em Romanceiro da Inconfidência
Nova Fronteira. Rio de Janeiro.
19ª impressão. 2004.

Terça-feira, Setembro 29, 2009

 

EM BH, NOS ANOS 50


Voltando ao nosso assunto, depois de conseguir a unanimidade da cidade contra ele, Giustino Marzano partiu para São Paulo onde, sem obter sucesso, se dedicou a atividades pouco recomendáveis. Teve um fim melancólico. Morreu esquecido por todos.


Em 1957, antes da chegada do diretor importado, o Teatro Universitário já havia dado mostras de sua boa qualidade com a montagem primorosa da peça NOSSA CIDADE, de Thornton Wilder. Dirigida por Carlos Kroeber, tinha cenários de Augusto Degois e figurinos desenhados especialmente por Kalma Murtinho. No elenco, estavam Letícia Malard, Theotonio dos Santos Júnior, Jota Dângelo, Ezequiel Neves, Domingos Muchon, Sílvio Castanheira, Déa Abreu, Ari Margalith, Neuza Rocha e outros.


O Teatro Experimental, fundado por Carlos Kroeber, João Marshner, Jota Dãngelo e Carlos Denis Machado, e que já estava em atividade antes da chegada de Marzano, reunia os talentosos dissidentes do TU já desgastados com a prepotência e incompetência do italiano. Tinha propostas mais vastas, queria fazer teatro de vanguarda e era independente. Mas absolutamente sem recursos. Novamente, as “Amigas da Cultura” foram de relevante valia na montagem dos espetáculos. Foram elas, por exemplo, que compraram os direitos de tradução da peça Fim de Jogo de Samuel Beckett. Traduzida por João Marschner e Silviano Santiago, foi levada, pela primeira vez no Brasil, em Belo Horizonte. A direção foi de Carlos Kroeber. No palco, Sílvio Castanheira, Jota Dângelo, Ezequiel Neves e Neuza Rocha.


Outro recurso usado para a obtenção de fundos financeiros era a apresentação de peças infantis, geralmente de Maria Clara Machado. Eram sucesso de público e forneciam subsídios para montagens mais ousadas como A Cantora Careca de Ionesco. Imaginem Ionesco na Belo Horizonte da época. Em uma das apresentações, havia apenas 3 pessoas na platéia, um deles um paulista de passagem pela cidade, que ficara impressionado com a ousadia dos mineiros.


As peças infantis tinham sucesso garantido, não sem razão. Eram montagens primorosas. Uma delas, Pluft, o Fantasminha, lançou como ator o então adolescente Rodrigo Santiago, um Pluft absolutamente adorável. As músicas eram do “doublé” de ator e compositor Jota Dângelo e a direção de Carlos Kroeber.


Carlão, como era conhecido, em razão do físico avantajado, era a grande cabeça do Teatro Experimental. Inteligente, irreverente, irônico e empreendedor, era uma espécie de “guru” da turma do teatro. No final dos anos 50, foi para os Estados Unidos onde se aperfeiçoou nas artes cênicas. Voltou cheio de idéias e 50 quilos mais magro. Lembro-me de sua “rentrée”. Estávamos ensaiando no teatro Francisco Nunes, quando uma figura surgiu na frente do palco e desfilou como se estivesse numa passarela de moda. Após o primeiro susto, com o que pensávamos fosse o ato de um maluco, reconhecemos o “magro” Carlão. Ensaio interrompido para os abraços e festejos que, posteriormente, romperam a madrugada.


Ansioso por transmitir os conhecimentos adquiridos no exterior, Carlão passou a ministrar um curso de interpretação seguido atentamente pelos integrantes do Teatro Experimental e por alunas de Klauss. Duas coisas ficaram em minha memória de suas aulas. A primeira foi o talento à flor da pele do adolescente Rodrigo Santiago, que conseguia expressar emoções apenas com sua fisionomia, sem gestos ou caretas. Certa vez, Carlão nos colocou um a um, sentados próximos a uma parede, e ia dizendo o que estava se passando do outro lado, para que reagíssemos de acordo. Dizia, por exemplo, “tem uma criança chorando no quarto ao lado”. Só no rosto de Rodrigo percebi que isto de fato poderia estar acontecendo.


Uma de suas aulas me marcou especialmente. Ele chegou com vários rolos de jornal dobrados em forma de cacetetes e distribuiu-os entre nós, dando a ordem: “Comecem a se agredir!” Iniciou-se a pancadaria que durou uns cinco minutos, ao fim dos quais ele gritou: “Parem!” Paramos imediatamente, exaustos e arfantes. Calmamente, nos mandou sentar e perguntou: “Por que vocês estão se agredindo desta maneira?” A resposta veio rápida e unânime: “Uai, porque você mandou”... A lição foi acachapante: “E vocês pensam que teatro é isto, fazer tudo o que o diretor manda sem nem saber por quê?” Silêncio total e reflexivo. Depois disso, nunca mais fiz nada que me foi mandado ou pedido sem procurar saber os “porquês”.



Lúcia Helena Monteiro Machado

em A Filha da Paciência

na época da geração complemento

BDMG Cultural. Belo Horizonte.

2001.


Segunda-feira, Setembro 28, 2009

 

EM BH COM FRIEIRO, 1942


24 de novembro — Relatividade de todo conhecimento. Aparência de toda noção. A única realidade é o mundo especial que cada qual capta e retém, deformando-o, recriando-o no pensamento. Kant, Berkeley, Schopenhauer?... Não. Dom Quixote se exprime melhor acerca do idealismo:

“... y así eso que a tí te parece bacía de barbero me parece a mil el yelmo de Mambrino, y a otro le parecerá otra cosa.” (1ª Parte, Cap. XXV).

Eis o que é a realidade: bacia de barbeiro, elmo de Mambrino, ou o que os senhores quiserem...

26 de novembro — No Cine Glória, Shanghai Gesture, com Gene Tierney (linda estrela, que começa a fulgurar), Walter Huston (sempre dono de seus papéis e das fitas em que toma parte), Victor Mature (bonitão, tipo de sírio-libanês, não se sabe se simpático ou antipático) e a estranha e diferente Ona Munson. Direção de Joseph von Steinbeck. Fita com altos e baixos quanto à qualidade artística, como é de regra nos filmes, mas entretida, que é o principal neste gênero de diversão.

27 de novembro — No Metrópole, uma comédia com George Brent e Joan Bennett. Passável.

28 de novembro — Diz-se, na gíria, de algum sujeito que se salienta em alguma coisa: “Fulano é um bicho!”

Nesse mesmo sentido de pessoa saliente, importante, ou na de figurão, mandão, etc. encontrei-a num conto do escritor galego Otero Pedrayo (Veinte Cuentos Gallegos), que acabo de ler:

“Quién se lo había de decir, ahora que era el bicho de esta tierra!”

E também se me deparou no Don Segundo Sombra, de Güiraldes:

“... y ya los procuradores, jueces y otros bichos iban mermando”.

29 de novembro — No Metrópole, comédia com Bette Davis e James Cagney. A grande artista metida numa comédia imbecil! Caindo de nádegas em montes de cactos, como nas chanchadas de Mack Sennett!

29 de novembro — Vesperal no China Circus Show, trabalhando no teatrinho Lakmé, da Feira de Amostras. Circo ruinzinho. Nada vi de curioso, a não ser um dos homens da troupe chinesa Lai Fous, um sujeito de cara limpinha, cabelos lisos, negros e brilhantes e um sorriso cumprimenteiro, satisfeito, que me pareceu um sósia do Noraldino Lima.


Eduardo Frieiro
em Novo Diário
Itatiaia. Belo Horizonte.
1986.

Domingo, Setembro 27, 2009

 

MINAS: CIDADES BARROCAS


TIRADENTES

De um lado, a serra enorme. Tão negra que chega a rebrilhar ao sol. No entanto, seu corpo é feito do quartzito mais branco que as Minas têm. À sombra dessa serra, cujas sombras o crepúsculo prolonga, ergue-se, sozinha, a Vila de S. José del Rei.

Há uma calma profunda no ambiente. Parece ainda estarrecido com o martírio de seu filho mais querido, o Tiradentes. Aqui, inda menino, ele brincou, em correrias pelas campinas a fora. Pescou lambaris no riacho, colheu flores, armou arapucas, aprendendo a amar o chão e as coisas de sua terra. Viu o ouro ingrato, das mãos feridas dos mineiros, fugindo para além-mar. Ouviu os lamentos doridos agrilhoados, e assim se fez homem e se transformou em herói. Meditou aqui e ali; colheu queixumes e esperanças. Na calma profunda do ambiente dormitavam anseios. De novo os emboabas se dispõem à luta mas, agora, pelo direito à liberdade. A conspiração se instala. O herói transforma-se em mártir. Hoje a cidade eterniza seu apelido, à sombra da mesma serra enorme, tão negra que chega a rebrilhar ao sol.

O conjunto urbano figura cenário, a propósito construído para encantar. É concentrado e diminuto como um trecho escolhido da história. Não se estende em linha como as demais povoações mineiras; enrodilha-se. É quase uma rua só, formando um quadrado. Em cada um de seus lados uma perspectiva diferente. A um canto, levanta-se nobre sobrado de camarinhas; prolonga-o larga série de casas térreas, bem postas em suas discretas fisionomias.

Ouvem-se canções: “Em Tiradentes fizeram cadeia nova / Mariazinha, coitadinha, é criminosa”. Lá está ela, a cadeia, mais amena, quiçá, que muitas mais novas. Não se distingue das outras construções senão por suas amplas janelas gradeadas. Através delas se vê a rua, conversam os raros presos com os transeuntes, em amáveis colóquios. A rua vai subindo devagar. Nela estão as residências mais faceiras das Minas. Por suas gelosias entrelaçadas, olhos ardentes procuram bem-amados. São pequeninas, arrumadinhas, e formam perspectiva tão encantadora que sugere ambiente infantil.

Dobra-se a rua principal em ladeira; em seu topo assenta-se a Matriz de S. Antônio. Bem lançada escadaria ascende a seu adro, atapetado de flores, no meio das quais está o único relógio público de sol ainda existente nas Minas.

A fachada da Igreja não é a primitiva. Foi executada no século XIX, obedecendo ao último projeto arquitetônico de Antônio Francisco Lisboa (1810). Com toda certeza já estava construída sua parte inferior quando o novo risco foi obtido. O arremate superior tenta, no possível, tornar a obra mais elegante, reduzindo o volume das torres, por intermédio de chanfros em suas arestas. Por sua vez, o frontão se galba em duas largas curvas, mas não se resolve com os perfis e a ornamentação próprias de Antônio Francisco. Não há mais ouro nas Minas, e o desenho de Antônio Francisco não pode ser integralmente executado.

O interior da Matriz de S. Antônio surpreende pela grandiosidade. No conjunto e no detalhe impera o caráter monumental. Logo na entrada, soberbo coro antecede a altíssima nave. A seu lado, bacia toda recoberta de pinturas do mais refinado rococó sustenta o órgão de altos tubos. Os tetos são revestidos de arabescos florais em ouro, semelhantes aos que se encontram na Biblioteca da Universidade de Coimbra, ou recebem pintura figurativa. São enormes os retábulos da nave, mas perdem em grandeza para o da capela-mor. Não há outro nas Minas mais exuberante. É quase obra de arquitetura pelo volume e pela definida e forte estrutura. Sua talha, estendida para as laterais do presbitério, alcança dimensões extraordinárias. Lembra por sua força e largueza o estilo Luís XIV.

A Matriz de S. Antônio, da antiga Vila de S. José del Rei, exige processos sucessivos e somatórios de contemplação. Há que ir e vir, passar de elemento a outro, interligando efeitos e confrontando detalhes. Inclusive porque sua beleza não se restringe à nave e capela-mor. Estende-se pela sacristia e cômodos laterais, com suas pinturas, oratórios, imagens e pratarias, só em dias de festas expostas.

São diversas as capelas filiais, urbanas, da Matriz de S. Antônio. Nenhuma, porém, lhe disputa a imponência. Ou se entremeiam com as residências, como a de S. João Evangelista ou a de N. S. do Rosário, ou se afastam para outeiros circunvizinhos, como a de N. S. das Mercês. Uma delas abriga o Museu de Arte Sacra local, com valiosas peças.

No conjunto arquitetônico civil três casas se destacam. Duas delas aproveitam a rua que passa em frente à matriz, escorregando para sua direita. A primeira dispõe de um forro de gamela, em cujos painéis inclinados foram pintadas cenas campestres, saborosamente românticas, representando os quatro sentidos. A segunda, possuidora de forro semelhante, tem significação particular por haver pertencido ao Inconfidente Padre Toledo. Por muito tempo funcionou como sede da municipalidade; hoje está ocupada por freiras. Sua entrada abre-se para pátio lateral. O corpo da construção eleva-se, em certo trecho, em torreão. Por seu singular partido em planta, pelo primoroso acabamento e pelos fatos históricos que nela se objetivaram, a Casa do Padre Toledo constitui exemplar da mais alta significação.

Junto ao ribeiro que margeia a cidade, abre-se gostosa praça, sombreada de frondosas árvores. Ultrapassada a ponte que vence o leito do ribeiro, encontra-se o mais completo chafariz público do país. Não se limita a bicas sobre bacia; seu muro, à feição de capela conforme o uso, inclui nicho para a Virgem; em sua frente, mureta provida de bancos agencia pequeno pátio; nos fundos dispõe de tanques para a lavagem de roupa. Assemelha-se um tanto a construção de igual complexidade, existente em Ericeira, Portugal.

Aqui se reúne o mulherio, nas tardes ensolaradas. Trocam-se receitas de quitutes e intrigas também.

A cidade é pequenina e arrumadinha. É quase uma cidade menina. Mal saiu da infância de sua formação e não atingiu ainda a plena maturidade. Como criança deixa-se enlevar pela brisa perfumada do vale próximo, posta em sossego, à sombra da serra enorme que, de tão negra, chega a rebrilhar ao sol.


Renée Lefèvre, Sylvio de Vasconcellos
Desenho Lírico das Minas Antigórias
em Minas: Cidades Barrocas.
Cia. Editora Nacional / Editora da Universidade de São Paulo.
São Paulo. 1968.

 

TERRAS DO N


Nacip Raydan Nanuque Naque Natalândia Natércia Nazareno


Nepomuceno Ninheira Nova Belém Nova Era Nova Lima Nova Módica


Nova Ponte Nova Porteirinha Nova Resende Nova Serrana Nova União


Novo Cruzeiro Novo Oriente de Minas Novorizonte


 

SÃO JOÃO DEL REI

São João del Rei

Sábado, Setembro 26, 2009

 

FEIJÃO, ANGU E COUVE


O autor da Memória Histórica da Capitania de Minas Gerais (atribuída a José Joaquim da Rocha), onde se acham informações relativas ao ano de 1778, refere-se à situação de Vila Rica, “desagradável bastantemente, não só pela arquitetura das casas, mas ainda pelo elevado das suas ruas, que fatigam a todos os que a passeiam”. A Vila, dizia, abundava em víveres e as terras produziam muitas hortaliças, como couves, repolhos e cebolas. Havia também fartura de frutas, principalmente os pêssegos, marmelos, laranjas, maçãs, joazes. Embora se lavrasse pouco a terra, os seus habitantes nenhuma falta experimentavam, em razão dos mantimentos que entravam todos os dias em tropas carregadas de toucinho, milho, feijão, queijos e azeite, vendidos por preços bastante cômodos.

A população da Vila do Sabará, informava o memorialista, avaliada em 7.600 almas, vivia da mineração e da lavoura de milho, feijão, arroz e cana de açúcar. No Julgado de São Romão, umas das melhores terras, se não fossem as sezões, havia abundância de gados, caça e peixe, assim como frutas e o mais necessário para a vida. Corria ali o grande negócio do sal do sertão, couros de veado e de toda a qualidade de pelaria. O Julgado do Curvelo era abundante em gado vacum, caças de todas as qualidades e os víveres necessários à subsistência. A Vila Nova da Rainha era “muito mimosa de frutas de nosso Portugal, como são maçãs, pêssegos, ameixas e uvas”, e a maior parte dos moradores vivia da extração de ouro. Toda a região do Serro do Frio tinha plantações de milho, feijão e cana de açúcar. Os barreiros salitrados, que se acham em seus dilatados pastos, atraíam os gados e todos os animais daquele sertão, para se nutrirem desse barro, “muito proveitoso para a produção por causa do salitre, sem o qual nada vive nas Minas”.

A Vila de São José do Rio das Mortes (continuamos a respigar no citado autor) era a mais abundante de toda a Capitania, dela se sustentando a maior parte das comarcas, principalmente de toucinhos, gados, queijos, milho, feijão e arroz. Tinha muita fruta de toda a qualidade, principalmente as maçãs, semelhantes às de Portugal. Caça e peixe não faltavam aos que se entregavam aos exercícios venatórios e piscatórios. Ares sadios, clima temperado. Boa saúde dos habitantes, mas... “os nacionais são acometidos, principalmente os camponeses, de umas grandes grossuras, que lhes crescem no pescoço e lhes chamam “papos”, de sorte que alguns chegam a disforme grandeza e impedem de alguma forma a respiração”. O clima quente e seco, falto de águas, da Vila de Minas Novas era pouco propício à produção dos víveres indispensáveis ao sustento dos seus habitantes, cujos recursos provinham do ouro que alguns mineiros extraíam no Rio Araçuaí e das pedras crisólitas que se catavam no Rio Piau-í. Já os moradores da freguesia de Conceição do Rio Pardo, situada em sertão fertilíssimo de gado, caça e pesca, achavam-se socorridos de tudo o que era preciso para passar a vida com abundância.

São as informações que achamos útil recolher da interessante peça histórica.

Pessimista é a Memória datada de 1801 e escrita pelo naturalista José Vieira Couto onde se lêem considerações como estas:

“Espanta ao viajeiro observador a suma decadência destas povoações de Minas: transita de arraiais em arraiais, vê que tudo são ruínas, tudo despovoação; nota que só poucos lugares de longe em longe se sustêm e parecem um pouco mais animados. [...] Alguns mineiros, a maior parte deles empenhados ou falidos, cobertos de lodo e cheios de esperança às portas de suas minas ou às margens dos rios, ainda lutam, ainda pretendem ter mão na esfarrapada fortuna. Estes arraiais, povoações todas de mineiros, que em tempos atrás foram fundados e levantados de seus alicerces à custa do ouro extraído das lavras, que foram florentes, hoje arruinadas, seus habitantes nem ainda os podendo conservar, que decadência de mineração!”

Várias eram as causas apontadas. Uma delas: o mineiro era o único que pagava a contribuição do quinto.

Outro fator de pobreza, segundo o memorialista, achava-se no desprezo da agricultura. “Uma agricultura de poucos gêneros (dizia), o quanto baste somente para a sustentação dos homens grosseiros, ou de escravos; uma agricultura ruinosa, que se faz sem beneficiar a terra e só estrumando-a com as cinzas de preciosas matas, tal é a agricultura de Minas...”

Vistas igualmente nada cor de rosa eram as do autor das Memórias sobre a Capitania de Minas Gerais, escritas em 1806 e atribuídas ao Dr. Diogo Pereira Ribeiro de Vasconcelos: “por que se veja o atraso da agricultura na vasta e frutífera Capitania de Minas Gerais, direi que toda se reduz à planta dos grãos ordinários, o milho, o feijão e o arroz...” O uso do arado, quase desconhecido. Não havia outro modo de cultura, senão o de derrubar, roçar e queimar os matos para depois plantar.

E a respeito do comércio? Inteiramente passivo e por conseguinte desvantajoso. O que se exportava — algodão, café, açúcar, fumo, sola, couros, queijos, toucinho —, conduzido em lombo de bestas para os portos marítimos, após longa e penosa travessia de terra, não era susceptível de lucros, uma vez que o produto dos gêneros e do gado vacum não equivalia aos preços das mercadorias e fazendas da Europa que era preciso importar.


Eduardo Frieiro
em Feijão, Angu e Couve
ensaio sobre a comida dos mineiros
Centro de Estudos Mineiros. Belo Horizonte.
1966.

Quarta-feira, Setembro 23, 2009

 

A SELEÇÃO DE DRUMMOND


MORRO VELHO

cccccccccccccccccccccccccccccccccccII


Já acentuei que Morro Velho é a mais profunda mina do mundo: 2.538 metros, exatamente. Vale apontar que o furo mais atrevido na crosta do globo — o mais aventuroso mergulho das forças humanas da Terra — foi feito em busca do ouro. O veeiro desce obliquamente. A mina o acompanha, aprofundando-se em seis galerias superpostas. Umas são verticais: os poços. Outras horizontais: os túneis. Trabalho que demanda cautela. Faz alguns anos, antes dos engenheiros ingleses tomarem a exploração a seu cargo, obturou-se a entrada de uma galeria. Sessenta mineiros ficaram soterrados, morreram ao pé do ouro — desse ouro que não procuravam para si.


Ninguém desce à mina sem enfiar o uniforme de linho e o capacete de couro cru. O menor seixo que rola repercute com estrondo nos poços. Um dos “capitães” da mina, latagão inglês, de linhas esbeltas e equilibradas, vai guiar-nos. Transposta a entrada, cujos pilares de cimento se levantam sob os cipós e os bambus da encosta, surge, bem iluminado, o primeiro túnel. Trânsito contínuo de vagonetes elétricos, transbordantes de minério. A temperatura baixa a quatro graus. O vento glacial, que vai refrescar as profundezas, produz arrepios.


Primeiro poço: queda de 700 metros, numa estreita gaiola de metal. Segundo túnel, e, depois de curta caminhada horizontal, segundo poço. O ar faz-se morno. Havendo partido de 1.000 metros de altitude, eis-nos já muito abaixo do nível do mar: a espessura do mundo começa a pesar sobre nós. Certamente, métros e túneis já vos deram tal sensação. Entretanto, os ouvidos sofrem a moléstia dessa pressão repentina. Ainda hoje torno a sentir, com freqüência, a mesma angústia. Ainda hoje torno a ver aquelas macilentas figuras, de volta do seu lidar subterrâneo.


Apraz-vos descer, descer cada vez mais? Encontrareis, no túnel H, as estrebarias das mulas prisioneiras, que permanecem meses sem ver o sol. Do poço 41 em diante, o ar principia a queimar-vos as faces. O famoso poço 43: banhado de suor e dobrado sob a curvatura da abóbada muito baixa, começareis a ouvir, cada vez mais perto, o metralhar das puas elétricas. Na densa poeira, agitam-se dorsos nus, ombros enfarinhados, axilas rorejantes. De mão a mão, corre incessantemente a moringa d’água. Não toqueis nos fragmentos de rocha, recém-destacados: sua temperatura é de 57 graus. É insuportável, também, o contato do vosso olhar com essas caras, onde, ao orgulho acre de tamanha tarefa se mistura uma queixa secreta...


Lá no alto, a dous quilômetros acima dessas cabeças, como somos esquecidos, os montes, as árvores, as sociedades e as leis; lá, nas profundas, a vizinhança terrível do fogo central. Em verdade, os fantásticos seres que penam, aqui, atingem uma das raias desse mundo chato onde vivemos. Eles se evadem para baixo, como o aviador para o alto. Seus lábios desenham uma curva sequiosa.


Pesa-lhes a carga de dous quilômetros de rocha, a carga de prodigiosa espessura? Não. Eles suportam, em segredo, a carga de um mundo.


*


Três turmas de trabalhadores mergulham diariamente na mina. Dous mil e oitocentos operários labutam na superfície.


E qual o resultado, em toda a evidência mísera e terrível? Em troca de tal esforço, de tanta ciência, de tamanha dor e energia, menos de dez quilos de ouro por dia.


— Esse ouro é precioso para o equilíbrio da moeda brasileira, adverte-nos o engenheiro. O Estado compra-o em mil-réis. Remetemos as barras para o Rio, sem maiores cuidados, pela estrada de ferro. O país é tão seguro! Se fosse nos Estados Unidos, necessitaríamos de um escolta armada até os dentes.


Segurei uma dessas barras, que são de 28 quilos. Cada uma representa o labor de 4.300 homens, durante três dias, 12.900 diárias de trabalho, sem contar as somas empregadas nos edifícios e nas máquinas.


O pedaço de metal tem a forma de um cubo amarelo-claro e as dimensões de um tijolo. Incrivelmente pesado. Tão pesado que, ao peso material, parece ajuntar-se outro, misteriosamente. Todas as revelhas verdades sobre o magnífico esforço do homem, os absurdos e as injustiças que o gravam, fervem no vosso coração, quando sopesais uma dessas barras trágicas. [1932]



Luc Durtain

em Brasil, Terra & Alma

Minas Gerais

seleção de textos de Carlos Drummond de Andrade

Editora do Autor. Rio de Janeiro.

1967.


Segunda-feira, Setembro 14, 2009

 

NAVA


Ouvi nitidamente o relógio da portaria dar as onze horas. Logo, como se houvesse a regência de um contra-regra, começaram a entrar na sala os figurantes que eu sempre vi chegarem à mesma hora, durante os anos em que eu assistiria à representação diária daquele pedaço de vida. O Deolindo cortesmente ia me apresentando a cada recém-chegado. Primeiro a um cidadão de longos cabelos muito crespos e bem amansados a brilhantina. Tinha o nariz muito fino, levemente arrebitado, boca pequena, olhos miúdos e sorridentes. Vestia de escuro e seu paletó muito longo lembrava longinquamente a dignidade das sobrecasacas. Era rápido, magro e seus ombros pontudos levantavam as mangas como se fossem cabides. Sr. Mourão! Este é o Seu Nava, nosso novo colaborador. Completou: o Sr. José Cintra Mourão. O qual e eu tivemos muito prazer em nos conhecer e ele foi abancar-se à máquina de escrever onde retomou imediatamente o repiqueteio de trabalho que vinha da véspera antisdonte trasantonte de sempre que continuaria amanhã depois e depois e depois no sempre dos sempres. Outra entrada, essa de passos compassados e solenes. Sr. Horta! Esté o Seu Nava, nosso novo colaborador. Arrematou: o Sr. Antônio Carlos de Andrade Horta. Mas os senhores devem se conhecer porque são ambos estudantes de Medicina. Eu conhecia de vista e admirava de longe. Apertei comovido a mão do autor do ponto publicado na Radium e que estava me abrindo os mundos do cálculo estequiométrico. O Horta era um moço alto, moreno claro, cabelos muito lisos e bem penteados, de um castanho desbotado condizente com a pele mas contrastando com a qualidade das sobrancelhas e das pupilas muito pretas. Parecia um retrato de sépia que capricho do pintor tivesse terminado usando para os olhos o retinto dos nanquins. Vestia-se bem e quando adiantou-se para ocupar a mesa do fundo notei o ligeiro descaído de seus ombros e que o pé de seu cabelo perdia-se dentro dos atrás do colarinho da camisa de fantasia riscadinha. Sentou-se e mergulhou na leitura dum livrão que trouxera. Súbito o Deolindo tornou a sair dizendo a todos, a ninguém, às paredes, talvez a si mesmo que voltava ao Dr. Abílio. Só se ouvia na sala a metralhadora de escrever disparada numa espécie de fúria pelo Mourão.

Cerca de uma hora cavou-se um silêncio houve movimento de atenção e uma expectativa ansiosa, feito a que antecede ao estouro esperado duma bomba. Eu não estava entendendo bem aquilo. Os funcionários apressados, se levantandosse secolocandosse no caminho do Gabinete do Diretor. Só compreendi quando o vi passando numa pressa, sempre de chapéu na cabeça e carregando sob o braço a pasta volumosa. Cresceu um sussurro de simpatia e o entrechoque de bons dias! bons dias! bons dias! pra lá pra cá como o tinido de cálices nas saúdes. Mas houve um tinido mesmo, o da bandeja de café do Fortunato se embarafustando no gabinete para confortar logo o chefe com um cafezinho — antes do mesmo engolfar-se no trabalho e naquela maçada de receber as partes. Compreendi que a chegada do Dr. Libânio marcava uma pausa no trabalho. Porque depois de servir no Olimpo, o Fortunato descia à planície e vinha de sala em sala trazendo o cafezinho de cada funcionário. Quanto ele entrou na nossa foi direto à mesa do Deolindo, o primeiro a ser servido. Em seguida circulou, foi ao Mourão, ao Horta, finalmente chegou-se à minha mesa. Enquanto tomava minha xicrinha fiquei apreciando o modo como o Deolindo degustava a sua. Fazia-o lentamente, espalhando os golinhos na boca, como se fosse bochechar. Demorava um pouco, encorpando, depois engolia. Fazia isso olhos perdidos fitando sem ver pontos vagos à sua frente, na sala ou nos ares lavados infinitos lá fora. Depois voltava à realidade, preparava um palhinha e chupava-o a baforadas fortes e contínuas, tragando todas, sem tirar da boca o cigarro consumido até quase lhe queimar os beiços incendiar as guias da bigodeira. Antes de voltar ao trabalho tinha sempre conversa curta com o Mourão. Justamente àquele dia, este trouxera, para mostrar-lhe, uma verdadeira raridade. Uma carta de brasão aberta em pergaminho, passada por Dom João V ou Dom José I a um antepassado do nosso colega. Não lembro bem mas parece que eram as cores e os metais da varonia dos Ulhoa tendo, à sinistra alta, a brica distintiva. Enquanto os dois discutiam heráldica e genealogia, levantei-me e fui à mesa do Horta. Dei-lhe senhorio mas ele logo me pôs à vontade, dizendo que o tratasse pelo nome pois éramos companheiros de Faculdade. Curioso, perguntei sobre o livro enorme que ele estava lendo. Era o Testut e pela primeira vez abri os pórticos do majestoso tratado. Pasmei para suas ilustrações admiráveis. As peças amarelas do esqueleto. Sua combinação nas articulações de ligamentos brancos e sinoviais azuis. Finalmente, a carne viva dos músculos que dão vida e movimento aos diversos segmentos. Eram gravuras prodigiosas e aqueles bíceps, peitorais, gêmeos e glúteos assim perfeitos só poderiam pertencer a deuses antigos ou aos esfolados realizados pela Arte, tais os de Bandinelli, de Houdon, de Gigoli, Bouchardon, Salvage e os mais atrevidos e dramáticos — atribuídos a Miguel Ângelo. O Horta falava com entusiasmo da Anatomia, descrevia suas manhãs passadas no anfiteatro para onde corria outra vez, logo que a repartição fechava e onde ficava dissecando até a noite descer. Aconselhou-me fazer o mesmo quando chegasse ao segundo, ao terceiro ano e devo talvez àquela conversa na repartição minha paixão futura pela anatomia e indiretamente, a influência desta quando, muito mais tarde, escolhi uma especialidade essencialmente morfológica como é a Reumatologia. Nunca mais esqueci a frase do anatômico insigne e que me foi mostrada pelo colega. Aquela em que ele fecha o prefácio das sete primeiras edições do livro monumental e reclama dos médicos, um pouco mais de atenção para “...cette Anatomie Humaine, si delaissée de nos jours qui est non seulement une science utile, mais aussi une science aimable quand on la comprend bien”. A advertência tem todo cabimento: pois não tive? um assistente, formado pela Praia — que nunca empunhou o escalpelo, dia nenhum entrou num teatro anatômico, jamais dissecou um cadáver — mas que teve seu accessit na Cadeira de Descritiva.


Pedro Nava
em Beira-Mar
Memórias 4
Nova Fronteira. Rio de Janeiro.
3ª edição. 1985.

Domingo, Setembro 13, 2009

 

ENTRE RIOS DE MINAS


 

UMA HISTÓRIA DE VIDA


A Dara tinha muita vontade de ir a Aparecida do Norte, em São Paulo. Ela e uma companheira combinaram e compraram passagens num ônibus fretado. Marcaram saída para 5 horas da manhã. Chegaram lá às 4 da tarde. Ela ficou dois dias e cumpriu o seu desejo. Voltou em paz e muito satisfeita, e eu também.


Ela também tinha muita vontade de ir ao Rio para conhecer o mar. Eu já tinha ido uma vez. Com o Geraldo, meu filho, eu fui à Penha, ao Corcovado e fui à praia de Copacabana, achei bom. A Dara também foi com o Geraldo e eu de outra vez. Nós fomos ao casamento da cunhada dele e lá ficamos dois dias. De lá passamos pelo Divino da Carangola para visitar o meu irmão Sebastião, que morava lá. Ele e nós ficamos muito satisfeitos. De lá voltamos. Foi uma viagem tranqüila e chegamos em paz.


Um dia uma filha da Dara convidou ela para ir à praia. Ela não deu a resposta e ficou pensando. Dias depois ela resolveu dar a resposta que queria ir que marcasse o dia para uma quinta-feira. A saída foi às 5 horas da manhã. Ela achou muito bonita a praia, não tomou banho de mar, mas ficou muito satisfeita e eu também, porque ela foi e voltou em paz, sem novidades na viagem. Outra filha convidou-a para ir à praia e foi outro passeio, igual ao primeiro e sem haver novidades.


Eu e o Antônio éramos companheiros de roça e horta e uma vez por semana, nos dias de sábado, nós arranjávamos uma carga de verdura para vender no mercado. Subindo no alto da Terra Vermelha a gente via o cemitério de Venda Nova. Lá a gente via língua de fogo e eu tinha medo, mas o Antônio não tinha, ele falava que aquilo era isalação dos corpos. E nós continuávamos a viagem com o balaio nas costas e os pés no chão.


No alto do Campo Alegre tinha uma encruzilhada. Lá eles faziam despacho: tinha galinha morta, pinga e outros objetos, mas nós não púnhamos a mão naquilo. No caminho havia uma charqueada, depósito de carne, onde os cachorros que tomavam conta vinham nos atacar, era preciso colocarmos pedras nos bolsos para afugentar os cachorros e seguir viagem. Chegando no mercado, nós vendemos as nossas verduras por apenas 6 mil e 500. Na volta para casa nós tínhamos que pegar uma carona na carroça que vendia lenha na cidade, porque já estávamos cansados. Um dia, nós fomos calçados de botina, os pés incharam e encheram de calos d’água. Tivemos que voltar descalços.



Pedro Lara

Pedro, uma História de Vida

Belo Horizonte. 1996.


Sábado, Setembro 12, 2009

 

BARROCAS FAMÍLIAS


Uma segunda frente de ação específica deveria, em caráter complementar, cuidar justamente da administração dos matrimônios, para que o projeto de generalização destas famílias tivesse sucesso. Entretanto, em Minas Gerais — como em outras regiões coloniais — à inocuidade da ação eclesial em território tão vasto, somavam-se insuperáveis dificuldades institucionais que limitavam de maneira drástica a generalização dos enlaces sob legitimação da Igreja. A grande maioria da população não podia arcar com as elevadas despesas cobradas pela Igreja para realização dos casamentos. Para o trâmite dos processos eram exigidas numerosas certidões a fim de afastar os impedimentos ao matrimônio estipulados pelo direito canônico, e a possibilidade de bigamias. Com uma população extremamente móvel como era a mineira, os custos com essa burocracia aumentavam muito, pois os documentos deveriam, a princípio, acompanhar a vida dos noivos por todas as paróquias por onde passaram. Acrescido a esses custos exigia-se o pagamento do pároco para a celebração da cerimônia. Assim, a burocracia necessária ao casamento acabava por torná-lo extremamente caro e por isso, inacessível. Numa perspectiva diversa, Ronaldo Vainfas sugere que, para a população pobre e desclassificada, não seriam os obstáculos financeiros e burocráticos que impediriam o casamento. As contingências da desclassificação, como a mobilidade e a ausência de bens e ofícios, isso sim afastava esses contingentes da vida conjugal.

Ao lado desses obstáculos havia ainda a impossibilidade de estender as relações conjugais à população escrava, para quem o casamento, por exigir certa autonomia, esbarrava com o poder do proprietário, sendo uma realidade praticamente inviável, ao menos nas áreas urbanas de Minas Gerais.

Esporádicas, quase casuísticas, algumas medidas procuravam superar essas dificuldades entre os fiéis do bispado. Na sua visita a Minas, em 1745, Frei Dom João da Cruz manda que juízes eclesiásticos, párocos, ministros e oficiais não dificultem o casamento de pessoas sabidamente pobres, de quem cobravam “salários”, para que não venha a ser “a sua pobreza e miséria o impedimento por que se deixem de receber os contraentes (...)”. Em Curral del-Rei, anos mais tarde, os escravos da freguesia poderiam casar na Sé ou capelas apenas com licença do reverendo cura.

O rigor institucional da Igreja para administração desse sacramento, curiosamente, acabava por jogá-la num insolúvel paradoxo. Se lançava mão de vários instrumentos coercitivos para intervir na vida familiar da população, por outro lado, não criava mecanismos apropriados para que a população sem recursos vivesse sob a conjugalidade cristã. Ao deixar de atender, com a generalização do casamento, às demandas de grande parte da população, a Igreja evidentemente acabou por condenar o projeto de disseminar famílias legítimas.

Maria Beatriz N. da Silva, preocupada em marcar a realidade da ação eclesial no Brasil colônia, sintetizaria assim a questão: “Se o Estado incentivava a multiplicação dos casamentos em todas as camadas sociais, pois defendia o princípio de que uma nação rica é uma nação abundantemente povoada, a Igreja colocava obstáculos que só eram revirados à custa de dinheiro para os cofres eclesiásticos”.

Diante dessas limitações institucionais multiplicaram-se as relações livres e consensuais à margem do controle da Igreja.


Luciano Raposo de Almeida Figueiredo
em Barrocas Famílias
vida familiar em Minas Gerais no século XVIII
Hucitec. São Paulo. 1997.

Sexta-feira, Setembro 11, 2009

 

AS CARTAS CHILENAS


CARTA 3ª


EM QUE SE CONTAM AS INJUSTIÇAS E VIOLÊNCIAS QUE FANFARRÃO EXECUTOU POR CAUSA DE UMA CADEIA, A QUE DEU PRINCÍPIO


Que triste, Doroteu, se pôs a tarde!

Assopra o vento sul, e densa nuvem

os horizontes cobre; a grossa chuva,

caindo das biqueiras dos telhados,

forma regatos, que os portais inundam.

Rompem os ares colubrinas fachas

de fogo devorante, e ao longe soa

de compridos trovões o baixo estrondo.

Agora, Doroteu, ninguém passeia,

todos em casa estão, e todos buscam

divertir a tristeza que nos peitos

infunde a tarde, mais que a noite feia.

O velho Alcimidonte, certamente,

tem postas nos narizes as cangalhas

e, revolvendo os grandes, gordos livros,

cos dedos inda sujos de tabaco,

ajunta ao mau processo muitas folhas

de vãs autoridades carregadas.

O nosso bom Dirceu talvez que esteja

com os pés escondidos no capacho,

metido no capote, a ler, gostoso,

o seu Vergílio, o seu Camões e Tasso.

O terno Floridoro, a estas horas,

no mole espreguiceiro se reclina

a ver brincar, alegres, os filhinhos:

um já montado na comprida cana

e outro pendurado no pescoço

da mãe formosa, que, risonho, abraça.

O gordo Josefino está deitado,

nada lhe importa, nem do mundo sabe;

ao som do vento, dos trovões e chuva,

como em noite tranqüila, dorme e ronca;

o nosso Damião, enfim, abana

ao lento fogo, com que, sábio, tira

os úteis sais da terra; e o teu Critilo,

que não encontra, aqui, com quem murmure,

quando só murmurar lhe pede o gênio,

pega na pena e desta sorte voa

de cá, tão longe, a murmurar contigo.

Já disse, Doroteu, que o nosso chefe,

apenas principia a governar-nos,

nos pertende mostrar que tem um peito

muito mais terno e brando do que pedem

os severos ofícios do seu cargo.

Agora cuidarás, prezado amigo,

que as chaves das cadeias já não abrem,

comidas da ferrugem? Que as algemas,

como trastes inúteis, se furtaram?

Que o torpe executor das graves penas

liberdade ganhou? Que já não temos

descalços guardiães, que à fonte levem,

metidos nas correntes, os forçados?

Assim, prezado amigo, assim devia

em Chile acontecer, se o nosso chefe

tivesse, em governar, algum sistema.

Mas, meu bom Doroteu, os homens néscios

às folhas dos olmeiros se comparam:

são como o leve fumo, que se move

para partes diversas, mal os ventos

começam a apontar de partes várias.

Ora, pois, doce amigo, atende o como

no seu contrário vício degenera

a falsa compaixão do nosso chefe,

qual o sereno mar, que, num instante,

as ondas sobre as ondas encapela.


Pertende, Doroteu, o nosso chefe

erguer uma cadeia majestosa,

que possa escurecer a velha fama

da torre de Babel e mais dos grandes,

custosos edifícios que fizeram,

para sepulcros seus, os reis do Egito.

Talvez, prezado amigo, que imagine

que neste monumento se conserve,

eterna, a sua glória, bem que os povos,

ingratos, não consagrem ricos bustos

nem montadas estátuas ao seu nome.

Desiste, louco chefe, dessa empresa:

um soberbo edifício, levantado

sobre ossos de inocentes, construído

com lágrimas dos pobres, nunca serve

de glória ao seu autor, mas sim de opróbrio.


Desenha o nosso chefe, sobre a banca,

desta forte cadeia o grande risco,

à proporção do gênio e não das forças

da terra decadente, aonde habita.

Ora, pois, doce amigo, vou pintar-te

ao menos o formoso frontispício.

Verás se pede máquina tamanha

humilde povoado, aonde os grandes

moram em casas de madeira a pique.


Em cima de espaçosa escadaria

se forma do edifício a nobre entrada,

por dous soberbos arcos dividida;

por fora destes arcos se levantam

três jônicas colunas, que se firmam

sobre quadradas bases e se adornam

de lindos capitéis, aonde assenta

uma formosa, regular varanda;

seus balaústres são das alvas pedras,

que brandos ferros cortam sem trabalho.

Debaixo da cornija, ou projectura,

estão as armas deste reino abertas

no liso centro de vistosa tarja.

Do meio desta frente sobe a torre

e pegam desta frente, para os lados,

vistosas galarias de janelas,

a quem enfeitam as douradas grades.



Tomás Antônio Gonzaga

Cartas Chilenas

em Poesias / Cartas Chilenas

edição crítica de M. Rodrigues Lapa

Instituto Nacional do Livro. Rio de Janeiro.

1957.


Quinta-feira, Setembro 10, 2009

 

CONGONHAS

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A CONSTRUÇÃO DA MINEIRIDADE


GUIMARÃES ROSA Mas, entretanto, cuidado. Falei em paradoxo. De Minas, tudo é possível. Viram como é de lá que mais se noticiam as coisas sensacionais ou esdrúxulas, os fenômenos? O diabo aparece, regularmente, homens e mulheres mudam anatomicamente de sexo, ocorrem terremotos, trombas-d’água, enchentes monstras, corridas-de-terreno, enormes ravinamentos que desabam serras, aparições meteóricas, tudo o que aberra e espanta. Revejam, bem. Chamam o seu povo de “carneirada”, porque respeita por modo quase automático seus Governos, impessoalmente, e os acata; mas, pr tradição, conspira com rendimento, e entra com decisivo gosto nas maiores rebeliões. Dados por rotineiros e apáticos, foram de repente à Índia, buscar o zebu, hoje temos até zebu barroco de O.P.! Que transformaram, dele fazendo uma riqueza, e o exportam até para o estrangeiro. Tidos como retrógrados, cedo se voltaram para a instrução escolar, reformando-a da noite para o dia, revolucionariamente, e ainda agora dividindo com São Paulo o primeiro lugar nesse campo. Sedentários famosos, mas que se derramaram sempre fora de suas divisas estaduais, iniciando, muito antes do avanço atual, o povoamento do Norte do Paraná, e enchendo com suas colônias o Rio, São Paulo, Goiás e até mato Grosso. Pacíficos por definição, tiveram em sua Força Pública militar, prussianamente instruída e disciplinada, uma favorável tropa de choque, tropa de guerra, que deu o que temer, e com larga razão. E, de seus homens políticos, por exemplo, vêem-se atitudes por vezes imprevisíveis e desconcertantes; que não são anômalas, senão antes marcas de sua coerência profunda — a única verdadeiramente com viabilidade e eficácia.


Disse que o mineiro não crê demasiado na ação objetiva; mas, com isso, não se anula. Só que mineiro não se move de graça. Ele permanece e conserva. Ele espia, escuta, indaga, protela ou palia, se sopita, tolera, remancheia, perrengueia, sorri, escapole, se retarda, faz véspera, tempera, cala a boca, matuta, destorce, engambela, pauteia, se prepara. Mas, sendo a vez, sendo a hora, Minas atende, toma tento, avança, peleja e faz.


Sempre assim foi. Artes e modos. Assim seja.



Fernando Correia Dias

A Mineiridade Vista por Dois Escritores Mineiros

em Mineiridade

Cadernos de Minas 2

Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa.

Belo Horizonte. 1986.


Sábado, Setembro 05, 2009

 

UM CURRAL DEL REI DE BELOS HORIZONTES


Tinha João Leite da Silva Ortiz por vizinhos: José Marques, povoador do Ribeirão dos Macacos; Bartolomeu Bueno da Silva, estabelecido no Pará; Borba Gato, no arraial que fundara depois chamado Arraial Velho, e no sítio que possuía junto ao ribeirão que vinha do Cercado; Francisco Rodrigues Penteado e seus irmãos, fundadores da Roça Grande; os irmãos Raposos, que exploraram o ribeirão desse nome e fundaram o respectivo arraial; Mateus Leme, que se estabeleceu em Itatiaiussu; Bento Pires, que senhoreou, com sua família, grandes latifúndios, que até hoje lhe conservam o nome, nas proximidades da Capital; Sebastião Pereira de Aguilar, baiano famoso, régulo temível, que se fixou em Caeté dominando toda a vasta região que ia de Bento Pires ao Sumidouro do Rio das Velhas, inclusive o Ribeirão das Abóboras, junto ao qual tinha uma fazenda como importador de gado dos currais da Bahia e da qual nasceu o arraial da Contagem, cujo nome deriva do fato de ser ali que se contava o gado importado da Bahia e do S. Francisco para pagar as taxas reais; Leonardo Nardes de Arzão e Souza, também em Caeté; José Rodrigues Betim, sua mulher, filhos e cunhados, bem como Antônio Pereira Taques, fundadores do arraial de Betim, hoje Capela Nova; Domingos Rodrigues da Fonseca, que descobriu o Ribeirão do Campo, no lugar chamado Congonhas, mais tarde Vila Nova de Lima e hoje Nova Lima; Francisco de Arruda e Saa, que se instalou com sua família nas margens do ribeirão que vinha do Cercado, nas proximidades do lugar hoje denominado general Carneiro, motivo pelo qual aquele ribeirão tomou o nome de Arrudas, o que se documenta com o seguinte extrato da carta de sesmaria publicada na Revista do Arquivo Público Mineiro, ano X, fasc. III e IV, 1905, p. 930:

Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho etc. Faço saber aos que esta minha Carta de Sesmaria virem que havendo respeito ao q’ por sua petição me enviou a dizer o Padre Manoel de Matos de Siqueira, sacerdote do hábito de S. Pedro, q’ ele suplicante estava em um sítio de roças em q’ vivia há dois para três anos, havendo de compra que fizera a José de Paiva e Alexandre Gonçalves, sito no ribeirão q’ vem do Curral d’El-Rei a desaguar no Rio das Velhas, junto a Francisco de Arruda e Sá, e porque ele suplicante tinha bastante fábrica, e carecia de matos para se alargar e acima da dita sua roça, entestando com ela está um pedaço de mato de uma e outra banda do ribeirão, queria ele suplicante haver por sesmaria mil braças de circuito, incluindo nelas a mesma roça”, etc.

Aí temos, pois, a origem do nome deste ribeirão tão nosso conhecido, que atravessa Belo Horizonte, o qual só tinha a denominação, que conserva, no lugar em que existia a fazenda de Francisco de Arruda, pois até 1894, dali para cima, os habitantes do arraial o indicavam pelas denominações dos lugares que ele banhava, tais como: Marzagão, Freitas, Cardoso, Saco, Calafate, Nogueira e Cercado. Outros o denominavam, geralmente, “Ribeirão Grande”.

Estabelecendo-se no Cercado com numerosa escravatura, dedicou-se Ortiz especialmente ao plantio de roças, criação e negociação de gado, trabalhos de engenho e, provavelmente, a faisqueiras de ouro, nos córregos. Os bons resultados de seus trabalhos foram atraindo outros povoadores.

Com o correr do tempo e devido ás excepcionais condições da localidade — ótimas pastagens, magníficas e abundantes aguadas, clima excelente, beleza paradisíaca — onde se importava grande quantidade de gado, vindo dos sertões da Bahia e do S. Francisco para o abastecimento das zonas auríferas. Cercado tornou-se um dos pontos de concentração dos rebanhos transitados pelo registro das Abóboras, onde, como dissemos, Sebastião Pereira de Aguilar tinha uma grande fazenda. Este Aguilar, em 1714, era já um velho trôpego e doente, pelo que D. Brás Baltasar, “atendendo aos seus achaques e idade, aliviava-o do encargo do governo da comarca e nomeava para substituí-lo o brigadeiro João Lobo de Macedo”.


Abílio Barreto
Belo Horizonte
memória histórica e descritiva
história antiga
Livraria Rex. Belo Horizonte
2ª edição. 1936.

Sexta-feira, Setembro 04, 2009

 

COROGRAFIA HISTÓRICA


O PRIMEIRO OURO


A bandeira de Antônio Rodrigues de Arzão deixou São Paulo em 1692, quase certamente em abril. Em fins de junho alcançaria Itaverava, ponto geográfico de bifurcação, pois a noroeste levava ao Rio das Velhas e a nordeste e norte, acompanhando o Rio Doce, conduzia ao Cuieté (região das cuias, consoante o topônimo tupi, ao passo que Caeté significa a região das matas fechadas, de caá, floresta, donde o topônimo posterior de Mato Dentro para toda esta região). Tendo Arzão e seus cinqüenta companheiros feito roça e arraial em Itaverava para passarem a montaria, nome com que designavam a estação chuvosa, geralmente chamada de inverno, ao contrário de verão, que em vez do clima se referia à estação seca, terá sido colhido de surpresa pelos puris e seus aliados botocudos. Só lhes restou a fuga pelo Rio Doce abaixo, sofrendo pesadas baixas tanto que apenas Arzão e nove companheiros chegaram ao Espírito Santo. Nas roças de Itaverava, com parcos meios de mineração, haviam colhido 3 oitavas de ouro (cerca de 10 gramas), ouro providencial que Arzão dá a manifesto ao Capitão-Mor Regente, para merecer todo o auxílio possível, propondo-se a voltar a Itaverava, se o quisessem acompanhar com os reforços indispensáveis.


O apógrafo de Cláudio diz que Arzão era “taubateano”, tratando-se em verdade (e de acordo com o original Costa matoso) de um “paulista”, pois tinha habitação nas cercanias de são Paulo pelo lado sul, no Mboi-mirim, atual Embu, sede de uma aldeia jesuíta.


Diz Cláudio: “Chegados à Capitania do Espírito Santo, apresentou ao Capitão-Mor Regente daquela vila três oitavas de ouro. A Câmara os recebeu com agrado e lhes ministrou os víveres e vestuários de que careciam, segundo as ordens que de el-Rei tinham. Deste ouro se mandaram fazer duas memórias: uma, que ficou ao dito Arzão; e outra, que tomou para si o Capitão-Mor.” É o tema do canto 2º do poema Vila Rica.


Podemos completar a narrativa indicando que atingiriam a Vila de Vitória, o mais tardar, em janeiro de 1693. Sendo a monção (ventos e corrente marítima favoráveis na direção norte-sul) própria, voltariam para são Paulo por mar, chegando ao destino no mês de março. Acrescente-se que o fracasso da bandeira, sob o aspecto econômico, afastaria Arzão de qualquer nova iniciativa, perdendo a confiança de novos companheiros, além de ficar literalmente quebrado. Piedosamente, alega Bento Fernandes que teria chegado gravemente enfermo e que faleceria pouco depois, quando na realidade encontramos sua assinatura em vários inventários posteriores e, em 1720, um escravo seu sendo penhorado por Francisco do Amaral Gurgel em Parati “por dívidas de jogo muitos anos antes na Vila de São João del Rei”.


O adulterador do apógrafo de Cláudio esqueceu-se de que apontara Arzão como “taubateano”, pelo que a narrativa continua: “Antônio Rodrigues de Arzão, não podendo ajuntar na vila do Espírito Santo a gente que precisava para segunda vez tornar aos sertões, se passou ao Rio de Janeiro e daí a São Paulo. Nesta cidade, ferido gravemente dos trabalhos que passara, enfermou e veio a morrer finalmente, deixando encarregado a Bartolomeu Bueno (de Siqueira), seu cunhado, de continuar no descobrimento de que havia apresentado as amostras.”


Acrescentamos que era Capitão-Mor Regente da capitania feudatária do Espírito Santo, João Velasco de Molina. Na capitania feudatária de São Vicente (ex-Santo Amaro), que desde 1681 passara a ter como capital a vila de São Paulo, era Capitão-Mor Regente Manuel Peixoto da Mota (1692-1694). Na capitania feudatária de Itanhaém, o Capitão-Mor Regente é Martim Garcia Lumbria, que em 1694 nomearia Carlos Pedroso da Silveira para o cargo trienal de Capitão-Mor da Vila de Taubaté. O Rio de Janeiro era capitania da Coroa, tendo pois governador e capitão-general com ascendência sobre as vizinhas, assim como ouvidor geral com jurisdição de alçada no judiciário sobre todo o sul do Brasil. Governava-a Luís César de Meneses, que a 25-03-1693 foi sucedido por Antônio Pais de Sande, primeiro governador a dar notícia à Corte do ouro de Minas Gerais, cuja amostra insignificante não impressionou a El-Rei d. Pedro II. Deu-a de presente ao Patriarca de Lisboa. Tal amostra, quando do centenário de nossa Independência, 1922, foi oferecida ao Presidente Epitácio Pessoa pelo então Patriarca de Lisboa, voltando ao Brasil. Antônio Pais de Sande sofreria um derrame cerebral no Rio de janeiro a 6-10-1694, sendo substituído interinamente no mês seguinte pelo Cel. André Cussaco, chefe militar da Bahia.



Raimundo José da Cunha Matos

Corografia Histórica da Província de Minas Gerais (1837)

Vol. 1. Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo.

Belo Horizonte / São Paulo. 1981.


 

RIO ACIMA

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Quinta-feira, Setembro 03, 2009

 

O NEGRO E O GARIMPO